quinta-feira, 5 de setembro de 2019

O EXCESSO DE MORALISMO DE NOSSA SOCIEDADE


 Todo grupo social tem seus códigos morais que mudam de acordo com a época e a evolução dos costumes. Por exemplo, a nudez: entre os nossos índios, era absolutamente normal; já a sociedade vitoriana e cristã europeia tinha (e ainda tem) horror aos corpos nus, com exceção de alguns países, como a Alemanha, em que a nudez pública em alguns parques, durante o verão, é absolutamente aceitável, enquanto a maioria dos países do mundo trata a nudez pública como “atentado ao pudor”, com punições que chegam a ser bastante severas. 



Não coloquemos, no entanto, na conta do moralismo o estupro, pedofilia ou, até mesmo, zoofilia, porque as consideramos práticas criminosas, em que não há consenso, permissão, entre os praticantes, além da óbvia e condenável violência. Mas, a visão de pessoas praticando sexo consensual, seja ao vivo e em cores, seja em gravuras, pinturas ou outras formas de reprodução, para plateias que ali estejam por sua livre escolha, não pode e não deve ser condenado. Isso já é o que chamamos falso moralismo e contra ele devemos todos lutar sempre. 



Conta-nos Wellington F, em seu blog: “estava procurando imagens para ilustrar uma das minhas postagens e me deparei com a foto de uma mulher lendo uma história infantil para crianças em uma escola. Só que essa imagem causou uma polêmica danada: a mulher que estava lendo para as crianças era uma ex-atriz pornô. 


A atriz é a norte-americana Marina Ann Hantzis, mais conhecida como Sasha Grey. Apesar de ter atuado em diversos filmes pornográficos, ela está 'aposentada' e trabalha atualmente como cineasta, escritora, fotógrafa, artista performática e musicista. Mas bastou que se soubesse a antiga profissão da moça que começaram as pesadas críticas.” 


Sasha estava bem vestida, comportada e agindo de forma natural. Mas os pais das crianças dessa escola ficaram indignados com o fato de uma atriz pornográfica estar lendo livros para os seus filhos - como se ela fosse menos humana por isso. Parecia até que a mulher tinha alguma doença contagiosa ou que poderia atacar sexualmente as crianças.” 



Isso é exagero, é falso moralismo! 



Num site português, encontro o seguinte texto, de Patrícia Reis: “O que me atormenta é o moralismo em que vivemos. Quem é que define o que é ética e moralmente correcto quando toca às coisas da sexualidade? O que me preocupa é uma situação como esta que passo a descrever. 


Na sala de aula de uma universidade decorre, num silêncio perturbado pelo choro, um exame. O professor, constrangido com a aflição da aluna, aproxima-se da mesa da rapariga e pergunta, em sotto voce, se há algum problema e pede para o acompanhar e saem da sala, com o objectivo de não perturbar o resto da turma.

A rapariga começa a desbobinar o filme trágico que é a sua existência, perdeu o emprego, as chaves de casa, o gato teve um ataque cardíaco e mais não sei quantas coisas deprimentes e avassaladores que podem ocorrer na vida das pessoas. Está um caco. O professor tenta o consolo e uma solução: “Bom, nesse caso, se não está em condições de fazer o exame, o melhor será fazer na amanhã na outra turma...”. 



A moça continua em prantos, são sete da tarde, a universidade não está a borbulhar de gente, não há testemunhos deste encontro, e o professor consola a aluna, coloca-lhe (ó meu Deus!) uma mão no ombro. Lá se consegue chegar a uma certa calma, regressam à sala de aula e a aluna recupera forças e ânimo e faz o exame. O professor conta este episódio a outros professores que o olham chocado: tu tocaste numa aluna sem testemunhas? Tu sabes que isso agora é assédio? 

É triste que gestos de consolo possam ser confundidos desta forma, ou não é? Eu acho que é. Se tocar nas pessoas começa a ser pretexto para uma acusação, vamos viver amarrados, contidos, vigilantes uns dos outros e, pior ainda, vamos condenar as próximas gerações a terem uma sexualidade muito infeliz. Sim, a sexualidade deve ser vivida de forma saudável, de acordo, mas com tanto fiscalismo agora temos de perguntar: posso tocar-te? Posso beijar-te? Posso colocar a mão no teu corpo? É isto que os jovens devem fazer uns com os outros, para que estejam isentos dessa coisa perigosa que é a acusação?” 


O tal do “politicamente correto” pode ser excesso de moralismo! 



De volta ao Brasil, encontro as narrativas e os protestos de Luiz Ruffato: “No dia 20 de janeiro de 2016, ao descobrir que a filha de 13 anos havia perdido a virgindade, o pai espancou-a com um cabo elétrico, causando oito lesões de 22 centímetros nas costas, e ainda humilhou-a, cortando seus cabelos com uma tesoura. Na semana passada, o réu foi inocentado pelo juiz Leandro Jorge Bittencourt Cano, do Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher de Guarulhos (SP), que afirmou em sua sentença que o pai buscou apenas corrigir a garota. 


Já Waldemar Cláudio de Carvalho, juiz federal da 14ª Vara do Distrito Federal, concedeu liminar ao pedido da psicóloga Rozângela Alves Justino, em processo contra o Conselho Federal de Psicologia (CFP), que lhe havia aplicado censura por oferecer uma terapia de reversão sexual a seus pacientes, conhecida como cura gay. Segundo o juiz, não deve o psicólogo deixar “de estudar ou atender àqueles que voluntariamente venham em busca de orientação acerca de sua sexualidade, sem qualquer forma de censura". 
Em Jundiaí (SP), o juiz Luiz Antônio de Campos Júnior, da 1ª Vara Cível, decidiu impedir a exibição da peça de teatro O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, que estava em cartaz na unidade local do Serviço Social do Comércio (Sesc). A obra, criada pela dramaturga escocesa transexual Jo Clifford, mostra Jesus Cristo nos dias atuais, encarnado na pele de uma mulher transexual. Segundo o juiz, a peça é “atentatória à dignidade da fé cristã, na qual Jesus Cristo não é uma imagem e muito menos um objeto de adoração apenas, mas sim o filho de Deus”... 
Sem precisar recorrer à Justiça, o Movimento Brasil Livre (MBL) conseguiu acabar com a exposição “Queermuseu – Cartografias da diferença na arte brasileira”, que estava no Santander Cultural, em Porto Alegre (RS). A mostra, que propunha uma reflexão sobre gênero e diversidade sexual, reunia 273 obras de 90 artistas brasileiros, entre os quais Ligia Clark, Candido Portinari, Alfredo Volpi e Adriana Varejão. Segundo a Arquidiocese de Porto Alegre, a exposição utilizava “de forma desrespeitosa símbolos, elementos e imagens, caricaturando a fé católica e a concepção de moral que enleva o corpo humano e a sexualidade como dom de Deus”. 



E por aí vai a “crise de moralismo que assola o País” e, lamentavelmente, o mundo. As pessoas estão perdendo a medida da racionalidade e deixando de ser razoáveis, por motivos religiosos ou ético-morais totalmente discutíveis. E o pior: essa “onda” de moralistas que impor a ferro e fogo os seus valores, esquecendo-se de que, em sociedades democráticas, quando isso acontece, abre-se o caminho para o ódio, as perseguições e o totalitarismo. 




(Ilustram essa matéria obras de GEORG EMMANUEL OPITZ - PRAGA 1775 - LEIPZIG 1841) 



Fontes: