quarta-feira, 5 de junho de 2019

O EROTISMO JOCOSO DO SÉCULO DE OURO ESPANHOL





Por Século de Ouro entende-se a época clássica e o auge da cultura espanhola, essencialmente desde o Renascimento do século XVI até o Barroco do século XVII. Sujeito a datas concretas de acontecimentos chaves, seu início é marcado pela publicação da Gramática Castellana, de Antonio de Nebrija, em 1492, até a morte de Calderón de la Barca, em 1681. 


As artes e, entre elas a literatura, tiveram um grande florescimento nessa época, ainda que sob o tacão da inquisição católica que, na Espanha, teve seus melhores momentos. A repressão sexual constituía-se num dos baluartes de controle pela Igreja de seus fiéis. Sexo só dentro das sagradas bênçãos do matrimônio e, assim mesmo, só para proliferação. 


Provavelmente, a maioria das mulheres – e também dos homens – nunca chegou a ver uma vagina. Os órgãos sexuais – principalmente das mulheres, escondidos entre as pernas, no meio de uma vasta pentelheira - deviam ser um mistério que só os pintores mais ousados obtinham alguma visão ou conhecimento. 


Mesmo assim, muitos poetas e trovadores (cantores ambulantes) compunham poemas e canções com um erotismo muitas vezes até grosseiro. Quase sempre de forma anônima. E tinham por mote principal um erotismo jocoso, em que o humor era talvez a forma de amenizar suas críticas e escandalizar menos os ouvidos sensíveis de damas e cavalheiros das cortes por onde exibiam sua arte. 


O soneto abaixo é, sem dúvida, um bom exemplo dessa arte divertida, zombeteira e, ao mesmo tempo, ferina na crítica aos costumes da época. Seu autor é desconhecido, provavelmente mais um trovador famoso que não desejava ser preso e torturado pelos inquisidores, por uma bobagem assim: 


Soneto, de Anônimo 

(século de ouro da literatura espanhola) 


À beira d'água estando certo dia, 

descuidada, uma dama primorosa 

de mirar seu inferno desejosa 

e vendo-se ali só, sem companhia, 


a saia ergueu, que vê-lo lhe impedia 

e feliz de ver coisa tão preciosa, 

e que de dentro d'alma lhe saía: 



"Por vós eu sou de tantos requestada, 

por vós me dão colares e pulseira, 

sapatos, saia e manto para o frio. 



Um beijo quero dar-vos" e abaixada 

para o dar escorregou na beira 

e de cabeça despencou no rio. 


Para os mais curiosos, o texto original: 



Soneto 



A la orilla del agua estando um dia, 

ajena de cuidado, una hermosa 

de mirarse su infierno deseosa, 

por verse sola allí sin compañia, 



la saya alzó que ver se lo empedía, 

y, pegada de ver tan rica cosa, 

le dice con voz mansa e amorosa: 

"Por vos soy yo de tantos requuebrada, 

por voz me dan aljorcas, gargantilla, 

chapines, saya y manto para el frio, 



Um beso quiero darvos," Y abajada 

a darle, por estar tan a orilla, 

trompicó e cabeça y dio en el rio. 



(Poesia Erótica em tradução de José Paulo Paes, Companhia de Bolso)