sábado, 5 de outubro de 2019

PARA OS MORALISTAS, A DELICIOSA CANÇÃO SAFADA DE COLE PORTER




Para encerrar, pelo menos por enquanto, o assunto “moralismo”, vamos falar de música. Cole Porter ((9 de junho de 1891 — 15 de outubro de 1964), o genial compositor estadunidense, e seu parceiro Noël Coward escreveram uma deliciosa canção de amor, não exatamente nos moldes românticos da época, mas exaltando o amor físico, dizendo de forma poética e musical aquilo que aqui temos afirmado: que sexo todo ser vivo faz! Você pode encontrar, no final, endereços da versão original, com o próprio compositor ao piano e mais uma versão com a fantástica Ella Fitzgerald. O que vamos apresentar aqui é a versão que Chico Buarque, também genial, fez dessa música e o endereço é de sua apresentação com ninguém menos do que Elza Soares. Divirta-se com a letra e música, tanto no original quanto em português, mais as nossas ilustrações. 


Façamos (Vamos Amar) 

Chico Buarque de Holanda 


Os cidadãos no Japão fazem 

Lá na China um bilhão fazem 

Façamos, vamos amar 


Os espanhóis, os lapões fazem 

Lituanos e letões fazem 

Façamos, vamos amar 


Os alemães em Berlim fazem 

E também lá em Bonn 

Em Bombaim fazem 

Os hindus acham bom 



Nisseis, níqueis e sansseis fazem 

Lá em São Francisco muitos gays fazem 

Façamos, vamos amar 


Os rouxinóis nos saraus fazem 

Picantes pica-paus fazem 

Façamos, vamos amar 



Uirapurus no Pará fazem 

Tico-ticos no fubá fazem 

Façamos, vamos amar 



Chinfrins, galinhas afim fazem 

E jamais dizem não 

Corujas sim fazem, sábias como elas são 



Muitos perus todos nus fazem 

Gaviões, pavões e urubus fazem 

Façamos, vamos amar 



Dourados no Solimões fazem 

Camarões em Camarões fazem 

Façamos, vamos amar 



Piranhas só por fazer fazem 

Namorados por prazer fazem 

Façamos, vamos amar 



Peixes elétricos bem fazem 

Entre beijos e choques 

Cações também fazem 

Sem falar nos hadoques 



Salmões no sal, em geral, fazem 

Bacalhaus no mar em 

Portugal fazem 

Façamos, vamos amar 



Libélulas em bambus fazem 

Centopeias sem tabus fazem 

Façamos, vamos amar 



Os louva-deuses com fé fazem 

Dizem que bichos de pé fazem 

Façamos, vamos amar 


As taturanas também fazem 

com um ardor incomum 

Grilos meu bem fazem 

E sem grilo nenhum 


Com seus ferrões os zangões fazem 

Pulgas em calcinhas e calções fazem 

Façamos, vamos amar 



Tamanduás e tatus fazem 

Corajosos cangurus fazem 

Façamos, vamos amar 



Coelhos só e tão só fazem 

Macaquinhos no cipó fazem 

Façamos, vamos amar 



Gatinhas com seus gatões fazem 

Tantos gritos de ais 

Os garanhões fazem 

Esses fazem demais 



Leões ao léu, sob o céu, fazem 

Ursos lambuzando-se no mel fazem 

Façamos, vamos amar 

Façamos, vamos amar 






Fontes: 

Chico Buarque e Elza Soares: 





Cole Porter (Let's Do It - Let's Fall In Love): 


Ella Fitzgerald: 

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

O EXCESSO DE MORALISMO DE NOSSA SOCIEDADE


 Todo grupo social tem seus códigos morais que mudam de acordo com a época e a evolução dos costumes. Por exemplo, a nudez: entre os nossos índios, era absolutamente normal; já a sociedade vitoriana e cristã europeia tinha (e ainda tem) horror aos corpos nus, com exceção de alguns países, como a Alemanha, em que a nudez pública em alguns parques, durante o verão, é absolutamente aceitável, enquanto a maioria dos países do mundo trata a nudez pública como “atentado ao pudor”, com punições que chegam a ser bastante severas. 



Não coloquemos, no entanto, na conta do moralismo o estupro, pedofilia ou, até mesmo, zoofilia, porque as consideramos práticas criminosas, em que não há consenso, permissão, entre os praticantes, além da óbvia e condenável violência. Mas, a visão de pessoas praticando sexo consensual, seja ao vivo e em cores, seja em gravuras, pinturas ou outras formas de reprodução, para plateias que ali estejam por sua livre escolha, não pode e não deve ser condenado. Isso já é o que chamamos falso moralismo e contra ele devemos todos lutar sempre. 



Conta-nos Wellington F, em seu blog: “estava procurando imagens para ilustrar uma das minhas postagens e me deparei com a foto de uma mulher lendo uma história infantil para crianças em uma escola. Só que essa imagem causou uma polêmica danada: a mulher que estava lendo para as crianças era uma ex-atriz pornô. 


A atriz é a norte-americana Marina Ann Hantzis, mais conhecida como Sasha Grey. Apesar de ter atuado em diversos filmes pornográficos, ela está 'aposentada' e trabalha atualmente como cineasta, escritora, fotógrafa, artista performática e musicista. Mas bastou que se soubesse a antiga profissão da moça que começaram as pesadas críticas.” 


Sasha estava bem vestida, comportada e agindo de forma natural. Mas os pais das crianças dessa escola ficaram indignados com o fato de uma atriz pornográfica estar lendo livros para os seus filhos - como se ela fosse menos humana por isso. Parecia até que a mulher tinha alguma doença contagiosa ou que poderia atacar sexualmente as crianças.” 



Isso é exagero, é falso moralismo! 



Num site português, encontro o seguinte texto, de Patrícia Reis: “O que me atormenta é o moralismo em que vivemos. Quem é que define o que é ética e moralmente correcto quando toca às coisas da sexualidade? O que me preocupa é uma situação como esta que passo a descrever. 


Na sala de aula de uma universidade decorre, num silêncio perturbado pelo choro, um exame. O professor, constrangido com a aflição da aluna, aproxima-se da mesa da rapariga e pergunta, em sotto voce, se há algum problema e pede para o acompanhar e saem da sala, com o objectivo de não perturbar o resto da turma.

A rapariga começa a desbobinar o filme trágico que é a sua existência, perdeu o emprego, as chaves de casa, o gato teve um ataque cardíaco e mais não sei quantas coisas deprimentes e avassaladores que podem ocorrer na vida das pessoas. Está um caco. O professor tenta o consolo e uma solução: “Bom, nesse caso, se não está em condições de fazer o exame, o melhor será fazer na amanhã na outra turma...”. 



A moça continua em prantos, são sete da tarde, a universidade não está a borbulhar de gente, não há testemunhos deste encontro, e o professor consola a aluna, coloca-lhe (ó meu Deus!) uma mão no ombro. Lá se consegue chegar a uma certa calma, regressam à sala de aula e a aluna recupera forças e ânimo e faz o exame. O professor conta este episódio a outros professores que o olham chocado: tu tocaste numa aluna sem testemunhas? Tu sabes que isso agora é assédio? 

É triste que gestos de consolo possam ser confundidos desta forma, ou não é? Eu acho que é. Se tocar nas pessoas começa a ser pretexto para uma acusação, vamos viver amarrados, contidos, vigilantes uns dos outros e, pior ainda, vamos condenar as próximas gerações a terem uma sexualidade muito infeliz. Sim, a sexualidade deve ser vivida de forma saudável, de acordo, mas com tanto fiscalismo agora temos de perguntar: posso tocar-te? Posso beijar-te? Posso colocar a mão no teu corpo? É isto que os jovens devem fazer uns com os outros, para que estejam isentos dessa coisa perigosa que é a acusação?” 


O tal do “politicamente correto” pode ser excesso de moralismo! 



De volta ao Brasil, encontro as narrativas e os protestos de Luiz Ruffato: “No dia 20 de janeiro de 2016, ao descobrir que a filha de 13 anos havia perdido a virgindade, o pai espancou-a com um cabo elétrico, causando oito lesões de 22 centímetros nas costas, e ainda humilhou-a, cortando seus cabelos com uma tesoura. Na semana passada, o réu foi inocentado pelo juiz Leandro Jorge Bittencourt Cano, do Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher de Guarulhos (SP), que afirmou em sua sentença que o pai buscou apenas corrigir a garota. 


Já Waldemar Cláudio de Carvalho, juiz federal da 14ª Vara do Distrito Federal, concedeu liminar ao pedido da psicóloga Rozângela Alves Justino, em processo contra o Conselho Federal de Psicologia (CFP), que lhe havia aplicado censura por oferecer uma terapia de reversão sexual a seus pacientes, conhecida como cura gay. Segundo o juiz, não deve o psicólogo deixar “de estudar ou atender àqueles que voluntariamente venham em busca de orientação acerca de sua sexualidade, sem qualquer forma de censura". 
Em Jundiaí (SP), o juiz Luiz Antônio de Campos Júnior, da 1ª Vara Cível, decidiu impedir a exibição da peça de teatro O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, que estava em cartaz na unidade local do Serviço Social do Comércio (Sesc). A obra, criada pela dramaturga escocesa transexual Jo Clifford, mostra Jesus Cristo nos dias atuais, encarnado na pele de uma mulher transexual. Segundo o juiz, a peça é “atentatória à dignidade da fé cristã, na qual Jesus Cristo não é uma imagem e muito menos um objeto de adoração apenas, mas sim o filho de Deus”... 
Sem precisar recorrer à Justiça, o Movimento Brasil Livre (MBL) conseguiu acabar com a exposição “Queermuseu – Cartografias da diferença na arte brasileira”, que estava no Santander Cultural, em Porto Alegre (RS). A mostra, que propunha uma reflexão sobre gênero e diversidade sexual, reunia 273 obras de 90 artistas brasileiros, entre os quais Ligia Clark, Candido Portinari, Alfredo Volpi e Adriana Varejão. Segundo a Arquidiocese de Porto Alegre, a exposição utilizava “de forma desrespeitosa símbolos, elementos e imagens, caricaturando a fé católica e a concepção de moral que enleva o corpo humano e a sexualidade como dom de Deus”. 



E por aí vai a “crise de moralismo que assola o País” e, lamentavelmente, o mundo. As pessoas estão perdendo a medida da racionalidade e deixando de ser razoáveis, por motivos religiosos ou ético-morais totalmente discutíveis. E o pior: essa “onda” de moralistas que impor a ferro e fogo os seus valores, esquecendo-se de que, em sociedades democráticas, quando isso acontece, abre-se o caminho para o ódio, as perseguições e o totalitarismo. 




(Ilustram essa matéria obras de GEORG EMMANUEL OPITZ - PRAGA 1775 - LEIPZIG 1841) 



Fontes: 



sábado, 3 de agosto de 2019

MORALISMO: SANDICE OU FASCISMO?





Você que parou por alguns segundos a contemplar a animação acima pense um pouquinho e tente responder: quantas vezes esse entra-e-sai do pênis na vagina (ou, se quisermos ser mais diretos, do pau na boceta) está ocorrendo neste exato momento em todo o planeta? 



Impossível saber, não é? Porque, enquanto você leu essas poucas linhas centenas, milhares, milhões de pessoas estão neste exato momento fornicando, fazendo sexo em todas as posições possíveis e imagináveis, sendo ou não os parceiros do jogo sexual do mesmo sexo, ou seja, homem com homem, mulher com mulher, vários homens, várias mulheres, num mosaico incrível de prazer e gozo. 



E se você está lendo essas linhas é porque, um dia, seu pai e sua mãe fizeram exatamente a mesma coisa que o casal acima. Ou até mesmo gozaram os corpos um do outro de mil maneiras diferentes até que uma semente plantada no útero de sua mãe possibilitou que você estivesse agora aqui, lendo e vendo tudo isso e, talvez, pensando: caramba, que absurdo! 


Não, sexo não é absurdo. Todos os seres humanos (e, por extensão, todos os seres vivos) podem fazer sexo e estão aptos para fazê-lo e, se alguns não o fazem, é apenas por opção, não por não poderem fazê-lo. E o número dos que não o fazem é absolutamente irrelevante para a perpetuação da espécie humana. 



Seus pais treparam e, antes deles, todos os seus ascendentes. E, a seu redor, homens e mulheres trepam, não importa se são seus filhos ou suas filhas, seus irmãos ou suas irmãs, seus amigos ou suas amigas. Todo mundo (ou quase) trepa. Faz sexo. Tem prazer com isso. Goza. 



Então, por que as pessoas ficam neuróticas por causa do sexo? Ou melhor, por que se tornam moralistas, a ponto de querer proibir que se fale de sexo, que se eduquem sexualmente os jovens, que não se vejam imagens de nudez ou de sexo, mesmo que a exibição seja só para maiores? 



Por que esse moralismo todo? O que há de mal ou o que pode mudar a vida de uma pessoa, por estar ela contemplando um casal trepando ou assistindo a um filme de sexo, ou vendo uma exposição de pinturas ou desenhos que exponham sexualidade, ou lendo uma história que contenha descrições ou narrações de encontros sexuais? 


A repressão sexual só tem trazido sofrimentos e angústias: sexualidade precoce dos jovens e, consequentemente, sentimento de culpa e, muitas vezes, gravidez precoce e indesejada; abortos; estupros; frustração por desconhecimento da própria sexualidade; frigidez; ejaculação precoce; doenças sexualmente transmissíveis, algumas delas mortais, como a SIDA/AIDS... 



O moralismo, se por motivos religiosos, é de uma total sandice, já que, se você pratica uma religião, sabe que o seu deus criou você assim, sexuado, e não há nada que se possa fazer contra isso. E se o moralismo tem origem política ou ideológica, isso só pode mesmo ser uma face bastante negra de um fascismo absurdo e destruidor. 



Voltaremos ao assunto, na publicação seguinte. Enquanto isso, pense um pouco sobre o assunto. Encha seus olhos com as fotos que ilustram esse artigo, sem nenhum preconceito, sem nenhum moralismo, imaginando que você também faz tudo isso ou parte disso e o que você faz ou como faz com seu parceiro ou sua parceira só diz respeito a você e a mais ninguém.