segunda-feira, 30 de abril de 2018

CU: A PALAVRA É PEQUENA, MAS GERA GRANDES DISCUSSÕES...



Já se falou aqui, neste blog, várias vezes de cu (a palavra é tão pequena, que fica perdida na lista de assuntos): abordou-se o sexo anal, inclusive sob a perspectiva de uma garota alemã, enalteceu-se o beijo grego, tanto em homens quanto em mulheres; já até se falou dele literariamente (ver George Bataille) e poeticamente (ver Adélia Prado ou o “soneto do olho do cu”, de Rimbaud e Verlaine). Portanto, a abordagem a seguir pode ser um outro olhar sobre o assunto. Leia e divirta-se: 


O MACHISMO E O CU 


Nunca entendi essa fixação com cu. Dizem que é porque é mais apertado e por isso homens curtem botar o piru lá. Há também motivos psicológicos: é tabu, rola um quê de dominação e, por ser algo que supostamente poucas mulheres fazem, ainda tem o prazer da conquista (joguei o tema no Google e li uns textos hilários, cafonérrimos e acima de tudo bem machistas). Mas isso não explica por que a coisa em si é tabu. E aí vamos expandir: e o cu deles? Conheço uma mulher que sempre dá a mesma resposta quando um homem pede anal: “Só se você deixar eu meter no seu também.” A reação mais comum é horror  —  a mais comum, mas não a única. 


Eu tinha 12 anos na primeira vez que ouvi falar sobre sexo anal. Estava em sala de aula — aliás, que inapropriado, não? — e me lembro de a professora dizer que jamais deveríamos fazer isso, porque cu é lugar de sair, não de entrar. Disse que nosso corpo não foi feito pra fazer aquele movimento de entrada. 


A segunda lembrança que tenho sobre esse assunto vem dos meus 15 anos. Uma menina de 13, na escola, estava chateada, chorando, porque o garoto que ela gostava não parava de sair com outras garotas. E ela dizia: “Eu não sei por que ele faz isso. TUDO que ele pode conseguir com outras, eu faço. Eu faço oral, eu faço anal, não tem por que ele ficar com outras.” Foi na mesma conversa que uma colega comentou que só fazia anal, porque queria continuar virgem. 


Já aos 16 anos, me lembro de outro professor, também em sala de aula, aconselhar mulheres a não darem o cu. Ele dizia que, na hora, enquanto o cara tá pedindo, é tudo lindo, mas que, depois de feito, o cara perde o respeito por você. 


Na primeira história, ignorância e talvez um pouco de homofobia. Na segunda, tem tanto fruto de machismo, que nem sei por onde começar. Aquilo que na época me chocou, hoje em dia me dá uma tristeza real: pensar em uma menina de 13 anos fazendo qualquer sexo possível pra manter um namorado e sem conseguir entender por que não funcionava. Uma menina de 13 anos acreditando que a chave do coração daquele menino estava nas maneiras que ela o deixava usar seu corpo. 


Dá, talvez, pra relacionar a segunda história com a terceira: aquela em que a mulher é sempre tão somente objeto e não sujeito do desejo sexual que, assim que “cede” ao sexo anal, perde o respeito do homem. (Só que nem precisa ser sexo anal, né? Basta ter qualquer demonstração de agência.) E nada disso tem a ver com o conselho da primeira professora, que achava que era tudo só uma questão de despreparo físico. 


Dados científicos mostram que o ânus é uma fonte de prazer fortíssima (especialmente) para homens, mas, devido ao grande estigma que há em torno do cu, muitos não querem nem tentar descobri-la. Há duas questões que fazem com que sexo anal seja tão estigmatizado: 1) não tem fins reprodutivos e 2) é comumente visto como algo que apenas homens gays fazem — e pasme, nem todo gay faz. 

(Paul Avril)

Na Roma antiga, o padrão de sexualidade masculina incluía tanto homens quanto mulheres, ou seja, homens transavam com ambos os sexos. A masculinidade e o poder eram reforçados de acordo com aquele que penetrava. O binário estabelecido era o penetrador (dominante) e o penetrado (submisso), algo muito semelhante ao conceito de ativo x passivo. Há, desde essa época da história, uma desvalorização daquele que é penetrado. Vemos isso na linguagem que se usa hoje em dia: “vai virar mulherzinha na cadeia” significa nada menos que aquele homem vai ser estuprado (no ânus). Na mesma linha, é muito comum casais homoafetivos ouvirem a pergunta: “quem é o homem da relação?”, e a resposta, de acordo com o senso comum, é o ativo. 


Ser ativo também se relaciona com ser forte, eficaz, energético, em oposição a seus pares fraco, ineficaz, apático e por aí vai. Curiosamente, o primeiro termo de cada par representa muito bem estereótipos masculinos, assim como o segundo termo representa estereótipos femininos. O segundo termo de um binarismo é sempre aquele que tem conotações sociais negativas. Logo, não é à toa que ser identificado na segunda coluna seja motivo de desconforto para tantos homens. 


(Uma pausa pra problematizar essa história de ativo x passivo. Tem conceito mais bobo que esse? A pessoa sendo penetrada não tem papel ativo no sexo? Essa divisão entre ativo x passivo é totalmente focada em uma visão falocêntrica de sexo, ou seja, aquela que entende que sexo se resume a um pênis entrando em algum lugar. É uma visão tão senso comum, que muita gente nem entende como lésbicas fazem sexo ou chegam a dizer que lésbicas não fazem sexo de verdade, como se sexo dependesse da participação de um pênis ou de algo que simule um.) 


Voltando para o estigma: alguns homens, apesar de tudo, estão libertos dessas neuras e gostam sim de usar o cu (ou não estão libertos e gostariam, mas não o fazem). Muito além do famoso “fio terra”, há o pegging. Esse nome surgiu em 2001, em uma votação proposta pelo colunista estadunidense Dan Savage, sobre como chamar a prática sexual em que uma mulher usa um cinto com dildo (popularmente conhecido como cintaralho) para penetrar o ânus de um homem. O termo vem do verbo “to peg”, que significa basicamente “a suposta prática antiga de garotos de programa inserirem cavilhas de madeira no ânus para que permaneça dilatado para o próximo cliente” (referência ao fim do texto). 


Homens que curtem pegging muitas vezes sentem necessidade de reafirmar sua masculinidade de outras maneiras. E há também aqueles que, simplesmente por gostarem de estímulo no ânus feito por uma mulher, questionam a própria sexualidade. O pegging, na verdade, não tem nada de homossexual — afinal, a relação sexual continua sendo entre um homem e uma mulher (todo mundo cis). No senso comum, ao que parece, o cu — aquele que todo mundo tem e é supostamente sem gênero — tem sim gênero: feminino, se penetrável, e masculino, se impenetrável. 

 
Um namorado que tive dizia que a graça do sexo anal era consegui-lo. O prazer físico em si não era nada demais, segundo ele e, depois que havia conseguido com a ex, tinha perdido o interesse pela coisa. 


É muito interessante a maneira como a visão masculina hétero padrão trata a questão do sexo anal no estilo “dois pesos, duas medidas”. Ao mesmo tempo em que acreditam que ter o cu penetrado é algo doloroso, humilhante e no mínimo desagradável, querem de qualquer jeito que suas namoradas deem o cu pra eles. Ou seja, no deles, de jeito nenhum, mas no das mulheres tá ok — desde que ela não ache mesmo ok, porque se achar é vagabunda. Parte da graça está em forçar a barra, pedir, insistir (vocês sabem que coagir uma prática sexual é estupro, né?). Não é de se espantar, então, que não queiram que se faça o mesmo com eles — e caso queiram sintam vergonha de admitir e pedir.

 
O tema comum aqui é o machismo e a fragilidade da masculinidade. É o machismo de achar que mulher que dá o cu vale menos, é o machismo de querer ser o cara que conseguiu comer um cu, é o machismo de se achar incrível por ter conquistado um cu, é o machismo de achar que prazer anal masculino “é coisa de viado”, é o machismo de achar que “ser viado” tem algum problema, é o machismo de acreditar que precisa ser sempre “ativo”, é o machismo de acreditar que o sexo gira em torno do próprio pênis, e por aí vai. 

O machismo, quando analisado nesses pormenores e na maneira como afeta os próprios homens heterossexuais, é um troço muito engraçado. Não deixa de ser curioso que o mesmo machismo que nos mata, nos espanca, nos estupra e diariamente nos desrespeita é o machismo que faz com que homens heterossexuais escolham limitar seu prazer sexual por medo de serem taxados de gays. A masculinidade é tão frágil que, mesmo transando com uma mulher, muito homens temem ser gays por gostarem de pegging ou outros estímulos anais, chegando a sentir necessidade de reafirmar seu status de HOMEM, como alguém que tem coragem de admitir que gosta da coisa. O paralelo de dois pesos e duas medidas continua: a mulher que dá o cu não se dá valor, mas o homem que faz o mesmo com uma mulher é corajoso e isso é muito macho. 


A questão em jogo é a masculinidade. Porque acham que ser gay é não ser homem e que ser penetrado é coisa de gay, logo, não podem ser penetrados pois, se forem, não serão homens de verdade. São práticas sexuais inibidas com base em puro preconceito. Vamos retomar pontos e esclarecer mitos: 

· Não é todo homem gay que gosta de ser penetrado. 

· Transar com homens apenas penetrando (o que se chama popularmente de “ativo”) não torna um homem gay menos gay. 

· Nem é mais gay aquele que gosta sim de ser penetrado por outro homem. 

· Uma mulher dar o cu para um homem não a torna menos digna de respeito. 


· Coagir uma mulher a dar o cu, embora pareça ser a grande excitação da parada, não tem graça nenhuma, pois sexo coagido se chama estupro. 

· A orientação sexual é definida pelo(s) gênero(s) por quem uma pessoa se atrai e nada tem a ver com quais práticas sexuais a pessoa prefere. Ou seja, a orientação sexual não é sobre o estímulo que você curte, mas sobre o gênero de quem você gosta faça esse estímulo. 

· Está tudo bem, homem hétero, gostar de estímulos anais, seja por dedos, plugs ou dildos. 


No fim das contas, todas essas práticas mantêm em comum o estigma do sexo anal como algo ruim. Nós crescemos aprendendo que sexo anal é algo ruim, errado, doloroso e humilhante. Devemos questionar, então, por que o homem heterossexual padrão faz tanta questão de consegui-lo com uma mulher, se é esse mesmo comportamento que ele condena em homens gays e não desejaria para si. Por que é tão legal convencer uma mulher a fazer algo que ele considera humilhante? 


A ideia do sexo anal como algo negativo é tão entranhada que, mesmo diante de explicações biológicas sobre como estímulos anais podem ser extremamente prazerosos para homens, poucos se propõem a experimentar. E, mais do que isso, quando o homem heterossexual padrão decide tentar e gosta, ou sente vergonha e esconde, ou usa como motivo de orgulho, reafirmando sua masculinidade por meio da coragem que praticar isso exige de um homem. No entanto, mal consigo criticar essa ideia da coragem — o machismo é tão forte e a masculinidade é tão frágil, que a gente sabe que exige mesmo coragem ir contra as normas padrão. 







Fonte: 

Laura Pires 

Escritora e pesquisadora especializada em amor e relacionamentos. Contato: laurampires@gmail.com 

Oct 27, 2016 


REFERÊNCIA: Muito desse texto foi fruto da leitura prazerosa que fiz da tese de doutorado “ACHO QUE ISSO FOI BASTANTE MACHO PRA ELA: Reforço e subversão de ideologias heteronormativas em performances narrativas digitais de praticantes de pegging”, da Elizabeth Sara Lewis, PUC-Rio, setembro/2016: 




segunda-feira, 23 de abril de 2018

HOMENS QUE TRANSAM COM OUTROS HOMENS... E DIZEM QUE NÃO SÃO GAYS – 5: A ATRAÇÃO POR TRAVESTIS



O travesti é um personagem intrigante que interessa principalmente a um bom número de homens heterossexuais. Nascidos meninos, desde cedo se identificam com o gênero feminino e, ao crescer, transformam seu corpo (afora os genitais) com o intuito de parecerem mulheres. São extravagantes no vestir, despertando o desejo visual masculino com uma ousadia que falta à grande maioria das mulheres. Diferem dos transexuais que querem efetivamente assumir a condição feminina. O travesti quer parecer mulher mas não quer ser mulher. 


Por que homens héteros procuram por travestis? Esse é quase um mistério da sociologia e da sexologia. Muitos estudos já foram realizados, e a nenhuma conclusão se chegou. Assim, como se abre aos poucos a sexualidade masculina hétero para a relação com outros homens, a relação de homens que se dizem héteros com os travestis também está cercada de ambiguidades. 


Muitos são os que procuram na figura do travesti apenas a mulher com seios e bunda fartos, um protótipo dos desejos masculinos, assumindo, portanto, a posição de ativos na relação. No entanto, isso não é estatisticamente um fato relevante, pois com o passar do tempo, e o relaxamento das tensões de uma relação a princípio incomum, eles acabam por assumir comportamentos mais abertos, mesmo que não cheguem a ser penetrados. 


O antropólogo americano Don Kulick passou um ano vivendo com travestis em Salvador, sabe muito de seu cotidiano e mesmo de suas preferências íntimas. Mas não se arrisca a explicar quem são seus clientes. “Essa é uma grande incógnita. Embora acompanhasse os travestis todas as noites, não consegui distinguir um cliente típico”, diz. O livro de Kulick, professor da Universidade Nova York, sairá em português, pela editora Fiocruz, com o título Travestis: Prostituição, Sexo, Gênero e Cultura no Brasil. 


Kulick conseguiu uma descrição razoavelmente rigorosa do que os fregueses exigem dos travestis. Durante um mês, pediu a cinco deles que registrassem o tipo de serviço prestado nas ruas. O resultado de 138 programas: em 52% dos casos os clientes queriam sodomizar, em 19% exigiam sexo oral, 18% queriam fazer aquilo que se costuma chamar de “troca-troca”, 9% pagaram para ser sodomizados e 2% para ser masturbados. “Não é insignificante que 27% dos homens nessa amostragem quisessem ser penetrados por travestis”, escreve s Kulick. “Mas esses homens não são maioria, como os travestis geralmente afirmam.” 


A confiar apenas no que dizem os travestis, o porcentual de seus clientes que se portam como homossexual passivo é alto. “Nove em cada dez homens querem ser penetrados”, diz Flávia, a namorada de Mendes. “Se o travesti não for bem-dotado e ativo, não ganha a vida na rua.” Exagero? Talvez. Assim como as prostitutas, os travestis têm uma relação antagônica com aqueles que pagam para usar seu corpo. Muitos não suportam exercer o papel viril que se exige deles na prostituição e o fazem com grande sofrimento, porque não encontram outra forma de ganhar a vida. Vingam-se dessa situação degradante com a mesma arma que a sociedade usa para humilhá-los: questionam a hombridade do freguês e o ridicularizam. 


A palavra-chave quando se trata de explicar a atração exercida pelos travestis parece ser ambiguidade. Eles são percebidos simultaneamente como homem e mulher, uma incongruência que mexe com as profundezas da psique humana. “O travesti mobiliza o desejo como mobiliza a repulsa”, afirma a psicanalista carioca Regina Navarro Lins. Outra psicanalista, Maria Rita Kehl, vê duas razões no fascínio pelos travestis. A primeira é que, por ser uma mulher com pênis, ele captura os restos das fantasias sexuais infantis. A outra está no fato de os travestis encarnarem a feminilidade de uma forma absoluta, que nenhuma mulher contemporânea aceitaria. 


“Só um travesti saberia ser tão feminino quanto quer a fantasia de alguns homens”, diz Maria Rita. “Se alguém sabe o que é ‘ser mulher de verdade’ (uma ficção masculina), é justamente o travesti.” Os próprios travestis são taxativos ao afirmar que seus fregueses procuram neles a diferença: a mulher com falo, a fantasia, o risco. “Transgressão é essencial. O proibido atrai”, afirma Marjorie, travesti com 20 anos de experiência nas ruas, que hoje trabalha na Secretaria de Assistência Social da Prefeitura do Rio de Janeiro. “As coisas que se dizem sobre os homens que saem com travestis são lendas machistas.” 


Paira sobre essa discussão uma palavra que os psicanalistas detestam: patologia. Sim, as pessoas têm o direito inalienável de manter relações sexuais com quem quiserem, desde que haja consentimento mútuo. Posto isso, cabe a pergunta: está bem de cabeça um homem casado (como parece ser a maior parte dos clientes dos travestis) que abre a porta de seu carro na porta do Jockey Club, em São Paulo, e paga R$ 40 por uma hora de sexo com um homem que parece ser mulher? Os especialistas não têm uma resposta unânime a isso. 


Muitos afirmam que desejo é desejo e não podemos reprimir ou explicar. O importante é respeitar estes profissionais do sexo e ter a mente aberta a relacionamentos futuros. Há vários casos de homens que preferem namorar travestis por darem a ele a proteção necessária no dia a dia. 


Muitos homens não estão resolvidos em sua orientação sexual e procuram por estes profissionais, então o respeito deve ser dado e colocado em primeiro lugar. O homem casado ou solteiro tem o direito de ter relações sexuais com quem ele quiser desde que não haja preconceito de qualquer parte e seja um consentimento mútuo. 


A questão é que travestis são tudo. Têm tudo. Isso, é claro, facilita muito na hora de satisfazer as mais diversas fantasias eróticas. E mais, os travestis assim são porque exatamente assim escolheram ser. Não estão submetidos aos padrões binários impostos para um ou outro gênero, com todos os moldes pré-estabelecidos que podem ou não agradar completamente um mesmo indivíduo. A consequência quase imediata desse “são tudo que querem e amam tudo que têm” é a sensação de que não apenas o travesti é capaz, como também aceita com mais prazer realizar quase tudo. 


E, seguindo essa lógica, o homem sente que não é apenas mais um cliente pervertido que paga para conseguir suas exigências. Ele também satisfaz, também sacia desejos. Está ali com alguém que também abriu mão de muito para saciar os próprios. Pode ser psicologicamente reconfortante realizar fantasias sem se sentir culpado ou julgado de alguma maneira. 


Portanto, sem qualquer preconceito, não jogue a primeira pedra nem se sinta constrangido, se você que está lendo essas linhas é homem e transa ou tem vontade de transar com travestis: siga a sua fantasia. E, principalmente, utilize – como, aliás, em qualquer relacionamento – a regra de ouro: respeito e consenso. Há outras matérias, neste mesmo blog, sobre travestis. É só procurar. E seja feliz também, se você é um travesti ou transformista ou eonista. A vida é breve e gozar não é proibido. 





Fontes: 






segunda-feira, 16 de abril de 2018

VER A COMPANHEIRA TRANSANDO COM OUTROS OU PERMITIR QUE ELA O FAÇA: UM FETICHE ANTIGO CAIADO DE NOVO




(Betty Dodson) 

Já tratamos aqui de vários fetiches relacionados à troca de casais ou à candalagnia/candaulismo, já falamos de dor de corno ou do cuckold. São variações do mesmo tema: o homem que gosta de ver a companheira transando com outros homens ou que permite que ela o faça. 

(Betty Dodson) 

Como o tema é vasto, a ele voltamos, com o depoimento de um casal, dando o ponto de vista do homem e, depois, o ponto de vista da mulher. Neste caso, não há propriamente troca de casais. Nem o tradicional voyeurismo: usam celulares, fotos e vídeos. O prazer está em imaginar ou a ver a distância que a namorada está ou esteve transando com outra pessoa. E isso parece incrementar o tesão entre eles. 

(Betty Dodson) 

Juntos há três anos, o representante comercial Rodrigo*, 27, e a estudante Leila*, 23, são adeptos do fetiche do "cuckolding" (gíria em inglês para definir homens que são traídos e não se importam com isso). Ele gosta que ela saia e transe com outros parceiros. Aqui, o casal explica como essa prática deixa o relacionamento mais excitante. 



"GOSTO DE VER MINHA NAMORADA TRANSANDO 

COM OUTROS HOMENS" 


"Tem um colega da faculdade dando em cima de mim, ele vive dizendo o quanto sou bonita”, certa vez me disse minha namorada tentando fingir um ar de ofendida. Ela não conseguia sequer disfarçar o sorrisinho na cara, que deixava claro que estava gostando da situação. 


“Que safada”, eu pensava. Mas ao invés de ciúmes, aquilo me deixou com um tesão doido! Que negócio estranho, eu estava curtindo saber que tinha outro cara interessado nela? Isso é coisa de corno! Eu não podia gostar disso, não!" 


Mas o que eu tinha sentido foi bom e se repetiu em outros momentos em que ela falou desse colega. Então decidi dar um Google nisso, sobre gostar de ser traído, e encontrei um monte de coisa, até em blog. Lendo relatos e comentários, parecia até que o Brasil inteiro era igual a mim. 


Por uns meses, fiquei pesquisando e trocando ideia, tentando entender o que eu sentia. Por que eu estava me excitando com o fato de que havia outro homem dando em cima da minha namorada e ela estava gostando disso. Descobri que era um fetiche, um negócio totalmente sexual e que na cama vale tudo. Então decidi pedir para a minha namorada entrar na brincadeira. 


Certinha que só, ela achou um absurdo. Mas fui falando, convencendo, dizendo que era normal, que a amava e aquilo só podia melhorar o sexo que já era bom... Devagarzinho, ela foi dobrando." 


Primeiro, topou um jogo de sedução em público. Funcionava assim: a gente saía juntos e no restaurante, decidíamos um homem para seduzir. Então ela começava a olhar para o cara e fazer coisas que eu pedia. 'Abre a perna', 'agora cruza', 'mostra o decote', sempre com caras e bocas sensuais. O cara sempre ficava doido, olhando sem parar e achando que eu nem estava percebendo 


Quantas vezes não vimos aqueles marmanjos, acompanhados de filho e esposa, vidrados na Leila? Dava para perceber o tesão dos caras pela minha namorada e aquilo me deixava maluco. Quando chegávamos em casa, o sexo era bom demais.

Mas provar esse tesão só fez aumentar minha vontade maior que era a de saber que ela estava de fato transando com outros. Muita gente acha que, se você falar para sua mulher que quer que ela transe com outro cara, ela vai adorar e sair correndo para aproveitar. Mas não é fácil assim, não. Leila achava errado, promiscuidade e tinha medo até de que isso acabasse com nossa relação. Precisei de um ano falando e argumentando para que ela topasse." 


Então começamos a busca pelo primeiro amante dela. Entramos em uma rede social de sexo e criamos um perfil que deixava claro que eu queria ser um corno. Conversamos com muitos homens. Na verdade, ela conversou e eu só acompanhava. Essa parte da história já me deixava com tesão, ver a paquera, a sedução e a conquista. 


Depois de uns meses, Leila marcou seu primeiro encontro e nós combinamos tudo certinho. Ela iria sozinha e me ligaria quando chegasse ao motel, para me contar o que estava achando. Então mandaria fotos e vídeos da ação em si. 


Mas tudo foi diferente. Ela simplesmente não me ligou e eu comecei a entrar em parafuso. Era uma mistura de ciúmes, por uma traição real dela, ao furar nosso combinado, com medo de que algo ruim pudesse acontecer.Liguei mais de 80 vezes e ela não atendeu, então corri para o motel combinado e descobri que ela não estava lá. O que tinha acontecido? 


No fim das contas, nada além de um mal-entendido: estava muito trânsito, os dois decidiram ficar em um motel mais perto e ela, inexperiente, acabou curtindo demais o momento e esqueceu de me ligar. Claro que brigamos feio. Fiquei bem bravo, o combinado era ser algo entre nós dois e não isso. Mesmo assim decidimos tentar de novo. Voltamos à busca por um par novo e dali mais ou menos dois meses rolou a segunda vez. Aí sim, foi maravilhoso. 


Ela saiu com o cara e foi me mandando fotos desde o trajeto. Chegando no motel, acompanhei por imagens e vídeos toda a transa deles. Estava no trabalho e, vendo tudo que faziam e respondendo com instruções e pedidos de coisas que gostaria que ela fizesse, fiquei maluco. Ver a minha namorada sendo uma safada daquele jeito me deixava excitado. Parecia que eu ia explodir de tesão. Depois de acompanhar ao vivo tudo pelo celular, sai correndo do trabalho e fui buscá-la no motel. Fomos para casa e transamos loucamente. Foi totalmente maravilhoso." 


Isso foi há um ano e desde então já fizemos mais umas seis vezes. Aconteceu já de eu ir junto com ela e outro para o motel, para assistir. Mas o que eu gosto mesmo é de estar longe, de acompanhar de longe, sem nenhuma possibilidade de participar fisicamente. Sou bi, já me relacionei com homens, mas no momento não é o que me interessa. Na verdade, quando a Leila está com os outros caras, tanto faz quem é ele ou como é. O que me excita é ela, vê-la sentindo tesão e me comparando a ele. 


Mas veja bem que isso é bem diferente de traição. Porque é um combinado nosso, o outro é só um extra, que está ali para o nosso prazer. Se ela saísse com um cara sem me avisar ou se envolvesse com um deles, eu ficaria bem incomodado. No fundo, uma das coisas que eu mais gosto também é do retorno dela para mim. Ela curte, sente prazer com outro homem, mas é comigo que ela quer ficar. 



"ADORO PENSAR QUE ESTOU ALI CURTINDO 

E ELE ESTÁ EM CASA" 



Quando ele começou com esse papo, estranhei. Fiquei até triste, achei que não gostava de mim... Por que queira que eu saísse com outro? Mas ele insistiu muito, ficava falando que me amava, que seria bom para nós e aumentaria nossa parceria. Apesar do medo de que estragasse tudo, acabei resolvendo dar um voto de confiança para ele e tentar. 


Bem, a primeira vez foi um fiasco para ele, mas para mim... Foi bem gostoso. Claro que deu briga, mas conversamos muito e decidimos tentar de novo. E daí não paramos mais. 


Eu sinto muito tesão não só em estar com o outro cara, mas em pensar que ele está em casa. Na minha cabeça rola toda uma fantasia, eu fico pensando que estou traindo, que o chifrudo está em casa e isso é muito excitante. Eu mando as fotos, vídeos, deixo ele ouvir, pra ele saber o quanto eu estou gostando e fico maluca quando recebo ordens, instruções de como ele quer que eu faça. Eu me sinto muito maravilhosa. 


Depois que acaba, é sempre ele quem vai me buscar e, se eu aguento, brincamos também. Afinal, meu namorado também merece, né? Apesar de termos esse fetiche, o sexo com outros caras rola só de vez em quando, é algo especial para apimentar a relação. No dia a dia transamos só nós dois e continua sendo tão incrível quanto era antes. E a nossa relação só melhorou, ficamos ainda mais íntimos e parceiros. 




*Os entrevistados pediram para não terem os nomes completos divulgados na reportagem 



Fonte: 


Helena Bertho 

26/06/2017