segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

VENTO, NA MÚSICA DE CAYMMI E NOS DESCUIDOS DE LEVES E CURTOS VESTIDINHOS DE VERÃO








Dorival Caymmi (Salvador, 30 de abril de 1914 – Rio de Janeiro, 16 de agosto de 2008) foi um compositor inspirado pelos hábitos, costumes e as tradições do povo baiano,  com  forte influência da música negra. Desenvolveu um estilo pessoal de compor e cantar, com espontaneidade nos versos, sensualidade e riqueza melódica, compôs obras como Saudade de Bahia, Samba da minha Terra, Doralice, Marina, Modinha para Gabriela, Maracangalha, Saudade de Itapuã, O Dengo que a Nega Tem, Rosa Morena e muitas outras.





Prestamos uma homenagem ao grande compositor, que cantou o mar, o vento e a sensualidade da mulher, com a letra da música "Prece ao vento", devidamente "coreografada" pela brisas safadas - do mar ou de qualquer outro lugar da terra onde haja um vestido a ser levantado, para delícia e prazer de nosso ânimo de voyeurs. Ouça a música, clicando no link abaixo e delicie-se com as fotos.


PRECE AO VENTO





Vento que balança as palhas do coqueiro
Vento que encrespa as águas do mar

Vento que assanha os cabelos da morena
Me traz notícia de lá




Vento que assovia no telhado
Chamando para a lua espiar

Ó, vento que na beira lá da praia
Escutava o meu amor a cantar






Hoje estou sozinho e tu também
Triste, mas lembrando do meu bem






Vento diga, por favor,
Adonde se escondeu o meu amor

Vento diga, por favor,
Adonde se escondeu o meu amor










(Fotos da internet, sem indicação de autoria)

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

SEXO E PRAZER, NO MUSEU BRITÂNICO






A exposição ‘Shunga’ traz valiosos exemplares da arte produzida no Japão desde 1600, com traço fantasioso e desinibido.







No tradicional e sisudo British Museum, com acompanhamento paterno sugerido para menores de 16 anos, o que provocou um artigo na imprensa intitulado Shunga Bunga, a exposição Shunga, Sexo e Prazer na Arte Japonesa encanta e surpreende. Apesar de ousada - nada sobra para a imaginação -, não sugere pornografia, mas apenas deleite, ternura e fantasia. E mostra arte de extremo requinte e qualidade.






As 170 obras expostas, entre pinturas, desenhos, gravuras, scrolls, objetos e livros belamente ilustrados, produzidas no Japão entre 1600 e 1900, durante o período Edo, quando o país esteve fechado para o mundo exterior, são conhecidas como Shunga, arte primaveril ou de travesseiro e, muitas delas, apesar do cunho popular que tinham à época, são assinadas por mestres da arte japonesa hoje consagrados como Kitagawa Utamaro e Katsushika Hokusai.


(Kitagawa Utamaro)


Shunga, uma forma de arte bem humorada e sem culpa que expressa e também ensina sobre o sexo e o prazer através de um desenho erótico e sensual produzido em grande quantidade (os livros faziam parte do enxoval das noivas), é um fenômeno raro na cultura pré-moderna do mundo. Sua popularidade no Japão era tanta que atravessou incólume o período confucionista que pregava a contenção e o dever e que promulgou duras leis sobre o adultério.


(Katsushika Hokusai)


Teria sido de certo modo uma arte underground do Japão dos samurais, apesar de muitas pinturas luxuosas terem sido encomendadas por membros da classe dominante aos artistas da escola Kano. Havia nas obras, além da fantasia (os órgãos genitais aparecem sempre superdimensionados), também humor e zombaria. Nelas, nenhum vestígio de violência ou crueldade.






Em um dos livros para mulheres, zomba-se das regras convencionais de obediência aos sogros e se advoga o sexo como fundamental para um casamento feliz. A sexualidade da mulher era naturalmente reconhecida e, mesmo o sexo entre mulheres ou homens, era aceito em muitos grupos sociais.






Numa gravura de Hokusai, O Sonho da Mulher do Pescador, dois polvos com gigantescos tentáculos fazem amor com a personagem que mantém o rosto estático. Na série Ilustrações Eróticas para os Doze Meses, de 1788, criadas por Katsukawa Shuncho, marido e mulher se deleitam na janela em pleno verão sob os uivos de um cuco.






O declínio da produção Shunga só aconteceu no final do século 19 quando o Japão foi confrontado com a moral puritana que impunha a total separação entre arte e pornografia e com as inibições sexuais do cristianismo e do islamismo. Um tempo em que o sexo passou a ser visto pelas religiões como vergonhoso e confinado à cama conjugal. Pois nada disso, como se pode ver nas obras expostas e que tudo expõe apesar das profusas vestimentas dos personagens, acontecia no Japão pré-moderno onde, sem hipocrisia, o sexo era praticado sem censura e discutido entre amigos.






Embora guardada em prateleiras, no século 19, a arte Shunga já fascinava europeus e americanos por seus traços e elementos de fantasia. Rodin se tornou dela um grande admirador, assim como os artistas Toulouse-Lautrec, Picasso, Aubrey Birdsley e John Singer Sargent, que deixaram não apenas que sua própria arte fosse influenciada por esse tipo de traçado fantasioso e desinibido, como se tornaram colecionadores dessas gravuras e pinturas japonesas.






No século 20, a Shunga desapareceu totalmente da memória popular em seu país de origem. Censurada, virou tabu.






O Museu Britânico, que abriga a exposição até 5 de janeiro de 2014 com exemplares Shunga de coleções japonesas, europeias e americanas, pode se gabar de ter comprado as suas primeiras e preciosas gravuras Shunga bem antes de qualquer outro museu, em 1865, do colecionador inglês George Witt, e por ter hoje a maior coleção de Shunga fora do Japão.






E também por ter conseguido, apesar dos cuidados em evitar qualquer tipo de escândalo em torno da atual mostra que naturalmente atrai milhares de visitantes, ao ponto de ter convidado uma velha senhora de 80 anos para inaugurá-la, que essa arte japonesa na qual homens e mulheres são vistos como sexualmente livres, iguais e sem preconceitos, ganhasse respeitabilidade no ocidente.






(Maria Ignez Barbosa - OESP - 23 de novembro de 2013)



segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

BEIJO NA BOCA








Difícil definir o beijo na boca. Preâmbulo do amor. O próprio amor. Momento de magia. Prova de amor.






O beijo na boca, diz o ditado popular, "liga em cima, esquenta embaixo". Provoca arrepio, paixão, tesão.




Se Augusto dos Anjos a ele teceu tenebrosa diatribe - "o beijo, amigo, é a véspera do escarro" - outros poetas a ele dedicaram toda a sua verve, toda a sua inspiração.





Vinícius de Moraes


Um minuto o nosso beijo
Um só minuto; no entanto
Nesse minuto de beijo
Quantos segundos de espanto!




Paul Verlaine 

(em tradução de Fernando Pinto do Amaral)

Divino e gracioso Beijo, tão sonoro!
Volúpia singular, álcool inenarrável!
O homem, debruçado na taça adorável,
Deleita-se em venturas que nunca se esgotam.





Define-o Alexandre O'Neill:


E é a força sem fim de duas bocas,
De duas bocas que se juntam, loucas!
De inveja as gaivotas a gritar...






  Florbela Espanca


Entontece-se e enlouquece-nos, com o beijo, 
Sou chama e neve e branca e mist'riosa...
E sou, talvez, na noite voluptuosa,
Ó meu Poeta, o beijo que procuras!





(Fotos da internet, sem indicação de autoria)


segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

PERNAS DE FORA






A modelo profissional, quando veste um minivestido, é apenas a profissional de pernas de fora. Bonitas, sem dúvida, as pernas longas e magras. Modelos, apenas modelos.








Quando, porém, a mulher comum sai à rua com um vestidinho vaporoso, bem curto, sem meias, as pernas brilham ao sol do verão e o sol do verão fica ainda mais sol, mais quente, mais intenso.





Não o vestido de marca, cheio de detalhes, o corte e o caimento perfeitos, mas aquele que cobre o pouco com o mínimo. O vestido que é só expectativa. Um melodrama em forma de pano, que sobe e surpreende quando menos se espera. 





E sempre se espera muito do pouco que ele esconde, mesmo que, depois de revelado, o segredo não seja assim tão espetacular.







Mas, é, sim, espetacular a perna que se mostra. E  o pouco que não se mostra. A menina comum, sem vergonha de seus pequenos defeitos, sem vergonha de desfilar assim, num passo comum, aquele vestidinho a subir e descer, com o movimento dos passos, com a brisa do verão... ah, isso não tem dinheiro no mundo que pague. Isso é quase estado de nirvana que a torcida por menos pano e por mais vento desperta nas mentes masculinas.









Ah, sim: e que sejam sadias, bem sadias essas mentes masculinas. O olhar concupiscente não seja trocado por palavras idiotas, por cantadas inúteis, por assobios tolos: deixem que passe, que desfile, que incomode a perna nua da menina comum que ousa nos deslumbrar com um minivestido.






Só assim o verão acontece.





(Fotos da internet, sem indicação de autoria)


segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

A PRIMEIRA VEZ DA RAINHA ELIZABETH, DA INGLATERRA






                                                     
Outono de 1558. Aos 25 anos, Elizabeth sobe ao trono da Inglaterra, um país falido, às vesperas de uma guerra com a católica Escócia. Para selar a paz e buscar dias melhores para sua pátria, a rainha precisa casar-se. E bem. Com um rei ou príncipe que lhe dê força, poder e... dinheiro! No entanto, Elizabeth só tem olhos para Sir Robert Dudley, amigo de infância, também de 25 anos, mas desde os 16 casado uma mulher cinco anos mais velha. Contra tudo e contra todos, eles se tornam amantes. Essa, em síntese, a história contada por Philippa Gregory, no livro O amante da virgem. Diante de toda a intriga da corte e de muitas dificuldades, os dois apaixonados levam duzentas páginas para ir para a cama pela primeira vez. O relato tem mais intenções do que  erotismo. Embora pouco sutil, a preparação para a cena de amor - o treino do cavalo - prometia um pouco mais. Por isso, apimentei o texto com ilustrações (de autor não identificado) de uma antiga edição europeia de Teresa Filósofa. No entanto, vale o relato, pois, afinal, é primeira vez de uma rainha. Confira.


CAVALGANDO ELIZABETH





Sir Robert, cavalgando devagar de um lado para outro no pátio de esportes, fez o cavalo girar e depois o alinhou mais uma vez. Vinham fazendo exercício por mais de uma hora. Tudo dependia da disposição do cavalo em cavalgar em linha reta, embora outro cavalo, de guerra, com um cavaleiro de armadura completa montado, a lança para baixo, viesse estrondoso da outra ponta, apenas uma fina barreira entre as duas criaturas. O cavalo de Sir Robert não pôde desviar-se, nem dar uma guinada, precisava manter-se na raia mesmo quando Sir Robert, baixando a própria lança, segurava as rédeas com uma só mão, precisava manter-se na raia mesmo que ele balançasse na sela de um golpe, e quase o soltasse.






Robert girou-o, deu meia-volta, percorreu a raia num trote, girou, repetiu mais uma vez a linha a pleno galope. O cavalo bufava quando o freou, uma pátina escura de suor marcando-lhe o pescoço. Ele girou-o numa volta completa e precipitou-se de novo a toda pela raia.

Uma ondulação de cascos martelando veio da entrada para o pátio. Uma criada estava parada onde os cavaleiros entravam e saíam, um xale em volta dos ombros, uma touca enfiada na cabeça, uma mecha de cabelo vermelho saindo por baixo, o rosto pálido, os olhos pretos.

- Elizabeth - disse o cavaleiro, em tranquilo triunfo, ao reconhecê-la, e cavalgou na direção dela.






Parou o cavalo e desceu da sela. Esperou.

Ela mordeu o lábio, baixou os olhos e tornou a erguê-los. Ele viu os olhar dela dardejar da camisa de linho, onde o suor escurecia o tecido no peito e nas costas, do culote de montaria justos até as envernizadas botas de montaria pretas. Viu as narinas dela arfarem, absorvendo o perfume dele, olhos estreitos a erguerem-se mais uma vez para ele, para sua escura cabeça em silhueta contra o brilhante sol matinal.

- Robert - ela arquejou.

- Sim, meu amor?

- Eu vim para você. Não posso ficar fora dos meus aposentos por mais de uma hora.

- Então não vamos desperdiçar um momento sequer - disse ele apenas, e atirou as rédeas do cavalo de guerra ao escudeiro. - Ponha o xale na cabeça - disse, baixinho, e passou a mão em volta da cintura dela, conduzindo-a, não para o palácio, mas para seus aposentos privados acima dos estábulos.






Havia um pequena entrada fechada com portões que saía do jardim, e ele abriu-os e levou-a para cima.

Nos aposentos de Robert, Elizabeth largou o xale e olhou em volta. Era um grande espaço com duas janelas altas, as paredes cobertas de tecido escuro. As plantas para o torneio do dia seguinte espalhavam-se, abertas, na mesa, a escrivaninha cheia de papéis de trabalho dos estábulos. Ela olhou para porta atrás da escrivaninha, que dava para o quarto dele.

- Sim, venha - disse ele, acompanhando seu olhar, e conduziu-a pela porta até o quarto.

- Ninguém vai entrar? - ela perguntou, ofegante.

- Ninguém - ele tranquilizou-a, fechando a porta e passando o pesado ferrolho.






- Eu não posso engravidar - ela especificou.

Ele assentiu com a cabeça.

- Eu sei. Vou cuidar disso.

Mesmo assim, ela continuou ansiosa.

- Como pode ter certeza?

Ele enfiou a mão no bolso interno do colete e retirou um profilático, feito de bexiga de ovelha costurado com pontos minúsculos e debruado de fitas.

- Isso a manterá protegida.





Dilacerada entre os nervos e a curiosidade, ela deu risadinhas baixas.

- Que é isso? Como funciona?

- Como uma armadura. Você tem de ser meu escudeiro e pôr isso em mim.

- Não posso ficar com hematomas onde minhas damas possam ver.

Ele sorriu.

- Não deixarei mais que uma marca de meu lábios em você. Mas por dentro, Elizabeth, você vai ficar em chamas, prometo.

- Sinto um pouco de medo.

- Minha Elizabeth - disse ele baixinho, e adiantou-se para ela, retirando-lhe a touca. - Venha para mim, meu amor.

A massa de cabelos vermelhos tombou em volta dos ombros dela. Robert pegou um punhado de mechas e beijou-as, depois, quando ela virou o rosto em transe para ele, beijou-a em cheio a boca.

- Minha Elizabeth, finalmente - repetiu.





- Momentos depois, Elizabeth se viu num sonho de sensualidade. Ele sempre a imaginara responsiva, mas sob suas hábeis mãos estendia-se como uma gata, deleitando-se de prazer. E despudorada: sem nenhum sinal de vergonha quando se despiu e ficou nua em pelo, deitou-se na cama e abriu os braços. Quando ele encostou o peito no rosto dela, sorriu ao vê-la febril de desejo, mas depois perdeu a própria consciência na exacerbação de seus sentimentos. Queria tocar cada centímetro da pele dela, beijar cada ponta de dedo, cada sarda, cada fenda do corpo. Virava-a de um lado para outro, tocando, saboreando, lambendo, sondando, até ela gritar alto que necessitava tê-lo, e então afinal ele a penetrou e viu suas pálpebras piscarem antes de fecharem-se e os lábios róseos sorrirem.







(O amante da virgem: Philippa Gregory, tradução de Alda Porto)

(Ilustrações vintage, sem indicação de autoria)