terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

UMA HISTÓRIA ERÓTICA... COM CAMÕES!




 (Elisabete de Almeida)


Acho que todo mundo já leu alguma coisa ou já ouviu falar dos LUSÍADAS. 




A obra fundadora da moderna língua portuguesa foi escrita por Camões, no século XVI, como homenagem à bravura dos lusitanos – Vasco da Gama à frente – ao descobrir o caminho marítimo para as Índias, ultrapassando o Cabo das Tormentas, rebatizado de cabo da Boa Esperança, numa viagem de muita coragem e denodo.


(Jean Duffy)


O que pouca gente leu é propriamente a obra. Porque exige paciência e fôlego: são dez cantos (ou dez capítulos) escritos em versos, numa linguagem complexa, embora literariamente belíssima.


(Anthony Christian)

Uma historinha: tinha eu meus catorze anos e formava-me no antigo ginásio (hoje oitava série). Sempre gostei de ler, mas tinha poucas oportunidades, na pequena cidade onde nascera e crescia. Meu padrinho (e deixo, aqui, uma homenagem a ele: um homem extraordinário, GERALDO FARIA), presenteou-me com uma edição de OS LUSÍADAS.





(Anthony Christian)



Claro que ainda não tinha entendimento para compreender completamente a beleza dos versos de Camões. Mas, li-o. Estranhei, no entanto, a numeração das estrofes: havia, quase no final, uma grande lacuna: os números pulavam, não davam sequência. Só muito depois, já na Faculdade de Letras, da USP, é que pude desvendar o mistério: a editora FTD, católica e conservadora, havia simplesmente pulado o episódio da ILHA NAMORADA, ou ILHA DOS AMORES.


(As três graças - Aelst Pieter Coecke, 1533)



Seguinte: a narração das façanhas portuguesas tem o acompanhamento atento dos deuses do Olimpo, que se dividem entre protegê-los e tentar impedi-los. Ao final, depois de muitas aventuras e dificuldades, ao regressar para a pátria, a deusa Vênus recompensa os portugueses com o encontro das nereidas na tal Ilha dos Amores.



É um festival de cores, de beleza, de sensualidade e de erotismo!



                                                                                      (Anthony Christian)



As nereidas banham-se nas fontes e correm pelos campos - nuas , oferecendo-se aos navegantes cansados. Oferecem-lhe banquetes que lhes saciam a fome do estômago e a fome de sexo:



Nesta frescura tal desembarcaram
Já das naus os segundos argonautas,
Onde pela floresta se deixavam
Andar as belas deusas, como incautas
Algüas doces cítaras tocavam,
Algüas harpas e sonoras flautas;
Outras, cos arcos de ouro, se fingiam
Seguir os animais que não seguiam.





                                                                                          (Anthony Christian) 

(...)

Duma os cabelos de ouro o vento leva
Correndo, e de outra as flaldas delicadas.
Acende-se o desejo, que se cava
Nas alvas carnes, súbito mostradas. 




(Anthony Christian) 


(...)

[...]aconselhara a mestra experta:
Que andassem pelos campos espalhadas;
Que, vista dos barões a presa incerta,
Se fizessem primeiro desejadas.
Alguas, que na forma descoberta
Do belo corpo estavam confiadas,
Posta a artificiosa formosura,
Nuas lavar se deixam na água pura.




                                                                                      (Anthony Christian)


(...)
Oh, que famintos beijos na floresta,
E que mimoso choro que soava!
Que afagos tão suaves! Que ira honesta,
Que em risinhos alegres se tornava!
O que mais passam na manhã e na sesta,
Que Vénus com prazeres inflamava,
Milhor é exprimentá-lo que julgá-lo;
Mas julgue-o quem não pode exprimentá-lo.




(Anthony Christian) 

Ao herói do poema, Vasco da Gama, Camões oferece o melhor: a ninfa Tétis leva-o para um passeio que nada deixa a desejar, em termos de requinte erótico, a acender a imaginação de quem o lê:






  
Tomando-o pela mão, o leva e guia
Pera o cume dum monte alto e divino,
No qual ua rica fábrica se erguia,
De cristal toda e de ouro puro e fino.
A maior parte aqui passam do dia,
Em doces jogos e em prazer contino.
Ela nos paços logra seus amores,
As outras pelas sombras, entre as flores.




(Anthony Christian) 

Portanto, Camões, sabiamente, concretiza a realização heroica com a realização amorosa e carnal. Sem pejos, sem moralismos. Moralismo que a editora católica explicita, ao cortar de sua edição uma das mais belas realizações poéticas da língua portuguesa, ao cantar a liberdade e o erotismo. 



(Adam Miller - Andromeda)




Erotismo que o garoto – que eu era – não pôde usufruir. A visão do adulto – quando descobri a ILHA DOS AMORES - já estava, com certeza, formada e deformada por outras experiências, e não teve o mesmo encanto ou o mesmo alumbramento que teria aos quinze anos.




                                                                                       (Anthony Christian)




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