sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

O OLHO ERÓTICO DE GEORGES BATAILLE – 2




Um fio de sangue





A urina, para mim, está associada ao salitre, e o relâmpago, não sei por quê, a um penico antigo de terracota, abandonado num dia chuvoso de outono sobre o telhado de zinco de uma lavanderia de província. Desde a primeira noite, na casa de saúde, essas desoladoras representações se uniram, na zona escura de meu espírito, ao sexo úmido e ao rosto abatido de Marcela. Todavia, essa paisagem da minha imaginação era subitamente invadida por um fio de luz e sangue: com efeito, Marcela jamais gozava sem se inundar, não de sangue, mas de um jato de urina clara e, a meus olhos, até mesmo luminosa. Esse jato, de início violento, entrecortado como um soluço, e depois liberado livremente, coincidia com um gozo inumano. Não causa espanto que os aspectos mais áridos e mais lazarentos de um sonho sejam apenas uma solicitação a tal ato; eles correspondem ao obstinado desejo de uma fulguração – semelhante, nesse aspecto, à visão do buraco iluminado da janela vazia, no momento em que Marcela, caída no chão o inundava sem parar.



Naquele dia de tempestade sem chuva, Simone e eu tivemos que escapar do castelo em meio à escuridão hostil, fugindo como animais, com a imaginação obcecada pelo tédio que, por certo, voltaria a dominar Marcela. A infeliz interna parecia uma encarnação da tristeza e das fúrias que, sem trégua, entregavam nossos corpos à devassidão. Pouco depois (tendo achado nossas bicicletas), só pudemos oferecer um ao outro o espetáculo irritante, teoricamente sujo, de um corpo nu e calçado em cima da máquina. Pedalávamos velozmente, sem rir nem conversar, no isolamento comum do despudor, da fadiga, do abandono.




Estávamos mortos de cansaço. No meio de uma encosta, Simone parou, tomada de calafrios. Estávamos encharcados de suor, e Simone tremia, batendo os dentes. Tirei-lhe então uma das meias para enxugar seu corpo: tinha um cheiro quente, como a cama dos doentes e a cama dos devassos. Pouco a pouco, ela recuperou um estado menos penoso e me ofereceu seus lábios em gesto de gratidão.

                                         (Alex Varenne)

Eu continuava extremamente inquieto. Ainda estávamos a dez quilômetros de x e, no estado em que nos encontrávamos, era preciso chegar a todo custo antes do amanhecer. Mal conseguia ficar de pé, no desespero de terminar aquela escalada pelo impossível. O tempo transcorrido desde que abandonamos o mundo rela, constituído pelas pessoas vestidas, estava tão distante que parecia fora de nosso alcance. Essa alucinação pessoal se desenrolava agora com a mesma falta de limites que o pesadelo global da sociedade humana, por exemplo, com a terra, atmosfera e o céu.



O selim de couro colava-se ao cu pelado de Simone que, fatalmente , se masturbava ao girar as pernas. O pneu de trás desaparecia aos meus olhos, diante da rachadura da bunda nua da ciclista. O movimento rápido da rotação da roda era, de resto, equivalente à minha ânsia, àquela ereção que já me arrastava ao abismo do cu colado ao selim. O vento tinha abrandado um pouco, parte do céu estava coberta de estrelas; pensei que, sendo a morte a única saída para minha ereção, uma vez mortos Simone e eu, o universo da nossa visão pessoal seria substituído por estrelas puras, realizando a frio o que me parecia ser o fim da minha devassidão, uma incandescência geométrica (coincidência, entre outras, da vida e da morte, do ser e do nada) e perfeitamente fulgurante.


(Alex Varenne)

Mas essas imagens permaneciam ligadas às contradições de um estado de esgotamento prolongado e de uma absurda rijeza do membro viril. Simone mal conseguia ver essa rigidez,devido à escuridão, ainda mais porque minha perna esquerda a escondia a cada pedalada. Parecia-me, no entanto, que seus olhos procuravam, na noite, esse ponto de ruptura do meu corpo. Ela se masturbava no selim com movimentos cada vez mais bruscos. Assim como eu, não tinha esgotado a tempestade evocada por sua nudez. Eu ouvia seus gemidos roucos; ela foi literalmente arrebatada pelo gozo e seu corpo nu foi jogado sobre o talude com um ruído de aço arrastando os cascalhos.




Encontrei-a inerte, a cabeça caída: um estreito fio de sangue tinha escorrido por um canto da boca. Levantei um de seus braços, que voltou a cair. Lancei-me sobre aquele corpo inanimado, tremendo de horror e, ao abraçá-lo, fui involuntariamente atravessado por um espasmo de borra e sangue, com um esgar do lábio inferior afastado dos dentes, como na cara dos idiotas.

               (Auguste Leroux)

Recuperando lentamente os sentidos, Simone fez um movimento que me despertou. Saí da sonolência em que minha depressão tinha me afundado, quando pensei ter maculado o seu cadáver. Nenhum ferimento, nenhuma contusão haviam marcado o corpo que continuava vestido apenas com as ligas e uma das meias. Tomei-a nos braços e a carreguei estrada afora sem pensar no meu cansaço; caminhava o mais depressa possível (o dia já começava a nascer). Um esforço sobre-humano me permitiu chegar até a casa de campo, satisfeito por conseguir deitar minha encantadora amiga, viva, em sua cama.


(Egon Schiele)

Meu rosto estava melado de suor. Meus olhos estavam vermelhos e inchados, meus ouvidos zumbiam e meus dentes batiam, mas eu havia salvo a mulher que amava e pensava que em breve tornaríamos a ver Marcela; assim, ensopado de suor e manchado de pó coagulado, me estendi ao lado do corpo de Simone e me entreguei sem gemer a longos pesadelos.




(História do Olho – tradução de Eliane Robert Moraes)







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