sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

A POESIA DA FELAÇÃO





Dê-se-lhe o nome que quiser: sexo oral, felação ou, nas gírias do Brasil - boquete, chupeta, lambe lambe - e de Portugal: broche, mamada, chupisco, bico; ou, ainda, em outras línguas, como em inglês, oral sex, deep throat, blowjob e francês: sex oral, fellation, cunnilingus – essa última com todos os biquinhos possíveis.




Considere-se uma prática preparatória, de preliminares, ou o próprio ato sexual, em sua finalidade precípua de orgasmo.

Não importa.


O sexo oral praticado no homem – principalmente naquela pose clássica da(o) parceira(o) ajoelhada(o) – é sempre um assunto polêmico. Há, por aí, na grande rede de computadores, milhões de fotos e outros tantos milhares de sites a deitar falação (não felação!) sobre o assunto.



Se as fotos, em geral, são apelativas, embora haja algumas de grande beleza, por outro lado, quando o assunto cai no terreno sexológico, vira manual de boas maneiras, de higiene, ou receita de bolo.

(Denis)

E sensualidade é fundamental.

Antes que me esqueça: eu disse fotos apelativas, no sentido de só apelarem para o deleite do homem, não no sentido de serem ruins, feias ou desagradáveis. Tampouco pornográficas.




Voltando ao ponto, ou melhor, ao pênis quando nos lábios ou numa boca: pode a felação virar poesia?

(Denis)

Pode, eu respondo. Embora “poesia” seja um conceito abstrato e particular. Cada um vê poesia onde quer: numa noite de lua ou num pedaço de abóbora. Depende do momento, das condições emocionais do observador, da sua relação com o objeto observado etc. etc. etc. Não quero escrever um tratado poético.

(Michael Zichy)

No entanto, não se pode negar que há, sim, poesia, e das melhores, quando um mestre da boa literatura, da melhor literatura, sai do armário, ou melhor, da armadura da moral, para escrever sobre sexo, sobre erotismo, sobre pornografia.




Estou falando de CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE.

Seu livro “póstumo” – O AMOR NATURAL – contém alguns poemas dignos de todos os poetas fesceninos ou eróticos ou pornográficos que vieram antes dele. E serve de modelo (ou mau exemplo, se você preferir) para os que vêm depois dele.


(Denis)


É de DRUMMOND esta verdadeira pérola, ode à felação, ao sexo oral, ao boquete, enfim:





MIMOSA BOCA ERRANTE



Mimosa boca errante

à superfície até achar o ponto

em que te apraz colher o fruto em fogo
que não será comido mas fruído
até se lhe esgotar o sumo cálido
e ele deixar-te, ou o deixares, flácido,
mas rorejando a baba de delícias
que fruto e boca se permitem, dádiva.


(Denis)

Boca mimosa e sábia,

impaciente de sugar e clausurar

inteiro, em ti, o talo rígido
mas varado de gozo ao confinar-se
no limitado espaço que ofereces
a seu volume e jato apaixonados,
como podes tornar-te, assim aberta,
recurvo céu infindo e sepultura?



(Denis)

Mimosa boca e santa,

que devagar vais desfolhando a líquida 
espuma do prazer em rito mudo,
lenta-lambente-lambilusamente
ligada à forma ereta qual se fossem
a boca o próprio fruto, e o fruto a boca,
oh chega, chega, chega de beber-me,
de matar-me, e, na morte, de viver-me.

Já sei a eternidade: é puro orgasmo.



(A. não identificado)





terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

UMA HISTÓRIA ERÓTICA... COM CAMÕES!




 (Elisabete de Almeida)


Acho que todo mundo já leu alguma coisa ou já ouviu falar dos LUSÍADAS. 




A obra fundadora da moderna língua portuguesa foi escrita por Camões, no século XVI, como homenagem à bravura dos lusitanos – Vasco da Gama à frente – ao descobrir o caminho marítimo para as Índias, ultrapassando o Cabo das Tormentas, rebatizado de cabo da Boa Esperança, numa viagem de muita coragem e denodo.


(Jean Duffy)


O que pouca gente leu é propriamente a obra. Porque exige paciência e fôlego: são dez cantos (ou dez capítulos) escritos em versos, numa linguagem complexa, embora literariamente belíssima.


(Anthony Christian)

Uma historinha: tinha eu meus catorze anos e formava-me no antigo ginásio (hoje oitava série). Sempre gostei de ler, mas tinha poucas oportunidades, na pequena cidade onde nascera e crescia. Meu padrinho (e deixo, aqui, uma homenagem a ele: um homem extraordinário, GERALDO FARIA), presenteou-me com uma edição de OS LUSÍADAS.





(Anthony Christian)



Claro que ainda não tinha entendimento para compreender completamente a beleza dos versos de Camões. Mas, li-o. Estranhei, no entanto, a numeração das estrofes: havia, quase no final, uma grande lacuna: os números pulavam, não davam sequência. Só muito depois, já na Faculdade de Letras, da USP, é que pude desvendar o mistério: a editora FTD, católica e conservadora, havia simplesmente pulado o episódio da ILHA NAMORADA, ou ILHA DOS AMORES.


(As três graças - Aelst Pieter Coecke, 1533)



Seguinte: a narração das façanhas portuguesas tem o acompanhamento atento dos deuses do Olimpo, que se dividem entre protegê-los e tentar impedi-los. Ao final, depois de muitas aventuras e dificuldades, ao regressar para a pátria, a deusa Vênus recompensa os portugueses com o encontro das nereidas na tal Ilha dos Amores.



É um festival de cores, de beleza, de sensualidade e de erotismo!



                                                                                      (Anthony Christian)



As nereidas banham-se nas fontes e correm pelos campos - nuas , oferecendo-se aos navegantes cansados. Oferecem-lhe banquetes que lhes saciam a fome do estômago e a fome de sexo:



Nesta frescura tal desembarcaram
Já das naus os segundos argonautas,
Onde pela floresta se deixavam
Andar as belas deusas, como incautas
Algüas doces cítaras tocavam,
Algüas harpas e sonoras flautas;
Outras, cos arcos de ouro, se fingiam
Seguir os animais que não seguiam.





                                                                                          (Anthony Christian) 

(...)

Duma os cabelos de ouro o vento leva
Correndo, e de outra as flaldas delicadas.
Acende-se o desejo, que se cava
Nas alvas carnes, súbito mostradas. 




(Anthony Christian) 


(...)

[...]aconselhara a mestra experta:
Que andassem pelos campos espalhadas;
Que, vista dos barões a presa incerta,
Se fizessem primeiro desejadas.
Alguas, que na forma descoberta
Do belo corpo estavam confiadas,
Posta a artificiosa formosura,
Nuas lavar se deixam na água pura.




                                                                                      (Anthony Christian)


(...)
Oh, que famintos beijos na floresta,
E que mimoso choro que soava!
Que afagos tão suaves! Que ira honesta,
Que em risinhos alegres se tornava!
O que mais passam na manhã e na sesta,
Que Vénus com prazeres inflamava,
Milhor é exprimentá-lo que julgá-lo;
Mas julgue-o quem não pode exprimentá-lo.




(Anthony Christian) 

Ao herói do poema, Vasco da Gama, Camões oferece o melhor: a ninfa Tétis leva-o para um passeio que nada deixa a desejar, em termos de requinte erótico, a acender a imaginação de quem o lê:






  
Tomando-o pela mão, o leva e guia
Pera o cume dum monte alto e divino,
No qual ua rica fábrica se erguia,
De cristal toda e de ouro puro e fino.
A maior parte aqui passam do dia,
Em doces jogos e em prazer contino.
Ela nos paços logra seus amores,
As outras pelas sombras, entre as flores.




(Anthony Christian) 

Portanto, Camões, sabiamente, concretiza a realização heroica com a realização amorosa e carnal. Sem pejos, sem moralismos. Moralismo que a editora católica explicita, ao cortar de sua edição uma das mais belas realizações poéticas da língua portuguesa, ao cantar a liberdade e o erotismo. 



(Adam Miller - Andromeda)




Erotismo que o garoto – que eu era – não pôde usufruir. A visão do adulto – quando descobri a ILHA DOS AMORES - já estava, com certeza, formada e deformada por outras experiências, e não teve o mesmo encanto ou o mesmo alumbramento que teria aos quinze anos.




                                                                                       (Anthony Christian)




sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

O OLHO ERÓTICO DE GEORGES BATAILLE – 2




Um fio de sangue





A urina, para mim, está associada ao salitre, e o relâmpago, não sei por quê, a um penico antigo de terracota, abandonado num dia chuvoso de outono sobre o telhado de zinco de uma lavanderia de província. Desde a primeira noite, na casa de saúde, essas desoladoras representações se uniram, na zona escura de meu espírito, ao sexo úmido e ao rosto abatido de Marcela. Todavia, essa paisagem da minha imaginação era subitamente invadida por um fio de luz e sangue: com efeito, Marcela jamais gozava sem se inundar, não de sangue, mas de um jato de urina clara e, a meus olhos, até mesmo luminosa. Esse jato, de início violento, entrecortado como um soluço, e depois liberado livremente, coincidia com um gozo inumano. Não causa espanto que os aspectos mais áridos e mais lazarentos de um sonho sejam apenas uma solicitação a tal ato; eles correspondem ao obstinado desejo de uma fulguração – semelhante, nesse aspecto, à visão do buraco iluminado da janela vazia, no momento em que Marcela, caída no chão o inundava sem parar.



Naquele dia de tempestade sem chuva, Simone e eu tivemos que escapar do castelo em meio à escuridão hostil, fugindo como animais, com a imaginação obcecada pelo tédio que, por certo, voltaria a dominar Marcela. A infeliz interna parecia uma encarnação da tristeza e das fúrias que, sem trégua, entregavam nossos corpos à devassidão. Pouco depois (tendo achado nossas bicicletas), só pudemos oferecer um ao outro o espetáculo irritante, teoricamente sujo, de um corpo nu e calçado em cima da máquina. Pedalávamos velozmente, sem rir nem conversar, no isolamento comum do despudor, da fadiga, do abandono.




Estávamos mortos de cansaço. No meio de uma encosta, Simone parou, tomada de calafrios. Estávamos encharcados de suor, e Simone tremia, batendo os dentes. Tirei-lhe então uma das meias para enxugar seu corpo: tinha um cheiro quente, como a cama dos doentes e a cama dos devassos. Pouco a pouco, ela recuperou um estado menos penoso e me ofereceu seus lábios em gesto de gratidão.

                                         (Alex Varenne)

Eu continuava extremamente inquieto. Ainda estávamos a dez quilômetros de x e, no estado em que nos encontrávamos, era preciso chegar a todo custo antes do amanhecer. Mal conseguia ficar de pé, no desespero de terminar aquela escalada pelo impossível. O tempo transcorrido desde que abandonamos o mundo rela, constituído pelas pessoas vestidas, estava tão distante que parecia fora de nosso alcance. Essa alucinação pessoal se desenrolava agora com a mesma falta de limites que o pesadelo global da sociedade humana, por exemplo, com a terra, atmosfera e o céu.



O selim de couro colava-se ao cu pelado de Simone que, fatalmente , se masturbava ao girar as pernas. O pneu de trás desaparecia aos meus olhos, diante da rachadura da bunda nua da ciclista. O movimento rápido da rotação da roda era, de resto, equivalente à minha ânsia, àquela ereção que já me arrastava ao abismo do cu colado ao selim. O vento tinha abrandado um pouco, parte do céu estava coberta de estrelas; pensei que, sendo a morte a única saída para minha ereção, uma vez mortos Simone e eu, o universo da nossa visão pessoal seria substituído por estrelas puras, realizando a frio o que me parecia ser o fim da minha devassidão, uma incandescência geométrica (coincidência, entre outras, da vida e da morte, do ser e do nada) e perfeitamente fulgurante.


(Alex Varenne)

Mas essas imagens permaneciam ligadas às contradições de um estado de esgotamento prolongado e de uma absurda rijeza do membro viril. Simone mal conseguia ver essa rigidez,devido à escuridão, ainda mais porque minha perna esquerda a escondia a cada pedalada. Parecia-me, no entanto, que seus olhos procuravam, na noite, esse ponto de ruptura do meu corpo. Ela se masturbava no selim com movimentos cada vez mais bruscos. Assim como eu, não tinha esgotado a tempestade evocada por sua nudez. Eu ouvia seus gemidos roucos; ela foi literalmente arrebatada pelo gozo e seu corpo nu foi jogado sobre o talude com um ruído de aço arrastando os cascalhos.




Encontrei-a inerte, a cabeça caída: um estreito fio de sangue tinha escorrido por um canto da boca. Levantei um de seus braços, que voltou a cair. Lancei-me sobre aquele corpo inanimado, tremendo de horror e, ao abraçá-lo, fui involuntariamente atravessado por um espasmo de borra e sangue, com um esgar do lábio inferior afastado dos dentes, como na cara dos idiotas.

               (Auguste Leroux)

Recuperando lentamente os sentidos, Simone fez um movimento que me despertou. Saí da sonolência em que minha depressão tinha me afundado, quando pensei ter maculado o seu cadáver. Nenhum ferimento, nenhuma contusão haviam marcado o corpo que continuava vestido apenas com as ligas e uma das meias. Tomei-a nos braços e a carreguei estrada afora sem pensar no meu cansaço; caminhava o mais depressa possível (o dia já começava a nascer). Um esforço sobre-humano me permitiu chegar até a casa de campo, satisfeito por conseguir deitar minha encantadora amiga, viva, em sua cama.


(Egon Schiele)

Meu rosto estava melado de suor. Meus olhos estavam vermelhos e inchados, meus ouvidos zumbiam e meus dentes batiam, mas eu havia salvo a mulher que amava e pensava que em breve tornaríamos a ver Marcela; assim, ensopado de suor e manchado de pó coagulado, me estendi ao lado do corpo de Simone e me entreguei sem gemer a longos pesadelos.




(História do Olho – tradução de Eliane Robert Moraes)







terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

CALCINHA: UMA BREVE HISTÓRIA























Depois que a mulher tira a calcinha, tudo é possível.

Para o homem, essa peça do vestuário feminino tem o apelo de mitos da criação e da fecundidade. E, principalmente, de erotismo e sexo.

Uma mulher só de calcinha é tão sensual quanto sem ela.



















Porque é o último reduto da conquista. Tirá-la significa ganhar o paraíso... ou o inferno, dependendo do que vier depois. Mas, não sejamos pessimistas: se o assunto é calcinha, fiquemos só na sensualidade que ela provoca.

























Estamos tão acostumados, hoje, com a calcinha, que nem nos damos conta de que é uma peça de criação recente, na história do vestuário humano: surgiu por volta de 1800.

























E quem nos conta a história da calcinha é a escritora inglesa Rosemary Hawthorne, no seu livro “Por baixo do pano – A história da calcinha”.


Em 1790, as mulheres européias passaram a usar elegantes vestidos de inspiração grega, feitos de musselina, denominados, então, “vestidos império”: embora longos, eram mais leves e sensuais, deixando as chamadas partes baixas muito ventiladas.


Assim, por volta de 1800, apareceram os primeiros modelos de “calcinhas” que não eram exatamente calcinhas: eram calções longos que chegavam abaixo dos joelhos ou iam até os tornozelos, confeccionados em tecidos que imitavam a cor da pele.

A partir daí, ninguém mais segurou a evolução da calcinha. E hoje, a mulher moderna busca, quase sempre, modelos e confecções que melhor atendam às suas necessidades e ao seu conforto.


No entanto, como complemento à sensualidade, muitas vezes, o conforto dá lugar ao erotismo e à provocação:

























Com tais modelos, o “tirar a calcinha” é só uma força de expressão. Porque o paraíso está mais para visto do que vislumbrado.


Serviço:

Livro: Por baixo do pano – A história da calcinha – 136 páginas

Imprensa Matrix Editora


Autora: Rosemary Hawthorne

Formou-se em Artes Dramáticas pela Royal Academy antes de voltar seus interesses para o estudo do vestuário. E, a partir de então, tornou-se a maior autoridade britânica em História da Roupa Íntima, acumulando um vasto acervo pessoal de peças de interesse histórico. Hawthorne é conhecida hoje no Reino Unido como Knicker Lady, a Dama das Calcinhas, nome do espetáculo solo que apresenta com sucesso nos palcos do país.





sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

AZUL




Desfruto-te nua
quanto me desejas.
Do teu sexo o aroma em minha boca
à saga de romances medievais
transmuta-me em pelo;
dos teus beijos ao gozo
somam-se viagens
de delírios e sonhos;
azul o teu porte quando me reténs
entre cruzadas pernas e braços;
azul o teu gozo
quando em tua boca escorro;
azul o teu olhar
mesmo em negror de orgasmos
oferecido;
és, amada, o grito que sufocaste
em minha garganta
e o pejo de te ofereceres inteira
quando, enfim, o teu azul alcanço.



(Isaias Edson Sidney)




(Mulher azul - Yvone de Marko)