segunda-feira, 6 de março de 2017

A VIDA SEXUAL DOS ÍNDIOS BRASILEIROS – HOMOSSEXUALIDADE






“Suas vergonhas, tão altas e tão coradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as nós muito bem olharmos, não se envergonhavam. [...] E uma daquelas moças era toda tingida de baixo a cima, daquela tintura e certo era tão bem feita e tão redonda e sua vergonha tão graciosa que a muitas mulheres de nossa terra, vendo-lhes tais feições, envergonhava, por não terem as suas como ela.”


Assim começou o desejo do branco pelas mulheres indígenas. A carta de Caminha ao rei de Portugal não deixa nenhuma dúvida quanto a isso. Porque eram bonitas e porque andavam nuas e porque eram “limpas” (tomavam banho e não tinham pelos na boceta) e porque se entregavam “sem pejo”, quando queriam. Não havia o famigerado senso de “pecado”.


Quando aqui chegaram, o que mais incomodou os jesuítas foi justamente essa “falta de vergonha” de nossos indígenas. E os olhos cobiçosos que os portugueses lançavam sobre as mulheres. Então, sua primeira providência foi tentar vestir os índios; a segunda, doutriná-los na noção do pecado católico. A partir daí, a sexualidade indígena sofreu uma espécie de interdição. Não se podia falar sobre isso. Até mesmo o artigo aqui publicado (da revista Manchete – queira ver) aborda com extrema delicadeza a sexualidade dos nossos indígenas, como se pisasse em ovos.


No entanto, vários cronistas afirmam que a relação dos indígenas com os estranhos e entre eles sempre foi de total franqueza em relação a sexo; que as mulheres gostavam de fofocar sobre isso; e falavam abertamente sobre os homens e sobre si mesmas, sobre quem estaria trepando com quem, até as casadas, sem qualquer constrangimento.


Quanto às relações sociais, sempre causou estranheza ao europeu frio e distante a proximidade que eles tinham uns com os outros e até com os estrangeiros. Darcy Ribeiro, por exemplo, conta que “entre nós, um homem mal pode apertar a mão de outro, mulher a gente deve abraçar de leve. Os índios vivem agarrados uns com os outros. Curtem se tocar e conversar bem juntinho. Inclusive os homens. Mal eu chegava numa aldeia, eles logo me cercavam e vinham se encostando. Uma amiga achou os índios uns desmunhecados porque não paravam de se encostar no marido dela.”(1)


Essas observações são importantes para entendermos que a homossexualidade, embora muito pouco abordada pelos pesquisadores, existia, sim, entre os índios, e era encarada como algo absolutamente normal, sem nenhum sentido de “pecado” ou de “coisa proibida”. Só cheguei a essa conclusão após ler e consultar vários artigos e textos acadêmicos, fontes citadas ao final deste post. 

(Foto de Sebastião Salgado)

Nunca pensei que iria escrever sobre homossexualidade indígena, porque o assunto é bastante difícil e não há nenhuma iconografia com que eu pudesse ilustrar o meu texto, tanto que as ilustrações são apenas referências aos indígenas e praticamente não têm relação com o assunto. Tive, no entanto, que abordar esse tema espinhoso, em virtude de algumas pessoas acharem, por machismo, que, não havendo relatos, não haveria homossexualidade entre os índios. E mais: passavam, em função disso a considerar a homossexualidade fruto do meio e de influências externas e não uma condição humana.

(Two-spirits - EE.UU.)

Devo dizer, ainda, que também nos Estados Unidos a abordagem desse tema e o reconhecimento da homossexualidade indígena é recente. Para sair da invisibilidade, os indígenas estadunidenses buscaram a criação de uma espécie de identidade pan-indígena na qual a homossexualidade figura como discurso tradicionalista, religioso e anticolonial, enquanto no Brasil ocorreu o oposto, já que a homossexualidade indígena é vista como “perda” cultural. Se você quiser saber mais, procure pela palavra “two-spirits”, nos sistemas de busca da internet.

(Two-spirits Navajo-EE.UU.)

Two-spirits, dois espíritos, masculino e feminino, condição do indivíduo – homem ou mulher – que transita entre os dois sexos, que não se define pelas características sexuais de nascimento, expressão que acabou consagrada em Sandstone, Minnesota, em 2008, durante o XX Encontro Intertribal de Representantes Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros de Comunidades Nativas. Aos indivíduos two-spirits atribuíam-se grandes poderes, justamente por carregarem ambos os espíritos, o masculino e o feminino. A existência dessas pessoas foi documentada em cerca de 155 tribos espalhadas por toda a América do Norte.


No Brasil, a diversidade dos papéis de gênero também existiu, a exemplo dos tibira (que seriam os índios “gays”) e das çacoaimbeguira (as índias “lésbicas”), entre os Tupinambá. As çacoaimbeguira foram descritas como índias extremamente masculinizadas, que exerciam funções usualmente delegadas aos homens, vivendo com uma mulher que as servia como se fossem homens, além de exibirem os tradicionais cortes de cabelo masculinos.


Entre os índios Guaicuru e Xamicos, existiam os cudinhos, que adotavam vestes e adornos femininos e serviam a seus maridos como se fossem mulheres.


Entre os Kadiwéu, o hábito da pintura corporal é reconhecido como uma arte feminina. Os complexos padrões da tribo são pintados pelas mulheres mais velhas e pelos kudína, homens efeminados que incorporavam todos os atributos da mulher e assumiam papéis femininos naquela sociedade.


Segundo Luiz Mott (1994), em tempos de Inquisição, foi justamente a maior liberdade sexual e a nudez entre índios e entre escravos (a questão da “homossexualidade” nas tribos africanas merece um texto à parte), entre outros fatores, que possibilitaram aos sodomitas europeus um espaço privilegiado na colônia para suas práticas homoeróticas.


Em dias de fundamentalismo e conservadorismo como estamos vivendo, alguns podem tentar explicar a não aceitação da homossexualidade usando como justificativa que não há histórias de “índios homossexuais”, sendo eles o suprassumo da moralidade e da inocência por conta de sua condição como “selvagens”.


De fato, não houve “índio homossexual”, mas houve homossexualidade entre os índios, desde sempre. Já no século XVI, Gabriel Soares de Sousa, relata que os Tupinambás são “muito afeiçoados ao pecado nefando, entre os quais não se tem por afronta, e o que se serve de macho, se tem por valente, e contam esta bestialidade por proeza; e nas suas aldeias pelo sertão há alguns que tem tenda pública a quantos os querem como mulheres públicas.”(2) Não creio que precise traduzir “pecado nefando” no contexto apresentado, pois resta claro que um índio se achava macho e se vangloriava por isso, enquanto outros se ofereciam, em tendas, como mulheres públicas, ou seja, claramente este é o relato de relações homossexuais.


Para concluir, devo dizer que este artigo é apenas um esboço, um apanhado de vários textos que podem ser consultados, se o leitor ou a leitora desejar saber mais sobre homossexualidade entre nossos índios e, até mesmo, entre as nações ameríndias dos Estados Unidos. O tema é complexo, delicado, mas serve ao debate da desmistificação da homossexualidade e para sua aceitação como condição humana e para que as pessoas comecem a vê-la como tal, não como desvio ou doença, ou mesmo resultado do meio. E uma última observação: tem-se sugerido que à sigla LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros) acrescente-se o número 2, de two-spirits, para incluir na luta a condição dos ameríndios: LGBT2.




Notas:

1. RIBEIRO, DARCY. Lições de humanismo dos índios do Brasil.

2. Sousa, Gabriel Soares de. Tratado Descritivo do Brasil em 1587. São Paulo: Editora nacional; Brasília: INL, 1987, p. 311.



Fontes:



1. HOMOSSEXUALIDADE INDÍGENA NO BRASIL: 

Por Estevão Rafael Fernandes




2. EXISTIRAM ÍNDIOS HOMOSSEXUAIS?

Por Francine Oliveira




3. SEXO, POLIGAMIA E HOMOSSEXUALIDADE ENTRE 
OS ÍNDIOS TUPINAMBÁS DO SÉCULO XVI

Por Gerivaldo Neiva



4. OS ÍNDIOS BRASILEIROS E A HOMOSSEXUALIDADE

Por Rafael Feghali




5. PRÁTICAS SEXUAIS E HOMOSSEXUALIDADE ENTRE 
OS INDÍGENAS BRASILEIROS

Por Aguinaldo Rodrigues Gomes e Sandra Nara da Silva Novais




6. ATIVISMO HOMOSSEXUAL INDÍGENA: UMA ANÁLISE 
COMPARATIVA ENTRE BRASIL E AMÉRICA DO NORTE

Por Estevão Rafael Fernandes





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