segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

UM BORDEL FAMOSO NO INTERIOR DE SÃO PAULO




(Berthommé Saint-André)

Quase toda cidade do interior tinha bordel, ou “zona”, como se dizia nos antigamentes. Às vezes, o local era segregado da chamada “sociedade”, em locais distantes, aonde acorriam homens solteiros e casados, provavelmente os casados em maior número; outras vezes, o local era próximo ao centro e até perto de igrejas e templos, para desespero dos carolas, o que sempre determinava a aprovação de leis segregacionistas e higienistas, que expulsavam os estabelecimentos para longe. Mas eles sobreviviam: sempre havia a zona, o bordel, o puteiro, para alegria da rapaziada que perdia com uma das suas mulheres a virgindade e aprendia os segredos do sexo. 


(Berthommé Saint-André)

Muitos desses lugares se tornaram famosos, regionalmente ou, até, nacionalmente. Talvez um desses tenha sido a famosa “Casa da Eny”, em Bauru, no Estado de São Paulo. Cidade que também nos deu o famoso sanduíche “bauru”, à base de presunto e queijo derretido. Parece que a vocação da cidade é mesmo relacionada ao ato de comer. E comer bem. Mas vamos à história de um dos mais famosos bordéis do Brasil, com algumas fotos do próprio bordel e da Eny, outras de bordéis do século XIX, que nos remetem à era dos grandes bordéis, pois documentação fotográfica real e erótica da “Casa da Eny” ou não existe ou ainda não foi encontrada:



A CASA DA ENY


(Foto de a. não identificado: Casa da Eny)

No inicio dos anos 1960, um compositor da musica popular italiana compôs uma canção com o titulo A casa da Irene. “Na casa da Irena, se canta se ri, É gente que entra, é gente que sai”. Podia ser uma casa de família onde muita gente ia e voltava de visitas, quem sabe, de uma família numerosa. Mas não, para quem ouvia, a letra se referia a um bordel.

(Foto de a. não identificado: Casa da Eny - algumas mulheres que lá trabalharam)

Muitos anos antes dessa musica, no Estado de São Paulo já existia “A Casa da Eny”, a maior casa do meretrício de São Paulo, talvez do Brasil. Ficava na cidade de Bauru, 500 quilômetros distantes da capital. 


A proprietária era Emy Cesarino (ou Sarino, segundo outras fontes), depois Eny, filha dos imigrantes José Cesarino, italiano, e de Angelina Bassoti Cesarino, francesa, nascida em 1916 no bairro da Aclimação em São Paulo. Morou em Uruguaiana e chegou a Bauru, aos 23 anos, em 1940, para trabalhar como prostituta num conhecido estabelecimento da época, a Pensão Imperial. 


Passou a gerente, arrendou e finalmente comprou o “ponto” e a casa da antiga zona de meretrício, na rua Rio Branco 550, esquina com a Costa Ribeiro, tendo logo se destacado dos demais, pela sofisticação e luxo que seu bordel oferecia.


Em função da lei municipal que proibiu a permanência da zona do meretrício em área central da cidade, no final dos anos 50, Eny, então proprietária da Pensão Imperial, transferiu-se para fora do perímetro urbano, construindo o Restaurante “Eny’s Bar” em propriedade particular, ao sul da cidade, em área transacionada através da Prefeitura, diversamente das outras casas de meretrício, que foram confinadas no extremo leste da cidade, distante, em local conhecido popularmente como “formigueiro”.


A casa da Eny se situava agora junto ao trevo rodoviário que liga as rodovias Mal. Rondon, Cte. João Ribeiro de Barros e Eng. João Batista Cabral Rennó – hoje oficialmente denominado Trevo da Eny. 


O maior e mais luxuoso bordel do Brasil, cuja fase áurea se deu entre 1963 e 1983, era inigualável na América Latina: tinha 5.000 m² de área construída, distribuídos em 12 conjuntos, 7.000 m² de jardins e alamedas floridas, protegidas por muros, com a maior piscina particular da cidade, sauna, restaurante e lanchonete, além dos quarenta quartos e suítes, com cama redonda e poltronas Luís XV, e uma suíte presidencial, com entrada privativa. A pista de dança, ao ar livre, tinha formato de violão, cujo “braço” era a entrada para a churrascaria: tudo de uma beleza e requinte inconcebíveis para um bordel.


Contudo, os serviços mais destacados eram a qualidade das mulheres e o sigilo/discrição garantidos pela proprietária – na verdade, sua marca registrada. Vinham as lindas moças de toda a parte, recrutadas até do Paraguai, Argentina e Uruguai. Eny nelas investia: antecipava-lhes dinheiro para roupas finas, joias caras e salões de beleza; tudo do bom e do melhor para a clientela constituída por gente muito rica, famosa, políticos e afins.

Segundo se diz, passaram pelos aposentos da Eny, dois terços de todas as assembleias legislativas do Estado de São Paulo desses anos, muitos governadores de Estado e prefeitos da região, boa parte dos grandes plantadores de cana e os filhos deles e pelo menos um Presidente da República (conta-se que Jânio Quadros esteve lá, para pedir seu apoio. Não se sabe se ele pediu outra ou outras coisas, como um bom uísque, por exemplo). 


O fato é que o bordel fazia as vezes de “centro de convenções” do Estado, muito antes de terem sido criados os primeiros deles. Bauru já era o lócus para fechamento de grandes acordos de empresas e indústrias de porte e convenção de partidos políticos – como noticia a imprensa local, inúmeras vezes -, pois a comemoração com chave-de-ouro na Eny era obrigatória. Mesmo – e principalmente (devido ao sigilo, à discrição da proprietária) – durante o período da ditadura militar.


Ora, nada mais previsível que esta hábil administradora (que, dizem, deteve a maior fortuna de Bauru da época) exercesse também grande força política: por exemplo, em menos de 24 horas fez revogar a ordem do Delegado Regional de Polícia, Francisco de Assis Moura, que determinara o fechamento da sua Casa, por não estar no local determinado ao meretrício, e elegeu, em 1963, o vereador Marco Aurélio Brisolla.


Até um príncipe austríaco que foi a Bauru instalar uma cervejaria – a Vienense – visitou a Eny. Ele e quatro engenheiros ficaram tão encantados que depois voltaram para visitar o bordel, que só foi desativado em 1983 (a propriedade foi vendida a grande empresário de ônibus da região, que a revendeu; hoje pertence ao médico psiquiatra, ex-deputado estadual, Fauzer Banuth, e permanece fechada, sem uso algum).


Mesmo não existindo mais, a “Casa da Eny” é ainda referência para e sobre Bauru, citada, até hoje, em jornais e na TV. "Eny é um símbolo de Bauru, mas a cidade ainda a rejeita, por preconceito. Ela merecia uma estátua, por tudo que representou para a cidade", defende o historiador bauruense Henrique Perazzi de Aquino.


Uma lei sancionada pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB), em 2015, fez com que o viaduto no km 237,5 da rodovia João Baptista Cabral Rennó (SP-225) fosse chamado de Eny Cezarino – quase 30 anos após a morte da cafetina. Além de ser homenageada com o nome no viaduto, a vida da cafetina foi contada no livro "Eny e o Grande Bordel Brasileiro" (editora Planeta), do jornalista Lucius de Mello. 

(Madame Eny - foto de a. não identificado)





Fontes:









2 comentários:

Anônimo disse...

Que interessante, nunca tinha ouvido falar, gostei, e realmente devia ser um luxo lá. Aliás será que existiu um bordel só de homens? Para os gays.

Isaias Edson Sidney disse...

Veja, aqui mesmo neste blog, a postagem com o título LABYRINTO. Foi, até agora, o que encontrei parecido ao que você perguntou, se existiu um bordel só para homens, para os gays.