segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

QUEM TEM MEDO DA NUDEZ? UM MANIFESTO PELA LIBERDADE DO CORPO





Os gregos e romanos não tinham problema com nudez. E isso é história. Basta ler um pouquinho. Depois vieram os cristãos e... a nudez se tornou um tabu. Só o classicismo, aí por volta dos anos 500, conseguiu liberar um pouco a arte das roupas e até na Capela Sistina havia nus. Também por essa época, os europeus chegaram ao Brasil e encontraram uma civilização livre e nua, a que chamaram “índios”. Depois, mergulhou-se de novo na censura ao nu, com a chamada “era elisabetana”. Até há pouco tempo, não mais de um século, os casais transavam de roupa!


O século XIX descobriu a fotografia e o nu fotográfico nasceu em seguida e prosseguiu durante todo o século XX. E hoje, em pleno século XXI, há uma nova onda de moralismo no ar. Contra ela, insurjo-me, com o meu blog. Contra ela, insurgem-sem muitos artistas, inclusive este: RAUL BOLEDI, argentino radicado no Brasil, escultor. Dele é o texto abaixo, um verdadeiro manifesto pela liberdade do corpo (e as duas fotos acima, de esculturas de sua autoria; as demais fotos são da internet, sem indicação de autoria):

CENSURA E PADRÃO ESTÉTICO

de Raul Boledi


“Imagine por um instante, uma sociedade que censurasse os rostos velhos, feios, deformados, desproporcionais, etc., e permitisse ver somente rostos de um determinado padrão estético, mas sempre ocultando, por exemplo, as bocas. Diríamos que essa censura é doentia. Não só pelas bocas ocultas, mas também pela perda das identidades que não se ajustem ao padrão aceito. Troque agora, rostos por corpos e bocas por sexos expostos. Doentio né?


A visão de um corpo nu é uma fonte de informações inesgotável. Nos fala de atitudes, determinações e fraquezas, medos e desafios, temeridade e limitações. E fundamentalmente, da história desse ser humano. Cada ruga tem um depoimento a fazer. Cada músculo está falando.


As expressões faciais e corporais funcionam simultaneamente, completando-se em coincidências ou contradições. O corpo funciona como uma mídia de comunicação da psique. Expressamo-nos integralmente com o corpo, usando todos os recursos que esse corpo nos proporciona.


A sociedade foi restringindo essa expressão até quase anulá-la. Posturas definidas, atitudes pré-determinadas e um padrão de estética corporal que praticamente se demonstra inumano. Proporções corporais que são manipuladas midiaticamente produzem uma dissociação entre corpo e alma, até a psique negar o corpo do individuo.


Achar-se magro quando o corpo é gordo. Achar-se alto quando se é pequeno. Achar-se jovem quando se é velho. Achar-se de pele branca quando se é de pele escura. Negar o corpo. Negar a alma. Cobrir o corpo com “grifes”. Cobrir o corpo com mentiras. Enfim, a hipocrisia.



O nu corporal é um desafio. É uma ruptura necessária para quebrar a continuidade da hipocrisia social. As artes são o veículo dessa ruptura. Como artista, não admito renunciar à expressão integral de um corpo.


Como escultor, uso a escultura de nus femininos para alavancar essa ruptura e valorizar as nuances da personalidade da mulher. Ainda pretendo ser mais ousado, pois pretendo romper gradativamente com o padrão estético aceito pela sociedade. Será a minha pequena luta.”





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