segunda-feira, 19 de junho de 2017

EROTISMO MEDIEVAL: TROVAS POPULARES CONTAM E CANTAM SACANAGENS DE UMA SOCIEDADE PUDICA SÓ NA APARÊNCIA




Fabliau (leia-se “fabliô”) significa trova, em francês. Trova lembra trovadores, que percorriam os castelos na Europa medieval, cantando e contando causos. E dentre esses causos, havia os “fabliaux” – pequenos contos eróticos que narravam, de forma divertida, aventuras eróticas de cidadãos acima de qualquer suspeita. Porque os fabliaux eram essencialmente contos de “vilões”, isto é, de moradores das vilas, povoados medievais que começavam a ganhar status de grandes cidades, com suas profissões burguesas (alfaiates, sapateiros, ferreiros etc.). O texto abaixo esclarece bem o tipo de literatura erótica de que se fala nos fabliaux (fontes no final; desenhos de vários artistas do final da idade média e início da renascença): 

SAGRADO E PROFANO, 

A MULHER COMO SANTA E PROSTITUTA



A transgressão institucionalizada: com um generoso sorriso, a “donzela” volta suas imensas nádegas para os transeuntes da praça da catedral de Freiburg im Breisgau (Alemanha, escultura do séc. XIV). Essa curiosa escultura encima uma bela sequência narrativa da expulsão de Adão e Eva do Paraíso, que adorna um dos portões laterais da catedral. A analogia é muito poderosa: Adão e Eva foram expulsos do Paraíso da mesma forma que as fezes são expelidas pelo corpo humano. A solução arquitetônica é completada artisticamente nos dias de chuva, quando a água acumulada escorre pelas canaletas e sai pelo ânus da donzela, criando uma inusitada cascata na frente do portão. 

(A. não identificado)

A escolha da mulher sorridente como instrumento que expele o mal é um sinal claro da consternadora ambivalência feminina na visão dos homens medievais: a mulher é, ao mesmo tempo, anjo e demônio; casta e provocadora. Observe o desenho acima: a “donzela” oferece ao cavaleiro o seu “cofre” que ele tenta abrir com sua “espada” em riste. Ilustra o tipo de narrativa contida num fabliau, como este:



A DONZELA QUE NÃO PODIA 

OUVIR FALAR DE FODER

(Achille Deveria)

Era uma vez uma donzela muito orgulhosa e rebelde. Se ela ouvisse alguém “falar de foder” ou algo semelhante, ficava com um ar muito ofendido. Ela era a única filha de um bom homem, um rico camponês que não tinha nenhum servo em sua casa porque a moça não suportava ouvir esse tipo de conversa típica de servos. Ela “...nunca poderia suportar / que um servo falasse de foder / de caralho, colhões ou coisa semelhante” (Fabliaux, 1997: 63).

(A. não identificado)

Um belo dia, um jovem velhaco de nome David chegou àquela aldeia e ouviu falar da filha que odiava os homens. Decidiu então conferir a curiosa estória, oferecendo seus préstimos: disse que sabia lavrar, semear, debulhar o trigo e peneirar. O camponês agradeceu, mas respondeu que tinha uma filha que sentia tanta náusea das coisas obscenas que os homens conversam que não poderia aceitar sua oferta. David fingiu ser um homem temente a Deus e clamou pelo Espírito Santo. Ao ouvir suas palavras, a filha do rico camponês pediu ao pai que contratasse o rapaz, pois ele compartilhava suas ideias.

(A. não identificado)

Houve então uma grande festa para comemorar a contratação do “servo beato”. Quando chegou a hora de dormir, o bronco camponês perguntou à filha onde David descansaria: “Senhor, se isso vos agrada / ele pode dormir comigo / ele parece ser de confiança / e ter estado em casas nobres”.

(Achille Deveria)
O ingênuo pai concordou. A donzela era muito graciosa e bela, e o servo, matreiro, logo colocou sua mão direita nos alvos seios da moça, depois em seu ventre e seu sexo, sempre perguntando à donzela o que era aquilo que tocava: “David desceu a mão / direto à fenda, sob o ventre / onde o pau entra no corpo / e sentiu os pêlos que despontavam / ainda macios e suaves (...)”. E perguntou:

(Achille Deveria)



Por boa fé, senhora, disse David (...)

o que é isto no meio do prado

esta fossa suave e plena?

Disse ela: é a minha fonte

que ainda não brotou.


(A. não identificado)


E o que é isto aqui ao lado /

disse David, nesta guarita?

É o tocador de trompa que a guarda

responde a jovem, verdadeiramente

se um bicho entrasse no meu prado

para beber na fonte clara

o vigia tocava logo o corno

para lhe fazer vergonha e medo. 

(A. não identificado)

A seguir, a jovem virgem decidiu ousar e passou a tomar a iniciativa, apalpando igualmente o servo beato. O poema compara o pênis a um potro e os testículos a dois marechais. A donzela pede então que o belo potro do jovem paste em seu prado. 

(Johann Nepomuk Geiger)

David teme que o “tocador de trompa” da moça – provavelmente uma metáfora ao clitóris feminino – faça barulho, isto é, que a jovem grite de dor e prazer. Ela responde: “Se ele disser mal / batê-lo-ão os marechais. / David responde: Muito bem dito.”

(Paul-Émile Bécat)

E assim a jovem virgem e falsa pudica “foi derrubada quatro vezes”, “...e se o tocador de corno troou / foi batido pelos dois gêmeos / Com esta palavra termina o fabliau.” 

(Paul-Émile Bécat)


Fonte:

COSTA, Ricardo da (coord.). Mirabilia 6

Revista Eletrônica de História Antiga e Medieval

Journal of Ancient and Medieval History

A educação e a cultura laica na Idade Média,

dezembro de 2006 (ISSN 1676-5818).

segunda-feira, 12 de junho de 2017

DIA DOS NAMORADOS




Celebrem-se todas as formas de amor:





 (4 fotos de Andres Serrano)





 (Foto de Helmut Newton)

 (Henry Miller, foto de a. desconhecido) 

 (Foto de Annie Leibovitz - Jonh Lennon e Yoko Ono, 1980)


 (Foto de Jan Saudek)

 (Foto de Jock Sturges)


 (Foto de Richard Avedon - Allen-Ginsberg and Peter Orlovsky,1963)


 (Foto de Stéphane Zagdanski) 


 (Foto de Viktor Ivanovski)


(Foto de a. desconhecido: Xuxa no filme "Amor estranho amor")


(Foto de Peter Hegre: Flora and Mike)





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E tantas quantas mais houver!



segunda-feira, 5 de junho de 2017

LUXÚRIA - COMO ELA MUDOU A HISTÓRIA DO MUNDO

(Marius Budu - Photography)

Foi por causa da luxúria que os gregos consideravam a relação entre homens superior à entre homem e mulher, que os hebreus criaram o conceito de pecado, que papas descumpriram seus votos de castidade, que as mulheres foram tão estigmatizadas e perseguidas e que a pornografia se transformou em uma indústria bilionária.


O livro "Luxúria", escrito pelo jornalista Maurício Horta, faz parte da série "Os Sete Pecados", da editora LeYa, que procura compreender a trajetória e o desenvolvimento humano a partir da perspectiva dos pecados capitais. 


“Pecado” é um conceito cristão, que pode e deve ser desmistificado. Digamos, apenas, no entanto, que “luxúria” seja um dos aspectos da sexualidade humana, considerada pelo extremo desejo de sexo. E como brasileiros, tropicais, solares, praieiros, vamos com os versos de Chico Buarque:


“Não existe pecado do lado de baixo do equador

Vamos fazer um pecado rasgado, suado, a todo vapor

Me deixa ser teu escracho, capacho, teu cacho

Um riacho de amor

Quando é lição de esculacho, olha aí, sai de baixo

Que eu sou professor”


Então, convido você a ler um trecho do livro citado, como degustação, devidamente acompanhado de sete “pecados” de luxúria em cada foto, sete como número “cabalístico”, sete para comemorar qualquer coisa que tenha esse número como referência (Sete noivas para sete irmãos, por exemplo, um filme famoso):



A LUXÚRIA


Maurício Horta


Quando os poetas Dante e Virgílio começaram a descer os nove círculos do inferno em A Divina Comédia, as primeiras pessoas que a dupla encontrou foram os sábios da Antiguidade. Dos pecadores, eram os mais inocentes. Afinal, tinham vivido virtuosamente; apenas tiveram o infortúnio de nascer antes de Cristo. Conforme os poetas seguiram para o segundo círculo do inferno, chegaram ao vale dos Ventos, onde padeciam "os que aos vícios da carne se entregavam". Se em vida os condenados pela luxúria haviam se deixado levar pelas paixões, agora era o terrível turbilhão que os prendia no inferno.


Em seguida, Dante e Virgílio atravessaram o lago de lama no qual glutões se atolavam no próprio vômito.


Depois, foram para a colina, onde avarentos e vaidosos lutavam eternamente entre si usando como arma terríveis pesos - por terem as mãos fechadas, os avarentos eram obrigados a empurrar com o peito. Os poetas seguiram para baixo até pararem junto a uma lagoa de águas lodosas. Lá, os condenados pela ira se debatiam, enquanto os condenados pela acídia (também conhecida como tristeza e preguiça) eram presos ao fundo do lodo, e ali se afogavam eternamente, formando bolhas que se viam na superfície da lagoa.


Esses eram apenas os menos graves dos pecados. Depois de atravessarem a cidade de Dite, os poetas encontrariam os recônditos do inferno, onde se puniam os piores pecados: aqueles cometidos conscientemente. Lá estariam o círculo da heresia, o círculo da violência, o círculo da fraude e, finalmente, o círculo da traição, onde vivia Lúcifer.


Para Dante - que era um poeta, não um homem da Igreja -, os pecados capitais estavam longe de ser os mais graves. E isso está de acordo com a tradição católica. Quando o papa Gregório I consolidou a lista de pecados capitais, ainda no século VI da nossa era, fez isso não por considerá-los atos ou pensamentos especificamente graves, pelo contrário. Vaidade, avareza, inveja, ira, gula, acídia e luxúria não podem sequer ser resumidos a um ato ou pensamento específico, diferentemente do que acontece com heresia, violência, fraude e traição. O que, então, torna os pecados "capitais" não é a gravidade, mas a capacidade de induzir o indivíduo a cometer outros pecados. Pecados capitais não são atos ou pensamentos "maus", mas sim uma predisposição presente em todos os indivíduos que os leva a cometer atos e pensamentos maus. Eles são a cabeça dos pecados.


Por exemplo, a luxúria, que é o tema deste livro, não é traduzida em atos sexuais específicos - como "fornicação" e "sodomia". Ela é mais bem-definida como a inclinação a ceder aos desejos do nosso corpo. E, ao ceder aos desejos da carne, acabamos ultrapassando a barreira do que a tradição cristã considera pecado.


A ideia de que luxúria é um pecado capital surgiu em um momento muito específico do Cristianismo, e teve consequências importantes na forma como as pessoas se relacionam no Ocidente. A história do Ocidente, por sua vez, também acabou modificando bastante o que consideramos luxúria e a importância que lhe damos.


O sexo já andou de mãos dadas com a religião: transar fazia parte dos cultos. Mesmo assim, as leis contra o adultério são tão antigas quanto a civilização, e bárbaras como se civilização não houvesse. E a prostituição já foi tão importante que chegou a ser estatizada. Com vocês, o sexo na Babilônia, no Egito, na Grécia e em Roma. E na Bíblia também. Em pelo menos um ponto os caçadores e coletores nômades do Paleolítico se pareciam bastante com o homem urbano de hoje: dificilmente tinham mais de dois filhos. 


O motivo era bastante simples: assim como hoje, filhos eram bocas caras demais para sustentar. E, na falta de anticoncepcionais, o que garantia essa prole restrita era um índice severo de mortalidade infantil, que reduzia a média de crianças sobreviventes a duas por mulher. Nessas condições, evoluímos do surgimento dos primeiros hominídeos mais ou menos modernos, como o Homo erectus, entre 1,7 milhão e 2 milhões de anos atrás, até outro dia.


Mas eis que, por volta de 10000 a.C., os humanos começaram a produzir ferramentas mais especializadas do que a pedra lascada, como anzóis e flechas. Com elas, puderam ficar cada vez mais tempo no mesmo lugar. Em vez de saírem para caçar, foram capazes de viver, por exemplo, da pesca. E, ao deixarem o nomadismo, começaram lentamente a cultivar plantas comestíveis e a domesticar animais.


No momento em que se assentaram de vez, saíram do Paleolítico e entraram de cabeça no Neolítico - o que começou a ocorrer há dez milênios no Oriente Próximo, nos atuais Iraque e Jordânia, e pouco mais tarde nos vales dos rios Amarelo (China), Nilo (Egito), Indo e Ganges (subcontinente indiano) e nas Américas.


Primeiro, organizaram-se em comunidades produtoras de alimentos e passaram a controlar o ambiente à sua volta. Isso não só diminuiu o número de mortes violentas, tão comuns entre nômades, como também aumentou a produção. Com mais alimentos, a expectativa de vida e o número de filhos por mulher aumentaram. É aí que começa a primeira revolução sexual da humanidade - uma revolução que, em vez de ampliar, diminuiu a liberdade sexual.


Para os caçadores e coletores nômades, filhos em excesso representavam um fardo. Já para os agricultores, filhos eram mais braços para o trabalho, e filhas, uma moeda de troca para a aliança com outras famílias de agricultores. Os machos no Paleolítico buscavam maximizar as oportunidades sexuais demonstrando para as fêmeas de seu bando que tinham aptidões e vigor. O mais saudável, talentoso e poderoso teria mais parceiras; o menos dotado ficava sozinho. No Neolítico, eles se viram presos a uma comunidade sedentária, a laços de fidelidade, a trocas de dotes. Estavam, finalmente, casados.


Quando esse casamento surgiu, pouco tinha a ver com amor ou tesão. O que estava em jogo não era mais o interesse biológico de um casal se reproduzir, mas os benefícios propiciados a um grupo maior de pessoas. Quando sogros uniam o filho de um com a filha de outro, expandiam a sua rede familiar - ou seja, quem se casava não eram os indivíduos, mas as famílias. Esse casamento transformava dois desconhecidos em parentes, e isso os levava a estender a relação de cooperação da família a novas fronteiras. As famílias que tinham propriedades buscavam casamentos que garantissem a integridade de seu patrimônio e que também pudessem estendê-lo. Alianças de sangue se tornavam alianças políticas, das quais os exemplos mais perfeitos são as dinastias reais europeias.


É claro que muitas pessoas se apaixonavam, e que essas paixões entravam em conflito com os interesses de suas famílias. Afinal, o humano era o mesmo ser romântico e lascivo de sempre. Mas o fato é que, fundamentalmente, o casamento não tinha a ver com amor, mas com economia. A unidade básica da sociedade que evoluiu da agricultura era importante demais e deveria ser definida por interesses objetivos e materiais, não por algo tão irracional e efêmero quanto o amor. 


A afeição e o tesão eram fruto evolutivo de milhões de anos de vida errática, não das grandes necessidades materiais do novo homem agricultor. Que os homens viessem eventualmente a fazer sexo com prostitutas e amantes - ou mesmo arranjassem mais esposas, caso fossem ricos - não era problema. O que importava era que o casamento permanecesse intacto; e a mulher, fiel. O Código de Hamurabi, uma das primeiras "Constituições" de todos os tempos, em vigor na Mesopotâmia de 1750 a.C., era a mais completa tradução desse conceito.





Fontes: 


Livro: LUXÚRIA
Autor: Maurício Horta (jornalista formado pela USP,
 colaborou para diversas publicações, 
como a Folha e a revista "Superinteressante")

Editora LeYa