segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

A FONTE – DA VIDA – E A FLOR: INTERPRETAÇÃO ERÓTICA DE UM POEMA ROMÂNTICO



(Henning von Gierke)

Um inocente poema povoou e aterrorizou meus sonhos infantis. Falava de uma fonte que carrega uma flor e a flor agoniza sendo levada pela fonte. Sofria com o sofrimento da flor. Agora, passados tantos anos, retorno a ele, para exorcizá-lo de uma forma que o autor tenha contorções em seu túmulo. Uma interpretação – por meio de fotografias – vingativa, que nem Freud explicaria. Mas, explicar para quê? Basta seguir a melopeia poética e pousar, após cada estrofe, os olhos nas fotos, para que o frêmito de terror – que povoou minha infância – se transforme em prazer e gozo puros. Com vocês...

A FLOR E A FONTE

Vicente de Carvalho



"Deixa-me, fonte!" Dizia 

A flor, tonta de terror.

E a fonte, sonora e fria,

Cantava, levando a flor.



"Deixa-me, deixa-me, fonte!"

Dizia a flor a chorar:

"Eu fui nascida no monte...

"Não me leves para o mar".


E a fonte, rápida e fria,

Com um sussurro zombador,

Por sobre a areia corria,

Corria levando a flor.


"Ai, balanços do meu galho,

"Balanços do berço meu;

"Ai, claras gotas de orvalho

"Caídas do azul do céu!...”


Chorava a flor, e gemia,

Branca, branca de terror,

E a fonte, sonora e fria

Rolava levando a flor.


"Adeus, sombra das ramadas,

"Cantigas do rouxinol;

"Ai, festa das madrugadas,

"Doçuras do pôr do sol;


"Carícia das brisas leves

"Que abrem rasgões de luar...

"Fonte, fonte, não me leves,

"Não me leves para o mar!..."


As correntezas da vida

E os restos do meu amor

Resvalam numa descida

Como a da fonte e da flor...






(Fotos da internet, sem indicação de autor)




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