segunda-feira, 19 de setembro de 2016

O RELATÓRIO HITE, OU: A BUSCA DO ORGASMO PERDIDO? – 3



(Shere Hite, anos 70)


Lançado em 1976, THE HITE REPORT – no Brasil, O RELATÓRIO HITE – desvelou a sexualidade feminina logo após a chamada “revolução sexual” dos finais dos anos 60. Através de longos questionários, que deviam ser preenchidos com narrativas, a sexóloga, pesquisadora e feminista estadunidense Shere Hite (1942) convocou e estimulou as mulheres a falar sobre aspectos até então praticamente intocados da intimidade feminina, mesmo após os estudos de Masters e Johnson e outros pesquisadores.


Não é possível saber se, quarenta anos depois, as mulheres dariam as mesmas respostas ou levantariam as mesmas questões que aparecem nas volumosas páginas do RELATÓRIO. O que se pode notar é a excessiva preocupação com a obtenção do orgasmo, até mais do que com a obtenção do prazer, o que fica claro com os longos capítulos sobre a masturbação. De qualquer modo, são depoimentos verdadeiros e bastante interessantes, até os dias de hoje.


Na abordagem de hoje do RELATÓRIO HITE, vamos dar voz a algumas dessas mulheres, no assunto mais discutido no livro e o que mais impacto causou, creio, na época: as mulheres se masturbam e sentem prazer com isso. Desde o final do século XIX, quando a masturbação feminina com fins terapêuticos – para curar distúrbios neurológicos (veja a história do vibrador, nesse mesmo blog) – teve um certo boom, não se falava tanto nesse assunto. Com a palavra, as mulheres da década de setenta e suas incucações masturbatórias:


VOCÊ GOSTA DE SE MATURBAR?



“A maioria das mulheres disseram que fisicamente tinham prazer na masturbação (afinal de contas, levava ao orgasmo), mas não psicologicamente”:


Sim, gosto de me masturbar. Psicologicamente, não tenho tanta certeza. Não é que eu sinta que estou fazendo uma coisa “suja”, mas acho que tende a reforçar meus medos de ser “frígida” ou fodida (acho que fui terrivelmente influenciada por toda aquela “literatura” que diz que, se você se masturba, mas não tem orgasmo durante a relação, você é uma fodida). Eu sempre tenho orgasmos quando me masturbo. É mais intenso sozinha. Eu geralmente tenho um ou dois orgasmos.


 Gosto fisicamente de me masturbar, mas psicologicamente, por mais que eu “saiba” que é bom, e que “não há nada de errado nisso”, também sei que a masturbação não é aceita socialmente pela maioria, e tenho medo de ser “descoberta” e rejeitada.


Com muita frequência, eu sinto que sexo não é exatemente um comportamente adequado. Eu gosto muito de me masturbar, mas sinto um incômodo indefinível depois (mesmo depois de me masturbar). Esta é a segunda vez na minha vida que me permito a masturbação. A primeira foi quando o meu parceiro sexual me pediu.


Gosto de me masturbar. A sensação física e o orgasmo são ótimos, mas com frequência me sinto envergonhada depois, como se houvesse alguma coisa de errado comigo, porque eu deveria ter um homem para me dar essa sensação sempre que eu quisesse, e eu não tenho.


Gosto de me masturbar fisicamente, mas não psiscologicamente. Eu me masturbo talvez umas três vezes por mês. Sempre tenho orgasmo e é igualmente intenso sozinha ou com alguém, mas eu me sinto mais à vontade sozinha. O ego do parceiro fica ferido porque você pode ter muitos orgasmos e ele só um! Geralmente tenho um orgasmo com um parceiro, mas vários se estou sozinha.


“Fisicamente gosto da masturbação, mas psicologicamente, tenho sentimentos de culpa e de “sujeira”, embora racionalmente eu tenha plena consciência de que não deveria me sentir assim. [...] Procuro sempre um orgasmo quando me masturbo, provavelmente porque é uma experiência ativa para mim; é difícil ficar passiva quando se está sozinha.


Fisicamente, sim. Psicologicamente, não. Na verdade, eu ainda não convivi por tempo suficiente com o fato de que sim, senhora, as mulheres se masturbam. Eu me masturbava frequentemente quando eu era mais nova (dos onze aos quatorze anos), e depois “rezava” pedindo força para abandonar esse hábito. Ah, os meus pecados! Mas essa “foraça” quase sempre me faltava, e eu voltava a Deus pedindo que os raios não me partissem ao meio. Eu sabia que era uma Pecadora.


Fisicamente, sim. Psicologicamente, estou sós começando a apreciar. Tenho aprendido muito sobre sensações e sobre sexo na masturbação, embora há bem pouco tempo eu sentisse muita culpa. Eu sempre tenho um orgasmo, algumas vezes até três. É mais intenso sozinha, porque eu sinto que me seguro quando estou com alguém.


Cada vez gosto mais de me masturbar, tanto fisicamente quanto psicologicamente. Fisicamente, é rápido, fácil e satisfaz. Psicologicamente, é um pouco solitário algumas vezes, mas isso também ocorre quando se faz amor com uma pessoa que não se ama. Eu me masturbo todas as noites antes de adormecer. Sempre tenho pelo menos um orgasmo e geralmente me satisfaço com meia dúzia. Tem a mesma intensidade, só ou com alguém.


Sim, gosto muito, mas sinto que se eu me masturbar demais, vai ser difícil gozar com um homem. Eu me masturbo quase diariamente com um vibrador. Eu quase sempre tenho orgasmo, mas manualmente eu só aprendi há pouco, e só tenho orgasmo às vezes. Com o vibrador leva cinco a vinte minutos; com a mão, meia hora ou mais. Ainda me sinto inibida demais para me masturbar com um parceiro.




(O Relatório Hite – Um profundo estudo sobre a sexualidade feminina); tradução de Ana Cristina César

– DIFEL – DIFUSÃO EDITORIAL S/A; São Paulo; 1985)

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