segunda-feira, 29 de agosto de 2016

O RELATÓRIO HITE, OU: A BUSCA DO ORGASMO PERDIDO? – 2



(Joëlle Circé Laramee)

A segunda e última parte do artigo de Tito Sena sobre o RELATÓRIO HITE faz uma breve análise do processo de pesquisa de Shire Hite, procurando esclarecer alguns aspectos abordados no livro, trazidos pelos depoimentos das centenas de mulheres que responderam aos questionários. A fotos ilustrativas são da fotógrafa estadunidense  Samantha Volov:

OS RELATÓRIOS SHERE HITE: 

SEXUALIDADES, 

GÊNERO E OS DISCURSOS CONFESSIONAIS

(conclusão)

Tito Sena

J

A pesquisa aponta o fato da maioria das mulheres não gozar normalmente em decorrência do coito. Para Shere Hite o orgasmo no coito consiste num ponto crucial de discussão em relação à sexualidade feminina, provocando sentimento de insegurança, frigidez, culpa, vergonha e principalmente o fortalecimento do mito orgástico vaginal, fazendo com que se instale a grande indústria da objetivação sexual na busca da “cura fora de si” (palavras suas) do tão almejado prazer.


No tocante à controvérsia orgasmo clitorial/vaginal, o exame é feito baseado nas diferenças entre o orgasmo com ou sem a presença do pênis na vagina. As depoentes se dividem em dois grupos: um grupo descreve o orgasmo clitoriano como mais intenso e concentrado e o outro define o orgasmo vaginal como mais difuso e mais distribuído pelo corpo. Mas Hite não deixa de registrar sua opinião sobre a intensidade superior e forte dos orgasmos através da masturbação (estímulo clitorial) em comparação ao proporcionado pela penetração vaginal.


O relatório explora o que a autora denomina dois grandes mitos sobre a sexualidade feminina: 1°) As mulheres interessam-se menos por sexo e orgasmo que os homens; 2°) As mulheres demoram muito mais tempo que os homens para gozar, devido à fragilidade e delicadeza feminina. Segundo Hite, o não ter orgasmo no coito é uma adaptação dos corpos femininos, tendo em conta o coito nunca ter sido praticado de modo a estimular o orgasmo para a maioria das mulheres. Sendo assim, deve-se considerar o aumento das chances de um orgasmo durante o coito depender de um relacionamento sexual com um parceiro atento às necessidades individuais.


A pesquisa ressalta ainda que, segundo as entrevistadas, os homens não têm o mínimo de conhecimento da anatomia e dos desejos femininos. Para Hite, “O fato de que não há uma ‘iconografia’ dos órgãos genitais femininos, enquanto os pênis são glorificados, é mais um reflexo da forma pela qual o sexo reflete a desigualdade cultural entre mulheres e homens” (HITE, 1979:263).


Em suma, Shere Hite a partir dos relatos de suas pesquisadas, conclui que as dificuldades do orgasmo feminino evidenciam a supremacia genitalizante e mecânica masculina, constituída pela ereção, penetração e orgasmo, excluindo a mulher da possibilidade de expressão e satisfação. Em suas palavras, está sacramentado o sexo ser uma atividade par, mas infelizmente com satisfação ímpar.


A análise estatística das respostas é apresentada ao final do relatório, mas destacamos um resultado em especial para lançar uma provocação e reflexão: 30% das mulheres, apenas, podem gozar regularmente no coito – isto é – podem ter um orgasmo no coito sem um estímulo clitorial manual mais direto, ou seja, para 70%, o coito – o pênis mexendo na vagina – não leva regularmente ao orgasmo. Logo: o “normal”, estatisticamente falando, é a mulher não chegar ao orgasmo com um homem mexendo seu pênis na vagina. Ou o normal é o ideal de sentir orgasmo, portanto, os 30%?


 O estudo realizado ancorou-se fundamentalmente em Michel Foucault, principalmente suas elaborações presentes em História da sexualidade I - A vontade de saber, e sua crítica no modo como a sociedade ocidental situa a sexualidade: na configuração de uma scientia sexualis (ciência sexual) desenvolvida para dizer uma verdade no sexo, verdade entendida como construtora de normatividades (pelas formas de saber) e normalidades (pelas forças de poder).


Para Foucault (1988) a procura da verdade no sexo foi e é obtida através de inúmeros mecanismos, incluindo, por exemplo, a confissão. O deslocamento da confissão religiosa cristã a um projeto de discurso científico, atravessou o século XIX até sua consolidação, sendo um marco na constituição das ciências sexuais.


Neste sentido, os relatórios Hite, através de questionários, enquetes, entrevistas, narrativas descreveram comportamentos íntimos sexuais, relataram privacidades, expuseram medos, receios, em suma: apresentaram “novas” possibilidades de descobertas e explicações sexológicas. Os depoimentos, os relatos, as descrições minuciosas sobre o corpo, reações físicas, zonas erógenas, preferências sexuais, segredos, os desejos e as fantasias sexuais, insistentemente citadas e referenciadas, são mentiras ou são verdades? São verdades produzidas historicamente, a partir das contribuições de diversas ciências, com “especialistas” legitimando as informações distribuídas e divulgadas através de formas discursivas.


Mas é na ânsia de respostas verdadeiras, que emerge a insistente pergunta: “Sou normal”? “Sou anormal”? O que é normal para quem pergunta?  Será que bastaria ouvir de um “especialista” a resposta “você não é anormal!” ou ouvir “isto não é doença!”? As estranhezas ou as discrepâncias de comportamento sexual são colocadas em relação a mim ou em relação aos outros?  Somos o que o outro confirma que somos? Somos o que o outro afirma que somos? A diferença entre afirmação e confirmação não é apenas de ordem semântica. Eu sou o diferente, ou os outros? Em resumo: quem é o normal? Como algo ou alguém é considerado anormal?


Nestas escalas classificatórias de (a)normalidade, o recurso à estatística é uma prática comum e pretensamente legitimadora de verdade científica. Ao ver os percentuais estatísticos num livro “científico”, o enquadramento comparativo é automático: estando nos 70% ou nos 30%, é o número que me avaliará, é um “diagnóstico estatístico”, não é um diagnóstico clínico, cuja mediação (pela média numérica!) é relatada pelos participantes das enquetes, logo, os outros. Se estiver na maioria, tudo bem, sou normal; caso contrário, tendo este (pré/pseudo)diagnóstico  estatístico (científico) como referência, procurarei (se puder) um especialista para confirmação através de um diagnóstico clínico (científico). È a prática real da normalização que determina o conceito de normal e é esta a possibilidade de um conceito ser incorporado como um preceito.


Nesta teia de jogos numérico-estatísticos (verdadeiros!?), as pessoas confundem fatos (descrições) com valores (apreciações), quantificações com qualificações, as normas com os normais.



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