segunda-feira, 22 de agosto de 2016

O RELATÓRIO HITE, OU: A BUSCA DO ORGASMO PERDIDO? - 1




Faz 40 anos que Shere Hite publicou O RELATÓRIO HITE – UM PROFUNDO ESTUDO SOBRE A SEXUALIDADE FEMININA. Um livro que lançou um grande facho de luz sobre alguns aspectos do que pensavam as mulheres estadunidenses, naqueles idos dos anos 70, sobre o sexo, os homens e, principalmente, sobre o orgasmo e a masturbação. Não sei se há estudos recentes que abordem da mesma maneira a sexualidade nem imagino como seriam as respostas às mesmas questões levantadas.

(Joëlle Circé Laramee - Petals II)

O mundo mudou nesses quarenta anos. Terá mudado o pensamento feminino sobre a sexualidade? Estão as mulheres mais livres para viverem sua sexualidade do que estavam há quarenta anos? A tal “revolução sexual” tornou as mulheres menos dependentes do “domínio machista” e dos preconceitos? Estas e muitas outras perguntas podem e devem ser feitas. Mas, enquanto buscamos as respostas, vamos recordar e mostrar alguns aspectos do “profundo estudo sobre a sexualidade feminina” de Shere Hite, em algumas postagens que possam esclarecer aos leitores e leitoras deste blog que não viveram os anos 70 do século passado como era o pensamento das mulheres daquele tempo. O artigo abaixo começa a desvelar o mundo do sexo feminino da era moderna (as ilustrações são do pintor Taro Hata):


OS RELATÓRIOS SHERE HITE: SEXUALIDADES, GÊNERO E OS DISCURSOS CONFESSIONAIS (*)

(primeira parte)

Tito Sena

Os relatórios Hite: questionários e narrativas

(Shere Hite)

Shere Hite (1942- ) se formou em História Americana e Ideologia das Ciências na Flórida e fez doutorado em História na Universidade de Columbia. É autora de diversos livros sobre a mulher e foi fortemente influenciada pela 2ª onda do movimento feminista na década de 60 e 70.


Atuou, entre 1972 e 1978, como Diretora do Projeto Feminista de Sexualidade da National Organization for Women (NOW), organização ativista feminista fundada em 1966 com a finalidade de agir pela igualdade de todas as mulheres e pela eliminação da discriminação no  trabalho, na escola, no sistema judiciário e outros setores da sociedade, além de lutar pelos direitos reprodutivos das mulheres e contra quaisquer formas de violência. Neste contexto histórico, especialmente o norte americano, que se situa a emergência de seus relatórios, pouco tempo posterior às produções clássicas de Betty Friedan (1921-2006) - Mística Feminina em 1963 , Shulamith Firestone (1945- ) - A Dialética do Sexo em 1970, Germaine Greer (1939- ) – A Mulher Eunuco em 1970, Juliet Mitchell (1940- ) - Psicanálise e Feminismo em 1974, e Kate Millet(1934- ) - Políticas Sexuais em 1970, com suas forças contestatórias, sociais e políticas.


Hite organizou as respostas de mulheres com idade entre 14 e 78 anos para lançar o The Hite Report (Relatório Hite sobre a Sexualidade Feminina) em 1976 nos EUA. O relatório foi traduzido e lançado em dezessete países, tendo sido censurado em alguns, inclusive proibido (**) no Brasil até 1978. Segundo a autora, de um total de quase 100.000 (cem mil) formulários distribuídos, 3.019 (três mil e dezenove) foram devolvidos. Para editar o The Hite Report on male sexuality (Relatório Hite sobre a Sexualidade Masculina), em 1981 nos EUA, dispôs de respostas de homens com idade entre 13 e 97 anos. Neste caso, o livro teve edição no Brasil, no ano seguinte, 1982 (período, portanto, de abertura política). Segundo Hite, de um total de 119.000 (cento e dezenove mil) foram devolvidos 7.239 formulários.


No prefácio da edição brasileira, Shere Hite destaca o caráter de anonimato do seu questionário: Preferiu-se o questionário escrito à entrevista pessoal, uma vez que para preservar a total honestidade das respostas era necessário que os homens que respondessem a ele tivessem a proteção do anonimato total. Foi por isso que se lhes pediu que não assinassem as respostas, e que as devolvessem pelo correio.


Ainda assim, segundo Hite, houve mulheres e homens que fizeram questão de assinar o questionário, fazendo de seu depoimento uma afirmação de identidade e o anonimato, irrelevante para a oportunidade de exposição de suas práticas sexuais, sem medos de sanções ou julgamentos.


Hite procurou no relatório masculino, justificar-se das críticas recebidas pelo relatório feminino, quanto à sua metodologia. No prefácio e nos apêndices, isto fica taxativamente explícito, fazendo, neste sentido, referências às pesquisas de Kinsey e Masters & Johnson: Esse estudo é representativo? Nenhum estudo em larga escala já produzido no campo da pesquisa sexual conseguiu ser perfeitamente representativo, devido à natureza bastante sensível das questões, incluindo os de Kinsey, Masters & Johnson e o meu próprio anterior. O melhor que se pode fazer é tentar aproximar, o máximo possível, fatores como idade, raça, etc. dos traços da população em geral. (HITE, 1982:08).


Hite destaca como uma das características fundamentais de seus relatórios, o fato de apresentarem as citações e narrativas para ilustrar suas descobertas, o que, segundo ela, permite uma comunicação entre os participantes da pesquisa e os leitores, proporcionando a estes últimos, a oportunidade de terem suas próprias opiniões e efetuarem suas reflexões.

O Relatório Hite sobre a Sexualidade Feminina
(1976)


Shere Hite inicia seu Relatório Hite sobre Sexualidade feminina afirmando ser a masturbação um dos assuntos mais importantes de seu livro, uma vez constituir-se fonte fácil de orgasmos para a maioria das mulheres. A facilidade com que as mulheres têm orgasmos pela masturbação contradiz os estereótipos gerais sobre a sexualidade feminina, especificamente aqueles sobre a excitação lenta e sobre a raridade do orgasmo das mulheres. Enfatiza que “não é a sexualidade feminina que tem um problema (uma disfunção) – é a sociedade que é problemática na sua definição de sexo e no papel subordinado que essa definição confere às próprias mulheres”.


Nos depoimentos, a maioria das mulheres disse ter prazer fisicamente na masturbação, mas não psicologicamente, embora outras não se permitiam ter prazer na masturbação, mesmo fisicamente. Não obstante, quase todas as mulheres foram educadas de forma a não se masturbarem.


Além disso, a maioria das mulheres sentia a masturbação importante como substituto do sexo (ou do orgasmo) com o parceiro. Se para algumas a masturbação as ajudava a se relacionarem melhor sexualmente com outra pessoa, outras viam-na como uma forma de obter independência e autoconfiança.


Houve uma relativa concordância de que o melhor jeito de aprender a gozar é se masturbando, sendo que algumas delas aprenderam como ter orgasmos, depois de anos de incapacidade para tal. Em contrapartida, as mulheres muitas vezes ignoram as informações sobre sua sexualidade, conservando o mito da masturbação, impedindo-as de explorar e apropriar-se do seu próprio corpo.


Apesar de o livro ser de depoimentos, Hite não se omite de posicionar-se, seja através de opiniões, de conclusões científicas de outros autores (Kinsey, Masters & Johnson, Helen Kaplan, Mary Jane Sherfey, Seymour Fisher, etc.) e, sobretudo, politicamente como feminista: O direito ao orgasmo tornou-se uma questão política para as mulheres. Embora não haja nada de errado com o fato de não ter orgasmos, assim como não há nada de errado em enfatizar e compartilhar o prazer do outro, há alguma coisa de errado quando isto se torna um padrão, quando o homem sempre tem o orgasmo e a mulher não. (...) É hora de recuperamos nossos corpos, de começarmos a usá-los nós mesmas para o nosso próprio prazer.





 (*) Este Artigo é parte de um capítulo da tese de doutorado intitulada Os relatórios Kinsey, Masters&Johnson, Hite: as sexualidades estatísticas em uma perspectiva das ciências humanas, do programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas da Universidade Federal de Santa Catarina, realizada com a orientação da Profª Drª Mara Coelho de Souza Lago e Co-orientação da Profª Drª Miriam Pillar Grossi. Por limitação de texto não vamos expor considerações sobre os relatórios Kinsey e Masters&Johnson.

(**) Neste sentido nos informa Cynara Menezes, em artigo publicado na Folha de São Paulo, de 19/05/01: “Em 1977, quando Shere Hite esteve no Brasil, o governo militar invadiu a sessão de autógrafos, no Rio e recolheu todos os exemplares do Relatório Hite feminino”.

Fonte:




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