segunda-feira, 14 de março de 2016

OLGA SAVARY, UMA POETA DO EROTISMO



(Olga Savary, a poeta quando jovem)

Primeira mulher do país a publicar um livro de poesias eróticas, Olga Savary, que nasceu em Belém,  em 21 de maio de 1933, anos, pensa muito em sexo. Musa do poeta Drummond e de artistas como Siron Franco, ela é uma espécie de Mona Lisa de Copacabana. Atrás do sorriso enigmático, guarda retratos e poemas de admiradores famosos e histórias picantes, profundas e divertidas.



Felicien Rops - The Incantation)


Primeira mulher do país a publicar um livro de poesias eróticas e a se dedicar à escrita de haicais (a sintética poesia japonesa), a escritora paraense tem em seu currículo 20 livros, mais de 40 prêmios de literatura — entre eles, dois Jabutis — e traduções de Pablo Neruda, Julio Cortazar e Mário Vargas Llosa. Mas vive com um salário mínimo por mês, espólio risível dos anos em que trabalhou na Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro. “No Brasil, poeta morre de fome. Mas sou apaixonada por este malandro chamado Literatura e não viveria sem ele”, diz.



(Feodor Stepanovich Rojankovsky)

Com ilustrações de Eugène Reunieur, eis um resumo da entrevista que Olga Savary concedeu à revista Cláudia, em  16.5.2011 (fonte no final):




"Há homens que, de tão delicados, escrevem como mulheres. E mulheres que, por sua vez, escrevem como homens. O Jorge Amado, em 1974, para me elogiar, disse que eu escrevia como homem, mas eu o corrigi: “Não escrevo como homem, mas como uma mulher forte, sem melindres”. Ele falou com a melhor das intenções, mas achei bom reforçar que a mulher pode, sim, ser vigorosa.






Lancei o Magma, livro de poemas eróticos, em 1982, mas os poemas já estavam na minha cabeça, fermentando, havia anos. Só concluí o livro quando fui passar um fim de semana com a Hilda Hilst, na fazenda dela, em Campinas, e fiquei um mês. Eu gostava tanto da poesia dela que decidi organizar sua antologia. Mas Hilda não trabalhava aos domingos e, durante a semana, mergulhava na sua escrita. Então, eu, que me desespero se não escrever, me dediquei mais ao livro do que fazia em casa, com crianças e marido [Olga era casada com o cartunista Sérgio Jaguaribe, o Jaguar, pai de seus filhos, Flávia e Pedro]. Os poemas estavam todos no plano das ideias. Só faltava escrever. O caminho é esse: cabeça, braço, mão, caneta e papel.







Hilda não gostava de mulher. Gostou de mim porque não sou competitiva e deixei-a à vontade para trabalhar enquanto admirava a paisagem. Um dia, o marido da Hilda [o escultor Dante Casarini] propôs que fôssemos os três a um puteiro. Eu nunca tinha ido, mas morria de vontade de conhecer. Pura besteira: não tem a menor graça. É só uma casa, com música, gente que dança e mulheres vistosas que, de repente, desaparecem com os clientes.






A gente só foi ver como era e voltou rápido para casa. O erotismo é anterior e posterior a isso. Sou um ser erótico. Gosto disso. Uma vez me perguntaram se eu escrevia poesia erótica por ser ninfomaníaca. Claro que não! Quando o poeta fala em erotismo, fala porque não teve na dose que precisava. É mais falta do que excesso.








(Sobre Carlos Drummond de Andrade, de quem era amiga). Nunca me atraiu como homem, mas sempre mexeu comigo. Como poeta, era de tirar o fôlego. Tinha vontade de pegá-lo no colo, como uma mãe, mas ele não gostava nada dessa história. Eram outras as suas intenções [risos]. Uma vez, na fila do banco, eu disse para ele que adorava a amizade amorosa que havíamos construído. Ele ficou furioso: “Amizade amorosa coisa nenhuma, isso é amor!”. Fiquei muda, passada. Drummond era discretíssimo, tímido, mas naquele momento se tornou um alucinado, gritava em plena fila de banco.








Na minha época, tinha todo aquele ritual: namoro, noivado e casamento. As mulheres não tinham vez, voz ou libido. Felizmente acordamos. Só fui namorar mesmo depois que me separei, aos 46 anos. Fiquei dois anos e meio com um jogador de futebol de 22, louco por mim. Ele me pediu em casamento e ficou indignado porque não aceitei. Mas eu estava a mil por hora. Tinha acabado de me separar, depois de casar virgem, e não casaria de novo nem por decreto! Queria só aproveitar aquele prazer imenso. Foi esse jogador que me deu um dos orgasmos mais intensos da minha vida, aos 46 anos...




Há 20 anos não quero saber de namoro. No meu último namoro, já doíam o joelho, a lombar. Eu me distraio e me divirto sozinha nesta casa. Sou refém de sexo, mas não de homem; me viro muito bem sozinha. Sei como me dar orgasmos deslumbrantes."







Uma pequena antologia de Olga Savary, com ilustrações de Egon Shiele:

Fogo






Dar-me toda este verão
urdideiros de rio, é ser
serpente de prata. Verão,
foi feita mais uma vítima
Sou um ser marcado, natureza.
A tarde crava em meu magma
o selo de sua secreta pata.

Ar








É da liberdade destes ventos
que me faço.
Pássaro-meu corpo
(máquina de viver),
bebe o mel feroz do ar
nunca o sossego.

A água 




se enovela pelas pernas
em fio de vigor espiralado
sobre o ventre e o alto das coxas.
O orgasmo é quem mede forças
sem ter ímpeto contra a água.


Terra




em golfadas envolve-me toda,
apagando as marcas individuais,
devora-me até que eu
não respire mais.

Delta





Se este corpo é um figo aberto
   (colheita só de frutos roxos)
        ou como vogal aberta.
                como um A
                    de ave,
                     água,

              oro tu piel
               Ah miel!

Em uso




Não acredito em empertigadas metafísicas
mas numa alta sensualidade posta em uso:
que o meu homem sempre esteja em riste
e eu sempre úmida para o meu homem

 Amandaba *




Biografo-me em teu corpo despindo os cascos
e as crinas de égua a me tornar doce,
Côncava, amêndoa, combustível para os vôos:
mel para as nossas asas, fel para o repouso.
* Do Tupi: Circular.

Cantiga de roda para adultos




Anel de fogo para teu dedo sou.
Adivinhem que anel
e qual o dedo.


(Olga Savary, a poeta na atualidade)

Fonte:

Um comentário:

Gabriel disse...

Boa lembrança..Olga é uma excelente poetisa ,uma mulher pioneira que deve sempre ser lembrada como referência..é isso aí ""