segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

O QUE É LITERATURA ERÓTICA? - IV: BREVE HISTÓRIA DA LITERATURA ERÓTICA - 3



(Foto s/indicação de autoria)



DE EÇA DE QUEIRÓS AOS NOSSOS DIAS



(Felicien Rops - la luxure)


Fora dos cânones instituídos (e controlados) do cristianismo, é a arte de Eça de Queirós, em O Crime do Padre Amaro: "Quando descia para o seu quarto, à noite, ia sempre exaltado. Punha-se então a ler os «Cânticos a Jesus», tradução do francês publicada pela Sociedade das Escravas de Jesus. É uma obrazinha beata, escrita com um lirismo equívoco, quase torpe - que dá à oração a linguagem da luxúria: Jesus é invocado, reclamado com as sofreguidões balbuciantes de uma concupiscência alucinada: «Oh! Vem, amado do meu coração, corpo adorável, minha alma impaciente quer-te! Amo-te com paixão e desespero! Abrasa-me! Queima-me! Vem! Esmaga-me! Possui-me!» E um amor divino, ora grotesco pela intenção, ora obsceno pela materialidade, geme ruge, declama assim em cem páginas inflamadas onde as palavras gozo, delícia, delírio, êxtase, voltam a cada momento, com uma persistência histérica." (Obras Completas de Eça de Queiroz, vol.4, Círculo de Leitores, Lisboa, 1980, p.29).



(Felicien Rops - saint Marie Madeleine)



Não admira a preferência de Amaro por esses cânticos, pois eles traduzem, sem levantar suspeita, a linguagem do desejo libidinoso. Amaro conclui: "É beato e excitante" — precisamente, essa é também a conclusão de todo o romance. Este passo do romance contém, aliás, todos os termos da jouissance. "Concupiscência", ou apetite sexual ou desejo intenso de gozo, é o termo de Eça que corresponderá à jouissance. As palavras que Eça destaca — "gozo, delícia, delírio, êxtase" — são significantes da jouissance e determinam não só toda a dialética do desejo n'O Crime do Padre Amaro como pode ilustrar o léxico privilegiado do discurso amoroso da literatura erótica.


(Frans de Geetere)


O modernismo que inaugura o século XX teve nos seus poetas de vanguarda os melhores intérpretes do erotismo, bem representado no grito "Rezai à Luxúria." — exortação às gerações portuguesas do século XX pronunciado pelo pintor, desenhador, poeta, romancista, declamador, dramaturgo, ensaísta, conferencista e crítico de arte Almada Negreiros. Aquele grito de vanguarda pertence ao "Ultimatum" que escreveu para o número único do "Portugal Futurista", revista porta-voz do futurismo literário português publicada em Lisboa, em 1917.



(Frans de Geetere - desvão)



Ao texto de Almada seguia-se um «Manifesto Futurista da Luxúria» de Madame Valentine de Saint-Point. Aqui podemos ler as coordenadas da sexualidade da poesia de vanguarda de Almada Negreiros: “A Luxúria é a tentativa carnal do desconhecido (...) A arte e a guerra são as grandes manifestações da sensualidade; a luxúria é a sua flor. (...) A Luxúria estimula as energias e desencadeia as forças. É preciso ser consciente na Luxúria. É preciso dispor da Luxúria como um ser inteligente e raffiné dispõe de si próprio e da sua vida; é preciso fazer da Luxúria uma obra de arte.” (Portugal Futurista, edição facsimilada, Contexto, Lisboa, 1990).


(Franz von Bayros)



O inglês D. H. Lawrence (1885-1930) é o autor de um dos mais polémicos romances eróticos da primeira metade do século XX: Lady Chatterley’s Lover, escrito em 1928, publicado parcialmente em 1932, banido de imediato em Inglaterra, de novo publicado pela Peguin Books em 1959 e de novo proibido; só por decisão de um tribunal em 1960 o livro pôde circular livremente. O romance é a história de Constance Reid, uma mulher da nobreza, bela e sedutora, que se envolve sexualmente com um empregado da mansão em que vive, depois de o seu marido ter ficado inválido numa das frentes de batalha na Primeira Guerra Mundial.



(Frédérique Garcia)



Lawrence descreve com detalhes as relações sexuais de ambos, tentando glorificar a força do amor sensual que não pode obedecer às leis castas da sociedade, em termos que só podiam chocar a mentalidade puritana inglesa. O que fica bem ilustrado nesse romance, também estudado hoje como um texto anti-feminista, é o elogio do triunfo do falo.



(Gaston de Saint Croix)



Outro escritor que também ficou marcado como maldito por causa dos seus romances eróticos foi o americano Henry Miller (1891-1980), autor de obras tão divulgadas mundialmente como Tropic of Cancer (Trópico de Câncer, França, 1934; E.U.A., 1961), Tropic of Capricorn (Trópico de Capricórnio, França, 1939; E.U.A., 1961), Sexus, Plexus e Nexus (publicados como um todo em 1965). Miller, que escolheu Paris para viver e trabalhar na sua escrita, para onde traduziu as suas experiências pessoais com prostitutas francesas, glorificando a pornografia (recordemos que a etimologia grega desta palavra diz respeito à prostituição) como uma espécie de nova religião, o que levou a que os seus livros, censurados e proibidos em muitos países, constituíssem um fruto muito apetecido para a imaginação e curiosidade sexual de muitos adolescentes e adultos.



(Gaston de Saint Croix)



O filme de Philip Kaufman, Henry & June (1990), baseado nos diários (1914-1934) de uma escritora hoje referência obrigatória na literatura erótica, Anaïs Nin, retrataram o caso amoroso entre Henry Miller e a sua mulher June. Dentro do mesmo tipo de glorificação da pornografia, são de referência obrigatória Emmanuelle Arsan, autora de Emmanuelle (1959) e Dominique Aury que, sob o pseudónimo de Pauline Réage, publicou Histoire d’O (A História d’O, 1954). Obras de extremo erotismo, todas marcadas pelo escândalo, incluindo as suas adaptações cinematográficas, exploram os limites do amor carnal e a relação de poder entre os parceiros sexuais.



(Guido Crepax - Histoire d'O)



Outros escritores preferiram glorificar outras formas de realização da literatura erótica, como a pedofilia e o voyeurismo. Está, nesse caso, o escritor russo-americano Wladimir Nabokov, o célebre autor de Lolita (1955), onde se destaca o anti-herói Humbert Humbert. Nabokov reclama a paternidade do termo ninfeta, objecto sexual proibido, que o público associa hoje ao romance Lolita. Apesar de insistir na originalidade do termo, sabemos que o já citado poeta francês Ronsard, em Les Amours, utilizou essa expressão com sentido idêntico, sendo um dos lexemas clássicos da literatura erótica: “Amourette / Petite Nymphe folastre, / Nymphette que j'idolatre, / Ma mignonne dont les yeulx / Logent mon pis et mon mieux;” (CCXI, in http://www.bibliopolis.fr). O livro de Nabokov foi adaptado ao cinema por Stanley Kubrick em 1962.



(Serpieri - Druuna)



Em 1965, Natália Correia publicou, seleccionou, prefaciou e anotou uma importante Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica (3ª ed., 1999), que inclui autores como Martim Soares, Pero da Ponte, João Garcia de Guilhade, Gil Vicente, Luís de Camões, Fernando Pessoa, Gregório de Matos, Guerra Junqueiro, José Régio, Leonor de Almeida, Jorge de Sena, Ana Harthetly,  Maria Teresa Horta, Herberto Helder. A própria autora publica um poema seu, “Cosmocópula”: “Membro a pino / dia é macho / submarino / é entre coxas / teu mergulho / vício de ostras. // O corpo é praia a boca é a nascente / e é na vulva que a areia é mais sedenta / poro a poro vou sentindo o curso de água / da tua língua demasiada e lenta / dentes e unhas rebentam como pinhas / de carnívoras plantas te é meu ventre / abro-te as coxas e deixo-te crescer / duro e cheiroso como o aloendro.”



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