segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

O QUE É LITERATURA ERÓTICA? - III: BREVE HISTÓRIA DA LITERATURA ERÓTICA - 2




(Foto da internet, s/indicação de autoria)



DURANTE O ROMANTISMO



(Yngve Berg -  roemische elegien)



O romantismo alemão também nos legou obras como a colecção de poemas eróticos com que Goethe contribuiu para a revista dirigida por  Schiller, Die Horen, onde se incluem as Römische Elegien (Elegias Romanas, 1795), poemas inspirados na relação amorosa de Goethe com Christiane Vulpius.



(Autor não identificado)



Mas, neste século XVIII, poucos ganharam lugar de maior destaque na história da literatura erótica do que o exemplo do Marquês de Sade (1740-1814), escritor francês cuja obra foi amaldiçoada publicamente enquanto viveu. Os constantes atentados ao pudor, a prática quase selvagem de relações sexuais que não conheceram limites, e as ofensas à moral levaram-no à prisão várias vezes, onde escreveu a maior parte das suas obras, sob rigorosa censura. De salientar os romances Cent vingt journées de Sodome (Cento e Vinte Dias de Sodoma, 1782-1785) e Justine ou les malheurs de la vertue (Justine ou as Infelicidades da Virtude, 6 volumes, 1791-97).



(Autor não identificado)



Cento e Vinte Dias de Sodoma, obra de esgotamento criativo, onde Sade julgava ter alcançado o seu próprio limite, perdeu-se na Bastilha, onde tinha estado preso durante dois anos. As mais de 300 páginas do livro foram recuperadas mais tarde por um carcereiro, que as encontrou. Sade também soube descrever, com rigor filosófico, as suas próprias experiências sexuais, bizarras, agressivas, obscenas, pouco ortodoxas e sempre a roçar os limites do desejo libidinoso.



(Autor não identificado)



Tais práticas incluem a sodomia (sexo anal), a pedofilia e a macrofilia (sexo com crianças e velhos) e a coprofilia (sexo envolvendo fezes). À lista das suas reflexões teremos que juntar Le Philosophie dans le boudoir (1795). Esta personalidade fortemente inclinada para o excesso da vida sexual, com recurso a todo o tipo de perversão, fez com que o seu nome se consagrasse para designar um tipo de neurose ou pulsão agressiva a que os psiquiatras chamam sadismo.



(Christophe)



No lado oposto, o elogio do amor sensual pelo triunfo do poder único da sedução, temos ainda Les Liaisons dangereuses (1782), de Pierre Choderlos de Laclos. Como bem comenta um dos mais conhecidos teóricos do erotismo, Francesco Alberoni, “Há uma estreita ligação entre a raiz coletiva do erotismo feminino e a sedução como manipulação e intriga. Tudo o que é coletivo está inextricavelmente ligado ao poder e à luta pelo poder. Nas cortes, nas sociedades ariostocráticas como a França do século XVIII, a sedução era um potente meio de afirmação social, de prestígio, por último, de revolta.” (O Erotismo, 8ª ed., Bertrand, Venda Nova, 1995, p.229).




(Autor não identificado)




A procura do prazer pela dor não é um exclusivo do sadismo. O austríaco Leopold Franz Johann Ferdinand Maria Sacher-Masoch (1836-1895) ficou conhecido por um outro tipo de perversão sexual, o prazer obtido pela dor física e pelo sofrimento corporal, pulsão que foi  imortalizada com o nome de masoquismo. Masoch foi um aristocrata letrado, escritor de qualidade, tendo-nos legado histórias eróticas de indivíduos que só alcançavam o prazer sexual se fossem chicoteados. Por exemplo: Eine Galizische Geschichte (Uma História Galega, 1846); Der Don Juan von Kolomea (O Don Juan de Kolomea, 1866); Das Vermächtnis Kains (O Legado de Caim, 1870-1877), que inclui o famoso romance erótico Venus im Pelz (A Vênus das Peles, 1874).




(J. Hanriot et Mesplès - amoureuses)




Na França, o ano de 1857 é particularmente importante para a literatura erótica: Gustave Flaubert publica o romance Madame Bovary, imediatamente classificado como pornográfico, por tomar como tema as experiências de adultério de uma jovem provinciana casada com um viúvo medíocre, mas que há de marcar o ponto de partida da época de ouro do romance realista. 1857 é ainda o ano de Les Fleurs du mal, de Baudelaire, também acusado de imediato de imoralidade, pelo satanismo, pela preocupação com o macabro e com as perversões sexuais. Este livro de poemas tornar-se-ia no manifesto do decadentismo e persistirá nessa condição até ao século XX. 




(Mihaly Zichy - the-lovers)



Em Portugal, será Eça de Queirós quem interpretará de forma mais justa e à letra a tese naturalista com O Crime do Padre Amaro, onde concentrou a sua atenção na descrição dos ambientes sociais, particularmente nas deficiências e nas imperfeições da natureza humana, incapaz de ceder ao desejo carnal mais primitivo. Um outro tipo de erotismo pode ser encontrado na poesia de Cesário Verde, como exemplo de sublimação do amor sensual, sempre fingido ou sempre adiado.




(Paul Avril)



No primeiro volume da História da Sexualidade, A Vontade de Saber, Michel Foucault conclui na história do sentimento ocidental dois procedimentos fundamentais para a realização da verdade do sexo: por um lado, as numerosas sociedades (Roma, China, Índia, Japão, e sociedades arábico-muçulmanas) que desenvolveram uma ars erotica, que extraiu a verdade do prazer em si mesmo, se compreendido como uma prática, acumulável como experiência, onde não existe lugar para as proibições, e prazer medido na sua intensidade pelos reflexos que produz no corpo e no espírito. Há nesta arte erótica um segredo a perseverar, um conhecimento que perderá a sua essência se se divulgar, por isso exige a instituição de um mestre que detém esse segredo de vitalidade e só ele pode transmitir a sua arte, de forma esotérica.



(Ilustração para a obra Gamiani)



Pelo contrário, a civilização ocidental não possui qualquer ars erotica. É a única civilização a praticar uma scientia sexualis, isto é, a única civilização a desenvolver durante séculos as regras de procedimento que nos hão de garantir a verdade do sexo. Para isso, desenvolve-se o primado da confissão, em estreito contraste com a arte da iniciação e do segredo esotérico. Foucault acaba por declarar que o homem ocidental se tornou um animal confessor. A sexualidade é o resultado da prática discursiva dessa atividade confessional e constitui-se em scientia sexualis, que o cristianismo ocidental instituiu para produzir a verdade sobre o sexo.




(Paul Avril)


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