segunda-feira, 16 de novembro de 2015

SUTIÃ: SEIOS PRECISAM DE SUSTENTAÇÃO?



(Mulher de Mdagascar; foto de Daniel Bauer)


Símbolos poderosos da feminilidade, tanto pelo apelo sensual, como pela sua função nutriz, os seios sempre tiveram no centro de algumas polêmicas históricas. Livres em muitas culturas, de vez em quando surgem como ponto de discussão e polêmica, por variados motivos.


(Foto da internet s/indicação de autoria)

Desde que o ser humano passou a cobrir-se, por vários motivos, sempre se inventaram vestimentas para partes específicas do corpo: para os pés, para as mãos, para a cabeça, para o ventre. E os seios, por sua posição e diversidade, tiveram historicamente a preocupação das mulheres. Segundo Tales Pinto, Mestre em História, "desde a Antiguidade as mulheres utilizavam de algum tipo de indumentária para poder sustentar os seios, ao menos no mundo ocidental".




Há milênios, as mulheres vinham procurando uma matéria-prima para confeccionar algo que desafiasse a lei da gravidade e sustentasse os seios. Referências revelam que em 2000 a.C., na Ilha de Creta, elas usavam tiras de pano para modelá-los. Mais tarde, as gregas passaram a enrolá-los para que não balançassem. Já as romanas adotaram uma faixa para diminuí-los.






Nos finais da Idade Média, entre as mulheres da aristocracia, passou-se a utilizar o espartilho, peça de vestimenta muito justa no busto, utilizada também com um objetivo estético de realce dos seios. Porém, tal peça era extremamente desconfortável e asfixiante. O sutiã apareceu para libertar a mulher daquela ditadura.






A história do sutiã, a idumentária inventada para cobrir, proteger e sutentar os seios, está ligada à própria indústria têxtil. Uma das primeiras alterações do espartilho em direção ao que hoje conhecemos como sutiã foi realizada por Herminie Cadolle. Ela decidiu cortar em duas partes o tradicional espartilho, dando as primeiras configurações do que viria a ser o primeiro sutiã. Como uma mulher de negócios, Cadolle patenteou a invenção em 1889.





Em 1914, foi a vez de Mary Polly Jacob, uma jovem socialite nova-iorquina, patentear sua criação. Mary Jacob é considerada a inventora do sutiã, em decorrência de ter desenvolvido uma peça, em 1913, para utilizar com um vestido de festa. Mary Jacob utilizou algumas fitas e dois lenços para sustentar seus seios sob um vestido mais leve que os comumente utilizados. Apesar de patentear a invenção, não obteve sucesso nas tentativas de venda para empresas têxteis. Mary Jacob vendeu sua criação para a Warner Bros por pouco mais de 1500 dólares. A empresa faturou posteriormente mais de 15 milhões com o produto adquirido.






A partir daí o sutiã começou a ser popularizado em decorrência da produção em larga escala, da necessidade de um maior conforto para as mulheres em seus trabalhos e, também, em decorrência de avanços tecnológicos na produção dos tecidos.






Na década de 1920, Coco Channel influenciaria a produção de sutiãs que achatavam os bustos das mulheres. Na década seguinte os bojos de enchimento e estruturas metálicas seriam adotados para dar a impressão de seios mais fartos.






Com o desenvolvimento do náilon pela empresa estadunidense Dupont, o sutiã ganharia elasticidade e resistência a partir da década de 1950. Esse novo material possibilitou ainda a criação de peças que buscavam realçar a beleza do busto feminino.






O advento do movimento feminista na década de 1960 transformou o sutiã em um símbolo de superação do machismo, quando um grupo de mulheres queimou sutiãs nos EUA no final da década em protesto contra um concurso de miss.






A peça continua a ser produzida em massa e é largamente utilizada por mulheres do mundo todo. O desenvolvimento tecnológico capitalista em máquinas e materiais possibilita que, nos dias atuais, o sutiã possa adquirir formatos, cores e temas muito variados, acompanhando as necessidades criadas pelo mundo da moda.






E, agora, no Brasil, a famosa peça promete escrever mais um capítulo de sua história. Desta vez, praticamente como piada: o Deputado Gilmar Fernandes Quintanilha (DEM-RJ) apresentou à comissão de constituição e justiça da Câmara dos Deputados, em Brasília, um projeto que proíbe a comercialização e utilização do sutiã com bojo no Brasil.







Segundo o deputado, esse acessório promove o crime da propaganda enganosa, na medida em que sugere que o busto da mulher seja proeminente e rígido como parece na forma ajustada pelo sustentáculo íntimo da mulher.






Quintanilha afirma que “o jogo da sedução se dá numa relação de oferta e procura. As mulheres se valem de adereços desonestos para publicizar seus corpos e potencializar sua possibilidade de seduzir. Usar elementos que driblam a percepção plena do produto que o consumidor do atributo irá consumir é crime”.






É ainda mais enfático ao dizer que “é deveras frustrante para o homem ao desabotoar o sutiã e perceber o seio da sua desejada desabar abruptamente. Perdemos a excitação e somos abatidos pela frustração de termos sido enganados por este truque infame”.






Talvez devêssemos lamentar pelas possíveis frustrações do nobre deputado, diante de suas conquistas. Mas, como há tantos outros problemas mais importantes com que se preocupar, só nos resta mesmo é levar esse tipo de inciativa como uma brincadeira, uma brincadeira de mau gosto, que não deve prosperar, para que o ridículo da situação não ganhe o mundo e promova mais um festival de piadas sobre o nosso País e os membros - não muito eretos ou retos - de nosso Parlamento.







Em todo caso, registremos que, do ponto de vista legal, a publicidade enganosa é compreendida como aquela que mente sobre produtos ou serviços ou deixa de dar informações básicas ao consumidor, levando-o ao erro. Caso a comissão de constituição e justiça reconheça legalidade no projeto, ele deve ser votado ainda em novembro deste ano.






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