segunda-feira, 23 de novembro de 2015

O QUE É LITERATURA ERÓTICA? - II: BREVE HISTÓRIA DA LITERATURA ERÓTICA - 1







DOS GREGOS AO PERÍODO CLÁSSICO



(Grécia Antiga, Apollodoros)



Os primórdios da literatura mundial conhecem já variadíssimos exemplos de expressão literária do amor sensual. Aristófanes legou-nos Lisístrata (411 a.C.), uma das primeiras obras importantes do erotismo antigo, história de uma jovem que exorta as suas conterrâneas atenienses a uma greve de sexo para pôr fim à guerra do Peloponeso.



(Joachim Wtwael - Lot and his daughters)



Os textos bíblicos contêm inúmeros exemplos que facilmente entram na categoria de literatura erótica, como este passo de Isaías: 15 - "Naquele dia Tiro será posta em esquecimento por setenta anos, conforme os dias dum rei; mas depois de findos os setenta anos, sucederá a Tiro como se diz na canção da prostituta." 16 - "Toma a harpa, rodeia a cidade, ó prostituta, entregue ao esquecimento; toca bem, canta muitos cânticos, para que haja memória de ti." 17 - "No fim de setenta anos o Senhor visitará a Tiro, e ela tornará à sua ganância de prostituta, e fornicará com todos os reinos que há sobre a face da terra." 18 - "E será consagrado ao Senhor o seu comércio e a sua ganância de prostituta.” (Isaías, 23: 15-18). E muitos mais são os exemplos de trechos eróticos do Velho Testamenteo. Já aqui mesmo, nesta LUA, publicamos alguns trechos dos Cantares de Salomão, nos quais o erotismo é o mote principal da antiga sabedoria do rei famoso por seu senso de justiça.



(Arte erótica chinesa)



Durante o período Han, na China antiga, entre 206 e 220 a.C., circularam vários manuais didáticos sobre a prática sexual, segundo a fórmula literária do diálogo entre um Imperador e um dos seus perceptores ou professores de práticas sexuais. No século IV, na nossa era, surge, na Índia, o mais universal de todos os manuais sexuais, o Kama Sutra, ainda hoje lido e apreciado, escrito pelo letrado Vatsyayana para manter uma antiga tradição de escrita de sutras (textos religiosos para o grande público de fácil leitura e compreensão).




(Louis Justin Laurent Icart - Gargantua et Pantagruel)



A Idade Média conserva uma importante literatura satírica que inclui inúmeras espécies eróticas e pornográficas. Os poemas eróticos de Eustache Deschaws, o livro De amore, de Andreas Capfillanus, o Decâmeron de Boccaccio, os Canterbury Tales, de Geoffrey Chaucer, e, no espaço galego-português, as cantigas de escárnio e mal dizer, por exemplo, constituem alguns bons exemplos de uma literatura erótica que rompe com todas as regras do amor cortês. Esta herança medieval está bem vincada numa das mais ricas literaturas europeias, a francesa, que conhece nos século XVI obras-primas do género como Pantagruel (1532) e La Vie très Horrificque du Grand Gargantua (1534), de Rabelais, celebrações parodísticas de todos os excessos do amor sensual.




(Aristide Maillol - Livret de folastries)



Nesse mesmo contexto, um grupo de poetas franceses, conhecido por La Pléiade, onde se destacam Pierre de Ronsard e Joachim du Bellay, privilegiou a poesia amorosa de forte carácter libidinoso. Em 1553, Ronsard publicou Livret de folastries, mas será o seu livro de sonetos - Sonnets pour Hélène (1578) que o distinguirá, ficando na memória histórica a figura simbólica do amor serôdio e proibido de um velho que se apaixona por uma mulher muito mais nova, resumido no célebre verso: “Quand Vous Serez Bien Vieille, le Soir, à la Chandelle”, mais tarde parafraseado pelo poeta irlandês W. B. Yeats (“When You are Old and Grey and Full of Sleep”).




(Aldo Victorio Filho - Bocage)



A literatura erótica do século XVIII encontra no português Bocage um exemplo de como é possível não estabelecer limites ao grau de licenciosidade no texto literário. Na sua obra mais marginal, Poesias Eróticas, Burlescas e Satíricas (Marujo Editora, Lisboa, [2001]), no soneto “Lá quando em mim perder a humanidade”, podemos ler versos como estes que apresentam o Poeta como um sofredor de amor no mais alto grau de licenciosidade: “Lavre-me este epitáfio mão piedosa: // Aqui dorme Bocage, o putanheiro: / Passou a vida folgada, e milagrosa: / Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro." Pela mesma altura, o inglês John Cleland publica Fanny Hill: Memoirs of a Woman of Pleasure, publicado em dois volumes em 1748 e 1749, o que lhe valeu de imediato a prisão sob a acusação de ter publicado um livro pornográfico, ofensivo para os bons costumes.




(Fanny Hill, por Paul Emile Bécat)



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