segunda-feira, 2 de novembro de 2015

O QUE É LITERATURA ERÓTICA? - I



(Foto da internet, s/indicação de autoria)


Este blog, de vez em quando, publica textos eróticos de autores conhecidos ou não. Poemas, contos, trechos de romances etc. Alguns desses textos veem o sexo, a sensualidade, o amor carnal ou o que quer que se faça entre duas pessoas com o fim de obter prazer, com grande sensibilidade e sutileza, utilizando-se de metáforas e outros recursos para nos provocar os arrepios que uma literatura que se considere erótica deve provocar. E o termo "arrepios", aqui, deve ser considerado como um eufemismo para o tesão e o desejo.



(Foto da internet; s/indicação de autoria)


Outros textos, no entanto, arregaçam a intimidade de personagens fictícias ou verdadeiras, usam de termos e palavras sem nenhum constrangimento, descrevem o sexo com crueza e podem, ou não, provocar além dos arrepios referidos algum desconforto a mentes mais sensíveis. Está aí a diferença entre literatura erótica e literatura pornográfica? Nada disso. O escatológico, o verismo de descrições, a crueza do vocabulário não são índices que determinam o que é realmente pornográfico e o que é apenas erótico. E talvez essa diferenciação nem seja importante, nem seja possível.



(Foto da internet, s/indicação de autoria)



O mais importante é que se leia. Não apenas o erótico ou pornográfico, mas que se leia muito: história, filosofia, ficção, poesia, biografia, reportagens, crítica, bula de remédio... Só não vale ler autoajuda, que só ajuda quem escreve, publica e distribui e não é à toa, portanto, que se chama autoajuda (de ajudar a si mesmo).




(Foto da internet, s/indicação de autoria)


Mesmo correndo o risco de um certo academicismo e de aborrecer um pouco os nossos leitores e leitoras, vamos discutir um pouco esse assunto, em alguns posts, com base no "E-Dicionário de Termos Literários" (endereço no final). Comecemos com uma tentativa de definição e, como sempre, para quebrar qualquer sisudez do texto e, ao mesmo tempo, encantar e provocar um pouco os nossos leitores e as nossas leitoras, ilustramos o texto com fotos e imagens (de Berthomé Sant-André) que encontramos por aí, em nossas pesquisas em busca do velho e bom erotismo nosso de cada dia.



LITERATURA ERÓTICA



(Foto da internet, s/indicação de autoria)



Género literário que inclui toda a literatura licenciosa, dirigida para a libertação do desejo sexual ou do amor sensual, independentemente do grau de licenciosidade, o que levaria, como alguns entendem, a uma distinção entre literatura erótica (menos licenciosa) e literatura pornográfica (abertamente licenciosa). Esta distinção está longe de ser válida para toda a literatura que descreve experiências do desejo sexual e do amor explícito.






Se atendermos ao facto de que até ao final do século XIX, por força da moral estabelecida canonicamente, toda a literatura que ofendesse os bons costumes, excitasse claramente o apetite sexual ou cuja linguagem incluísse termos licenciosos ou obscenos era considerada “erótica”, com uma forte carga pejorativa, então não devemos ser nunca capazes de estabelecer um critério rigoroso para distinguir o que é erotismo do que é pornografia.






Por exemplo, uma busca na Internet sobre literatura erótica levar-nos-á hoje a toda a espécie de sítios de pornografia comercial, o que pode ajudar a compreender como é fácil confundir erotismo com pornografia. Por outro lado, a literatura erótica remete para as descrições estéticas do amor sensual, rejeitando a exclusividade da procura do prazer explícito que resulta da exibição pública ou privada desse amor.






O nível de representação do amor sensual tem servido também, com muitos riscos, para distinguir o erotismo (softcore, menos explícito, menos descritivo, menos visual) da pornografia (hardcore, mais explícita, mais descritiva, mais visual). Obviamente, encontraremos nas literaturas de todo o mundo inúmeros exemplos que podem contrariar esta distinção.






Uma outra distinção tem a ver com o tipo de censura que o erotismo (menos censurável) e a pornografia (mais censurável) podem veicular. Como esta distinção depende do tipo de formação cultural e moral de cada indivíduo, não vemos como pode funcionar como critério independente para avaliar as diferenças entre os dois tipos de representação literária do amor sensual.






Finalmente, as mais recentes tentativas da crítica feminista para distinguir entre uma arte menos opressora da figura da mulher enquanto objecto do desejo sexual (erotismo) e uma arte que repugna por reduzir a mulher a um mero objecto sexual, simbólico ou real (pornografia), encalham no facto de muitas representações literárias não separarem os papéis sexuais de forma tão clara, colocando até a figura masculina em funções pouco edificantes ou em posições de perda de poder.






Por estas razões, e porque a base de todo o desejo sexual é a relação amorosa (o elogio de eros) e não necessariamente a relação pornográfica (do grego porné, “cortesã, prostituta”, logo o elogio da prostituição), optamos por consagrar a entrada deste verbete a partir da designação mais universal de literatura erótica, ficando implícita a inclusão da literatura que se considere pornográfica, mas também obscena, indecente, libidinosa, licenciosa, ultrajante etc., adjectivos com os quais tem convivido sinonimamente.






Aceitemos que “a pornografia é o erotismo dos outros” (pensamento atribuído a Chris Marker) ou que estamos a falar de “duas palavras que designam as mesmas coisas como é evidente, conforme o olhar que incida sobre elas” (Jean-Jacques Pauvert, A Literatura Erótica, Teorema, Lisboa, 2001, p. 9). Prevalecendo a expressão literatura erótica, aceitemos ainda que ela representa uma conquista da literatura decadentista do século XIX, tendo até aí sido dominante a expressão literatura sotádica (do grego Sotadès, autor obsceno do séc.III, a.C.).





Fonte:

http://www.edtl.com.pt/business-directory/6836/literatura-erotica/



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