segunda-feira, 17 de agosto de 2015

INTIMIDADE ENTRE GAYS, OU: QUEM COME QUEM?






Existem muitos filmes pornôs gays. E já assisti a vários, claro. Comecei a ficar incomodado com alguns deles: aqueles que fixam o estereótipo da transa pela transa, repetindo o que acontece com filmes de casais heterossexuais. Há alguém que dá e alguém que come. Sem nenhuma preparação, sem nenhum tipo de carícia, sem nenhum sentimento. Apenas penetração. Coisa da indústria pornô que, nesse caso, mais faz mal do que bem ao erotismo.







É claro - e o óbvio nem sempre é assim tão óbvio para as pessoas - que, assim como entre um casal hétero, os casais homossexuais não vivem só para e pelo sexo. E mais: como todos os casais, têm momentos de ternura e carinho em que apenas se tocam e se beijam e se acariciam, porque se amam, se gostam, se respeitam.

Pensava nisso, quando encontrei o texto abaixo. Responde à curiosidade de muitos, de forma simples, direta, sem deixar margem ao preconceito que é, afinal, o inimigo a ser combatido, e batido. Reproduzo-o juntamente com fotos que, embora eróticas, enfatizam o lado romântico do erotismo entre o casal.


CASAL GAY, QUEM É A MULHER?

Fabrício Viana






Outro dia, durante um workshop de tecnologia, um senhor, sabendo do meu relacionamento com outro homem, perguntou, do nada e sem estarmos falando sobre o assunto, quem de nós dois cozinhava em casa. Na mesma hora, graças a minha formação em psicologia junguiana (que analisa especialmente símbolos), interpretei sua nem tão ingênua pergunta “fora do contexto”. Sua curiosidade não era exatamente esta, de saber quem cozinhava, mas sim, de saber quem de nós representava o papel feminino entre quatro paredes, ou melhor dizendo, ele queria saber, literalmente, “quem comia quem“.






Para este senhor, utilizando-se o mesmo símbolo interpretado, eu consegui sanar sua dúvida explicitando nossa intimidade. Disse que em casa ambos cozinhávamos, dependia do dia e da vontade de cada um, que entre nós isso não era problema. Talvez, com esta resposta eu tenha sanado sua dúvida subjetiva ou, na pior das hipóteses, criado outras. Mas como diz o ditado, para um bom entendedor, meia palavra basta.

O que chamo a atenção neste caso é que a dúvida dele, não é só dele, mas da maioria das pessoas.








Quando vemos um casal gay, nosso cérebro esta tão acostumado a ver um homem e uma mulher que, quando vemos dois homens juntos, imaginamos que um dos dois desempenhe o papel feminino em tudo, inclusive na cama (sendo passivo – sendo penetrado).

E isso nem sempre acontece. Claro que existem casais gays que, na cama, um dos dois prefere ser somente passivo e o outro apenas ativo (aquele que penetra). Outros, não existem preferências rígidas e tudo vai depender do prazer de cada um naquele momento. Sem falar nos casos em que a penetração nem acontece.







Mesmo assim, a curiosidade do que um casal gay faz na cama, até mesmo por outros gays, é absurdamente grande graças a sociedade machista no qual estamos inseridos. Aquele pensamento em que um homem, para ser homem, jamais poderá ser dominado (penetrado) por outro homem. Ser dominado é algo exclusivo das mulheres, pois elas, no pensamento machista, são inferiores e devem ser submissas ao homem. Um homem ser dominado por outro homem, sexualmente, é inadmissível.







Claro que a dinâmica psíquica do machismo é muito mais complexa que o breve relato acima. Por este motivo um dos capítulos do meu livro O ARMÁRIO é dedicado a este importante tema. Tendo acesso a ele, as pessoas, principalmente os homossexuais, podem ter uma ideia exata da onde vem o preconceito contra gays, contra os passivos, drag queens, transexuais, travestis e até mesmo contra as próprias mulheres, pois até elas, sofrem e reproduzem o pensamento machista.








Sem falar que, aliado ao machismo, encontramos diversas personalidades incompletas que precisam “cuidar” da “vida alheia” para que, de alguma forma, se sintam completas. É o que chamamos de fofoca ou “cuidar da vida dos outros”. E não são poucas pessoas que fazem isso.

Claro que eu gostaria que as coisas fossem diferentes. Que cada um pudesse beijar, transar, “meter”, “dar” ou “comer” do jeito que quisesse. Sem os outros se intrometerem tanto. Porém, não tem jeito, nossa sociedade é do jeito que é e não temos como mudar isso.








O que precisamos fazer, e isso é uma opinião minha, é estarmos muito bem resolvidos com a nossa sexualidade (poucos são bem resolvidos!) e com as nossas preferências sexuais (passivo, ativo, versátil etc) para que, se nos perguntarem sobre elas nós possamos, NATURALMENTE e SEM CONSTRANGIMENTOS, sanar todas as dúvidas. E, obviamente, sem achar que este tipo de pergunta “é o fim do mundo” ou uma invasão brusca da intimidade (lembre-se que os heterossexuais falam de suas intimidades sem nenhum tipo de constrangimento). Afinal, isso tudo é só sexualidade humana. Algo instintivo que possuímos e que não podemos negar, apenas compartilhar, de alguma forma.







Fabrício Viana é bacharel em Psicologia e autor do livro O Armário (sobre a homossexualidade, com mais de 4 mil exemplares vendidos), Ursos Perversos (contos homoeróticos), organizador da Coletânea LGBT não erótica chamada Orgias Literárias da Tribo e autor de Theus (romance homossexual). Seus livros não são vendidos em livrarias, apenas em seu site pessoal  www.fabricioviana.com ou no site da Editora Orgástica www.editoraorgastica.com




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