segunda-feira, 6 de julho de 2015

BOCETAS SÃO FEITAS PARA ENGANAR OS HOMENS...



(T. Mertens)


No post anterior, publiquei uma espécie de crítica, de análise, do livro A ENTREGA, de Toni Bentley. Claro que muitas pessoas devem ter ficado curiosas com o próprio texto da autora. Ou curiosos, como eu fiquei, com um livro, um romance, cujo escopo é defender o sexo anal. Com que estilo, com que palavras, por que motivo alguém preencheria páginas e páginas com apenas uma obsessão, com a obsessão anal?


(Stéphane Blanquet)


Bem, é preciso dizer que a moça escreve bem. Sua literatura, mesmo que você não concorde com o tema, tem força de expressão, ainda que traduzida. Isso você poderá comprovar com um pequeno trecho do livro, como brinde aos leitores desta Lua. Com vocês, Toni Bentley, ilustrada com as vênus calipígias de Serpieri, principalmente Druuna:





BOCETAS SÃO FEITAS PARA ENGANAR OS HOMENS
COM SEUS JATOS DE SUMO, SUA PRONTIDÃO PARA SE ABRIR
E SUAS DONAS IRRITADAS.






Aprendi tanto, talvez a coisa mais importante, ao dar o cu — aprendi a me render. Tudo o que aprendi com o outro buraco foi a me sentir usada e abandonada.

Minha boceta propõe a pergunta; meu cu responde. Dar o cu é o acontecimento no qual a máxima consagrada de Rainer Maria Rilke, de "viver a pergunta", é de fato finalmente incorporada. Penetração anal resolve o dilema de dualidade que é introduzido e exagerado pela penetração vaginal.




Dar o cu transcende todos os opostos, todos os conflitos — positivo e negativo, bom e ruim, alto e baixo, raso e profundo, prazer e dor, amor e morte — e os unifica, tornaos todos um só. Então isso, para mim, é O Ato. Dar a bunda é uma solução espiritual. Quem poderia ter adivinhado?



Se me pedissem para escolher pelo resto da minha vida um local para ser penetrada, escolheria o cu. Minha boceta foi muito machucada por falsas expectativas e entradas sem convite, por movimentos muito egoístas, muito superficiais, muito rápidos ou muito inconscientes. Meu cu, conhecendo
apenas ele, conhece apenas a bênção. A penetração é funda, muito funda; ela percorre a fronteira da sanidade. O caminho direto para Deus através de minhas entranhas tornouse claro, foi limpo.




Norman Mailer vê os caminhos sexuais ao contrário: "Então foi assim que eu finalmente fiz amor com ela, um minuto para um, um minuto para o outro, uma incursão ao Diabo e uma viagem de volta ao Senhor." Mas Mailer é um homem, um violador, um penetrador, não um recipiente, não um submisso. Ele não esteve, presumo, em minha posição de cedente.





Minha sensação de falta é tão enorme, tão escancarada, tão cavernosa, tão funda, tão grande, tão larga, tão velha e tão jovem, muito jovem, que apenas um grande pau queimando fundo no meu cu a preencheu. Ele é esse pau. O pau que me salvou. Ele é a minha resposta para todos os homens que vieram antes dele. Minha vingança.




Vejo o pau dele como um instrumento terapêutico. Certamente apenas Deus poderia ter pensado em tal cura para minha ferida sem fundo — a ferida da mulher cujo pai não a amava o suficiente. Talvez a ferida não seja realmente psicológica na origem, mas certamente o espaço lá dentro que sente falta de Deus o é. Talvez seja meramente a sensação de falta de uma mulher que acha que não pode têLo. Uma mulher cujo pai lhe disse muito tempo atrás que Deus não existe.

Mas eu quero Deus.




Dar o cu me enche de esperança. O desespero não tem nenhuma chance quando o pau dele está no meu cu, abrindo espaço para Deus. Ele abriu minha bunda e com aquela primeira estocada partiu minha negação a Deus, partiu minha vergonha e a expôs à luz. A sensação de falta não está mais escondida; agora ela tem nome. Esta é a história por trás de uma história de amor. Uma história por trás que é a história inteira. Uma história inteira por trás, para ser bastante precisa. Amor por dentro da minha bunda. Colette declarou que você não pode escrever sobre amor enquanto está sob sua emocionante influência, como se apenas a perda do amor ecoasse. Não há retrospecto para mim nesse grande amor, mas sim a vista dos fundos — glorificada por meu olho de trás. Este é um livro em que a parte da frente é breve e a parte de trás é tudo. Finalmente, minha parte de trás importa. Quando você dá o cu tanto quanto eu dei, as coisas tornamse rapidamente tão filosóficas quanto bobas. Meu cérebro foi chacoalhado junto com minhas entranhas.


(A. não identificado)



A entrega : Memórias eróticas / Toni Bentley, tradução de Maria Cláudia
Oliveira. — Rio de Janeiro : Objetiva, 2005

218 p. ISBN 85730271774


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