segunda-feira, 2 de março de 2015

UM POUCO DE LUZ - FILOSÓFICA - SOBRE A HOMOFOBIA




(Stefano Imbert)


Paulo Ghiraldelli é filósofo. À parte as polêmicas em que se mete, para defender suas ideias, ele é, acima de tudo, um ser que pensa. Por isso e para isso, é filósofo. O texto abaixo tenta explicar alguns aspectos da homofobia. No caso, quando o filho descobre que o pai é gay ou vice-versa. Você pode não concordar com ele, concordar parcialmente ou aceitar o que ele diz, mas o importante é buscar - ou, pelo menos, tentar - explicações. Para combater eficazmente a homofobia, o preconceito. Leia e reflita:


GAY SEM DOR OU O KAMA SUTRA É POUCO




(James Marino)


Ainda é necessário ao filho ser bem macho para se confessar gay ao pai. Mas também é necessário ser um pai bem macho para se revelar gay ao filho. Nos dois casos, quando as relações amorosas nascem às escondidas, a hora de saída do armário é um drama. Na verdade, ninguém sabe a reação do outro diante dessa notícia. Cada um de nós também sabe pouco a respeito de sua própria reação diante de uma novidade desse tipo.




(David Livingston)


Afinal de contas, em que lugar se localiza esse problema? A palavra preconceito explica tudo? Claro que não! Caso a questão fosse de preconceito, talvez as coisas já tivessem sido resolvidas. Trocar conceitos nem sempre é complicado.



(Jeff Miller)


O problema de se mostrar ou não homossexual, em especial o de se dizer “gay masculino”, não envolve uma relação direta com o que chamamos de conceito, envolve, sim, o que chamamos de imagem mental. Temos uma imagem sobre o que é uma relação sexual, e essa imagem, para a maioria de nós, envolve uma relação corporal de dominação. Alguém penetra. Alguém é penetrado. Associado a isso, um parceiro é dócil e se apresenta segundo o padrão dito “feminino”, enquanto que o outro é dominador e se apresenta segundo o padrão “masculino”. Não importa o quanto a relação entre os que se dizem heterossexuais não cumpra um padrão, a verdade é que há algo que se faz passar como padrão, e é algo antiquíssimo. Está entre nós desde quando nós ainda não éramos nós. Faz-se presente nos mamíferos. Ora, desde criança aprendemos que os adultos humanos fazem sexo mais ou menos como os animais, especialmente os mamíferos – professores acreditam que é mostrando os animais a melhor maneira de conversar sobre sexo com os menores.



(George Towne)


Imagens que nossa antropologia mostra serem antiquíssimas são reforçadas nas crianças pela pedagogia atual. Esta, por sua vez, acredita que a melhor maneira de falar do que não sabemos como falar é colocar as crianças diante da “vida natural”. Que as imagens da natureza falem por si. Afinal de contas, desde o romantismo do século XIX nos acostumamos a achar que tudo pode pecar, menos a natureza.



(Dewey Dorty)


Assim, o que ofende um pai é, não raro, ver o filho na condição de “mulher”. O que envergonha um filho é ver que o pai, um homem mais velho, age como uma “moça”. O que está na berlinda, portanto, não são homens e nem a questão de ser gay ou não, mas uma determinada imagem da fêmea. O que apavora é que o filho ou o pai gays sejam efeminados e, portanto, muito provavelmente, sujeitos à humilhação no ato sexual. Ou melhor, humilhação do ato sexual, uma vez que o sexo não seria outra coisa senão isso, a vitória de um macho sobre uma fêmea.


(Jon Michael Johnson)

Em outras palavras: o ato sexual é um coito. Ele torna alguém o coitado. Alguém é reduzido na sua capacidade de comando e iniciativa. Alguém que deveria comandar, ter iniciativa, vencer, submeter outros, ao se dizer gay, pode evocar nos que recebem a notícia uma imagem que não condiz com nenhum desses comportamentos. Como que alguém penetrado por detrás – essa é a imagem apavoradora – pode querer dar ordens? O penetrado por detrás está submetido às regras do outro, como numa luta. O penetrado por detrás está rendido. É subjugado. Não importa que queira falar grosso depois do coito. Não vale mais! Não raro, o homem tem essa imagem do sexo ativo como sendo de tal modo sedutor que ele imagina que a mulher, depois do gozo, especialmente se ele a colocou de quatro no ato sexual, jamais quererá outro homem. “Tolinhos” – dizem elas a quatro paredes.


(Ed Cervone, 1994)


Homens com imagens mais criativas e variadas a respeito do ato sexual, desse modo, tendem a sofrer menos o impacto da notícia sobre se o filho ou o pai é gay. Homens mais maduros, que já viram do que as mulheres são capazes, como elas podem se esquecer completamente da tal tão valorizada, até pouco tempo, “primeira vez”, tendem a sofrer menos o impacto da novidade a respeito de seus filhos ou pais. A recusa diante de um filho ou pai gay é, de certo modo, um sinal de imaturidade. Um sinal de uma não reflexão vivencial sobre as imagens.



(Ed Cervone)


É interessante notar esse detalhe. Encontramos homens que aparentemente já viram de tudo, mas que não conseguem ser chamados de “gay”, exatamente porque se imaginam na condição de penetrados por detrás e, junto disso, imaginam que o outro também está com tal imagem na cabeça. O que está em jogo é, então, a hombridade não como caráter, mas como força, como capacidade de continuar falando. Não se pode continuar falando uma vez “dominado pela penetração por detrás” – é essa a imagem que o homem falsamente maduro teme. Ele se ofende por ser chamado de “gay” à medida que essa palavra pode corresponder ao seu momento de derrota, de silêncio, de fim de algo que ele toma como uma luta greco-romana.



(Ed Cervone)


Caso os homens associassem o sexo ao gozo, tudo seria diferente. Mas os homens ainda associam as imagens de sexo ao inerte e não inerte. Tanto é que o vocabulário utilizado continua arcaico: “ativo” e “passivo”. Um pai passivo ou um filho passivo nos dão a imagem daqueles que não estarão submetidos só no sexo, mas durante toda a vida. A imagem do movimento e do repouso são quadros velhíssimos quanto ao que se associa à vida e à morte, respectivamente. Assim, o ativo vive a custa da morte do passivo. Há uma física dos corpos nisso tudo. Essa física constrói o imaginário da vitória e da derrota, do chefe e do comandado. Não acreditamos que se pode esperar muito dos que nasceram para serem comandados. Ora, ninguém gosta de pensar no pai como um banana ou no filho como um futuro derrotado, um vocacionado para a obediência, para se portar como capacho. É esse imaginário que pesa. Ele comanda as nossas avaliações. Não é o conceito. Ou seja, se há preconceito, este não é um conceito mal construído, mas um pré-conceito, algo que é simples imagem, não ainda um conceito falho ou falso.



(Ed Cervone, 2000)


Para construirmos uma sociedade menos envolvida com essas decepções todas que envolvem as “saídas do armário”, talvez tenhamos que lutar não para que possamos escrever e falar abertamente sobre o assunto, mas que possamos diminuir as censuras em relação às imagens. Precisamos nos acostumar a uma maior riqueza de imagens do ato sexual. Nosso imaginário sobre o ato sexual é que precisa mudar. Paralelamente, nosso vocabulário tem dar um salto para a situação de pós-conceito.



(Ed Cervone -  Moonlight,1986)


Precisamos diminuir nossa censura ao sexo. Não digo a censura oficial, mas nossa própria censura individual, que tem sido a causa de nossa imaginação restrita, pobre. Somos uma sociedade que já deveria ter percebido que até o Kama Sutra é pobre e não nos ajuda.



(Ed Cervone - Grapes,1986)


(Paulo Ghiraldelli, além de filósofo,  é escritor, cartunista e professor da UFRRJ).


Published on 09/08/2013 by Paulo Ghiraldelli

Nenhum comentário: