segunda-feira, 30 de março de 2015

MULHERES LIVRES E... POLÊMICAS - 1: MATA HARI



Mata Hari 

(1876-1917)





Nascida na Holanda, filha de um fabricante de chapéus de origem javanesa e de mãe holandesa, seu verdadeiro nome era Margaretha Geertruida Zelle. Aos 18 anos se casou com um capitão do exército holandês, introduzindo-se na alta sociedade de seu país e chamando a atenção de todos por sua beleza de traços indianos. Pouco tempo depois, o capitão foi convocado para servir em Java, território colonial da Holanda. Lá tiveram um casal de filhos, mas o casamento se degradou rapidamente. Para piorar, o filho primogênito morreu aos três anos, envenenado por uma serviçal da casa. MacLeod, seu marido, tratava-a com tal brutalidade que seus superiores o mandaram de volta à Holanda, onde logo o casal se separou, tendo o militar abandonado-a e levado a filha pequena. Sem recursos, Mata Hari teve de ir viver por algum tempo em casas de parentes. Até que em 1903 ela se mudou para Paris, iniciando, dois anos depois, uma carreira como dançarina profissional, aproveitando sua aparência e sua experiência no Oriente para criar coreografias que remetiam a um mundo de exotismo e sensualidade. Por essa ocasião adotou o nome de Mata Hari, que, segundo ela, significava “olho do dia” em língua malaia.






Alta, de largos quadris, cabelos muito pretos, olhos profundos e melancólicos, pele aveludada, seios fartos e mãos sedutoras, a dançarina executava seus números em roupas transparentes ou mesmo nua. Em pouco tempo, tornou-se um grande sucesso em Paris e outros grandes centros europeus, passando a freqüentar a alta sociedade e o círculo do poder. No mesmo ano em que se iniciou suas apresentações na França, um industrial abandonou mulher e filhos para cobri-la de presentes caros. Algum tempo depois, ele se arruinaria financeiramente e seria preso por insolvência.





Ao viajar à Alemanha com seus espetáculos, tornou-se amiga do príncipe herdeiro do trono e do chefe de polícia de Berlim. Ao retornar à França, os teatros a disputavam, oferecendo-lhe contratos bastante vantajosos. Mata Hari continuava a manter estreitas relações com o círculo de poder no país, especialmente entre os militares, entre os quais teve numerosos amantes.





Nesse momento, a Europa aproximava-se da Primeira Guerra Mundial, que colocaria em lados opostos a França e a Alemanha, países entre os quais ela tinha trânsito freqüente e que, com o desenrolar do conflito, tentaram aliciá-la para que atuasse como espiã, oferecendo-lhe somas milionárias, já que ela se relacionava estreitamente com figuras poderosas dos dois lados.






Até hoje não se sabe se Mata Hari serviu como espiã em favor de um lado ou de outro, se fazia jogo duplo ou mesmo se se recusou a prestar-se ao papel de fornecer informações de guerra estratégicas para um lado ou outro. No final de 1916, o serviço de inteligência britânico, aliado da França, interceptou uma mensagem do principal quartel-general alemão dizendo que determinado agente “H. 21” vinha lhes prestando excelentes serviços de espionagem. A informação foi transmitida aos franceses, que identificaram tal agente como sendo Mata Hari. Quando ela retornou a Paris, já no início de 1917, foi presa, acusada e processada. Durante as audiências, ela negou com veemência ter atuado como espiã a favor dos alemães. Mas ao final do processo, apesar de os acusadores não apresentarem nenhuma evidência concreta de seu envolvimento, ela foi considerada culpada pela morte de milhares de soldados aliados e sentenciada à morte por fuzilamento. Na manhã de 15 de outubro de 1917, ela foi executada por um pelotão na cidade de Vincennes. Circulam várias versões sobre seus momentos finais. Uma delas diz que, logo antes da detonação dos tiros que a mataram, Mata Hari teria jogado um beijo para seus executores. Outra diz que ela teria olhado para seu advogado e dito: “Merci, monsieur”. Outra ainda diz que a dançarina teria escancarado o roupão de condenada que lhe cobria o corpo, exibindo-se nua antes de receber a saraivada de balas.






Desde sua execução Mata Hari tornou-se uma figura muito popular, transformando-se no paradigma da mulher fatal, que tão longa carreira tem feito na literatura, no cinema, na música popular, nas telenovelas e no faits divers dos jornais diários. A mulher-devoradora-de-homens tem gerado enorme fascínio na arte e na cultura ocidentais.





Fontes:

Adriano de Paula Rabelo

Doutor em Literatura Brasileira, tem experiência em algumas áreas de ciências humanas, com ênfase em Letras. E-mail: aprabelo@hotmail.com.

segunda-feira, 16 de março de 2015

VOCÊ FICARIA NU, PARA ASSISTIR A UMA PEÇA DE TEATRO?






Espetáculos de teatro e de dança em que os atores e dançarinos se apresentem completamente nus não são novidade. Se provocaram escândalo, quando surgiram, hoje as plateias de quase todo o mundo já se habituaram à nudez. Mesmo que vejamos esses espetáculos como arte, não há dúvida de que ainda excitam nossa imaginação e, muitas vezes, nossa libido. Um espetáculo nudista não deixa de provocar nosso lado voyeur que, afinal, somos todos um pouco fetichistas nesse aspecto.




No entanto, surgiu em Santiago do Chile, nesse final de 2014, um espetáculo teatral que propõe uma via de mão dupla: os atores trabalham o tempo todo nus, mas a plateia também é obrigada a despir-se e deixar seus pertences na portaria do teatro. Justo, não? Muito justo.




“No Chile, a nudez é tabu, por isso este trabalho é um motivo para debater e discutir o assunto”, explica o diretor do show, Cristian Sanhueza. "Ao Natural" - título da peça -  é uma adaptação do dramaturgo venezuelano José Vicente Rojas Diaz. Conta a história de dois irmãos que, após um período de afastamento, estão reunidos para decidir o futuro de uma herança especial: um pousada para nudistas.



Quando ocorre um tipo de experiência assim, tão radical, há sempre um pouco de teoria, de filosofia, para justificar o fato: Sanhueza disse que, uma vez nu, os telespectadores abandonam a sua timidez e começam a falar uns com os outros. Acrescenta uma das atrizes, Celeste Fernandez: “Isso mostra que as pessoas estão ansiosas para ficar nuas”.




Não sei se as pessoas estão loucas para ficar peladas, mas há, sim, público para esse tipo de espetáculo, desde os indefectíveis voyeurs de sempre, até intelectuais mais avançadinhos e exibicionistas, sem contar aquela parte da  população, discreta em sociedade, mas, essa sim, louca para tirar as roupas,  adepta de práticas nudistas.




O que eu acho de mais positivo nesse tipo de proposta é que, se você está disposto a exibir-se em público como veio ao mundo, junto com dezenas de outras pessoas, não há dúvida de que irá passar por uma experiência bastante interessante e libertadora. Afinal, há corpos de todos os tipos e a nudez total é a única capaz de nos fazer compreender isso e fazer-nos aceitar como somos, assim como aceitar as imperfeições do outro.

Serviço:



Fontes:



http://osnaturistas.com/noticias/companhia-de-teatro-chilena-apresenta-espetaculo-com-os-atores-e-plateia-totalmente-nuas/




segunda-feira, 9 de março de 2015

A INCRÍVEL HISTÓRIA DE BUCK ANGEL





"Excelente o documentário "Mr. Angel", sobre a surpreendente história de vida de Buck Angel - o filme está disponível no Netflix. Para quem não o conhece, Buck é esse sujeito da foto: um homem na faixa dos quarenta anos, musculoso e com várias tatuagens no corpo. Enfim, um típico "macho alfa". Buck trabalha como ator pornô nos Estados Unidos e mora com sua esposa e seus inúmeros cachorros no México. 




Mas o que faz de Buck um sujeito realmente único é que ele, diferentemente da maioria dos homens, não possui um pênis. Na verdade, ele possui uma vagina. Sim, é isso mesmo: Buck é um homem com uma vagina. Nascido e criado como menina, Buck nunca se encaixou no que esperavam de seu gênero original. Preferia brincadeiras e roupas masculinas mas sempre foi reprimido por sua família, especialmente por seu pai. No final da adolescência tornou-se modelo mas ainda não aceitava a identidade feminina e por isso se punia de inúmeras formas (se cortava, bebia demais e usava drogas ilícitas, inclusive crack, etc) e tentou se matar algumas vezes. No inicio da vida adulta começou a se aceitar como homem e fez a sua primeira cirurgia, de remoção dos seios, começando também a tomar testosterona com o objetivo de masculinizar-se.




Mas nunca quis fazer a cirurgia de transgenitalização (vulgarmente conhecida como cirurgia de mudança de sexo) tanto por gostar de sua vagina quanto por entender que o pênis que seria construído com fragmentos de outras partes de seu corpo nunca seria plenamente funcional como o da maioria dos homens. Seria mais esteticamente um pênis do que funcionalmente um pênis. Em função disso, optou por manter sua vagina, masculinizando-se de outras maneiras. A vida e o corpo de Buck nos permitem questionar de uma forma bastante profunda o que nos torna homens e mulheres. Será que é o fato de possuir um pênis que nos torna homens? Será possível ser homem sem um pênis? Buck nos mostra e nos prova que sim.




Em uma cena do documentário é exibido um trecho não-explícito de um filme de Buck no qual ele faz sexo com uma mulher trans não-operada, ou seja, uma mulher com um pênis. O que temos então é, de certa forma, um sexo heterossexual: um homem faz sexo com uma mulher - a única mas não insignificante diferença é que, nesse caso, o homem possui uma vagina e a mulher um pênis. Ficou confuso? Talvez seja realmente confuso - e mesmo perturbador - para quem se habituou a pensar que todos os homens, para serem homens devem necessariamente possuir um pênis - e mulheres, para serem mulheres, uma vagina. Mas pessoas como Buck deixam claro que não é a genética nem o fato de se possuir um pênis ou uma vagina que determinam a identidade de gênero de uma pessoa. É sua forma de ser e estar no mundo que são determinantes. Buck, quer se aceite ou não, é um homem. Com uma vagina."




Fonte:



segunda-feira, 2 de março de 2015

UM POUCO DE LUZ - FILOSÓFICA - SOBRE A HOMOFOBIA




(Stefano Imbert)


Paulo Ghiraldelli é filósofo. À parte as polêmicas em que se mete, para defender suas ideias, ele é, acima de tudo, um ser que pensa. Por isso e para isso, é filósofo. O texto abaixo tenta explicar alguns aspectos da homofobia. No caso, quando o filho descobre que o pai é gay ou vice-versa. Você pode não concordar com ele, concordar parcialmente ou aceitar o que ele diz, mas o importante é buscar - ou, pelo menos, tentar - explicações. Para combater eficazmente a homofobia, o preconceito. Leia e reflita:


GAY SEM DOR OU O KAMA SUTRA É POUCO




(James Marino)


Ainda é necessário ao filho ser bem macho para se confessar gay ao pai. Mas também é necessário ser um pai bem macho para se revelar gay ao filho. Nos dois casos, quando as relações amorosas nascem às escondidas, a hora de saída do armário é um drama. Na verdade, ninguém sabe a reação do outro diante dessa notícia. Cada um de nós também sabe pouco a respeito de sua própria reação diante de uma novidade desse tipo.




(David Livingston)


Afinal de contas, em que lugar se localiza esse problema? A palavra preconceito explica tudo? Claro que não! Caso a questão fosse de preconceito, talvez as coisas já tivessem sido resolvidas. Trocar conceitos nem sempre é complicado.



(Jeff Miller)


O problema de se mostrar ou não homossexual, em especial o de se dizer “gay masculino”, não envolve uma relação direta com o que chamamos de conceito, envolve, sim, o que chamamos de imagem mental. Temos uma imagem sobre o que é uma relação sexual, e essa imagem, para a maioria de nós, envolve uma relação corporal de dominação. Alguém penetra. Alguém é penetrado. Associado a isso, um parceiro é dócil e se apresenta segundo o padrão dito “feminino”, enquanto que o outro é dominador e se apresenta segundo o padrão “masculino”. Não importa o quanto a relação entre os que se dizem heterossexuais não cumpra um padrão, a verdade é que há algo que se faz passar como padrão, e é algo antiquíssimo. Está entre nós desde quando nós ainda não éramos nós. Faz-se presente nos mamíferos. Ora, desde criança aprendemos que os adultos humanos fazem sexo mais ou menos como os animais, especialmente os mamíferos – professores acreditam que é mostrando os animais a melhor maneira de conversar sobre sexo com os menores.



(George Towne)


Imagens que nossa antropologia mostra serem antiquíssimas são reforçadas nas crianças pela pedagogia atual. Esta, por sua vez, acredita que a melhor maneira de falar do que não sabemos como falar é colocar as crianças diante da “vida natural”. Que as imagens da natureza falem por si. Afinal de contas, desde o romantismo do século XIX nos acostumamos a achar que tudo pode pecar, menos a natureza.



(Dewey Dorty)


Assim, o que ofende um pai é, não raro, ver o filho na condição de “mulher”. O que envergonha um filho é ver que o pai, um homem mais velho, age como uma “moça”. O que está na berlinda, portanto, não são homens e nem a questão de ser gay ou não, mas uma determinada imagem da fêmea. O que apavora é que o filho ou o pai gays sejam efeminados e, portanto, muito provavelmente, sujeitos à humilhação no ato sexual. Ou melhor, humilhação do ato sexual, uma vez que o sexo não seria outra coisa senão isso, a vitória de um macho sobre uma fêmea.


(Jon Michael Johnson)

Em outras palavras: o ato sexual é um coito. Ele torna alguém o coitado. Alguém é reduzido na sua capacidade de comando e iniciativa. Alguém que deveria comandar, ter iniciativa, vencer, submeter outros, ao se dizer gay, pode evocar nos que recebem a notícia uma imagem que não condiz com nenhum desses comportamentos. Como que alguém penetrado por detrás – essa é a imagem apavoradora – pode querer dar ordens? O penetrado por detrás está submetido às regras do outro, como numa luta. O penetrado por detrás está rendido. É subjugado. Não importa que queira falar grosso depois do coito. Não vale mais! Não raro, o homem tem essa imagem do sexo ativo como sendo de tal modo sedutor que ele imagina que a mulher, depois do gozo, especialmente se ele a colocou de quatro no ato sexual, jamais quererá outro homem. “Tolinhos” – dizem elas a quatro paredes.


(Ed Cervone, 1994)


Homens com imagens mais criativas e variadas a respeito do ato sexual, desse modo, tendem a sofrer menos o impacto da notícia sobre se o filho ou o pai é gay. Homens mais maduros, que já viram do que as mulheres são capazes, como elas podem se esquecer completamente da tal tão valorizada, até pouco tempo, “primeira vez”, tendem a sofrer menos o impacto da novidade a respeito de seus filhos ou pais. A recusa diante de um filho ou pai gay é, de certo modo, um sinal de imaturidade. Um sinal de uma não reflexão vivencial sobre as imagens.



(Ed Cervone)


É interessante notar esse detalhe. Encontramos homens que aparentemente já viram de tudo, mas que não conseguem ser chamados de “gay”, exatamente porque se imaginam na condição de penetrados por detrás e, junto disso, imaginam que o outro também está com tal imagem na cabeça. O que está em jogo é, então, a hombridade não como caráter, mas como força, como capacidade de continuar falando. Não se pode continuar falando uma vez “dominado pela penetração por detrás” – é essa a imagem que o homem falsamente maduro teme. Ele se ofende por ser chamado de “gay” à medida que essa palavra pode corresponder ao seu momento de derrota, de silêncio, de fim de algo que ele toma como uma luta greco-romana.



(Ed Cervone)


Caso os homens associassem o sexo ao gozo, tudo seria diferente. Mas os homens ainda associam as imagens de sexo ao inerte e não inerte. Tanto é que o vocabulário utilizado continua arcaico: “ativo” e “passivo”. Um pai passivo ou um filho passivo nos dão a imagem daqueles que não estarão submetidos só no sexo, mas durante toda a vida. A imagem do movimento e do repouso são quadros velhíssimos quanto ao que se associa à vida e à morte, respectivamente. Assim, o ativo vive a custa da morte do passivo. Há uma física dos corpos nisso tudo. Essa física constrói o imaginário da vitória e da derrota, do chefe e do comandado. Não acreditamos que se pode esperar muito dos que nasceram para serem comandados. Ora, ninguém gosta de pensar no pai como um banana ou no filho como um futuro derrotado, um vocacionado para a obediência, para se portar como capacho. É esse imaginário que pesa. Ele comanda as nossas avaliações. Não é o conceito. Ou seja, se há preconceito, este não é um conceito mal construído, mas um pré-conceito, algo que é simples imagem, não ainda um conceito falho ou falso.



(Ed Cervone, 2000)


Para construirmos uma sociedade menos envolvida com essas decepções todas que envolvem as “saídas do armário”, talvez tenhamos que lutar não para que possamos escrever e falar abertamente sobre o assunto, mas que possamos diminuir as censuras em relação às imagens. Precisamos nos acostumar a uma maior riqueza de imagens do ato sexual. Nosso imaginário sobre o ato sexual é que precisa mudar. Paralelamente, nosso vocabulário tem dar um salto para a situação de pós-conceito.



(Ed Cervone -  Moonlight,1986)


Precisamos diminuir nossa censura ao sexo. Não digo a censura oficial, mas nossa própria censura individual, que tem sido a causa de nossa imaginação restrita, pobre. Somos uma sociedade que já deveria ter percebido que até o Kama Sutra é pobre e não nos ajuda.



(Ed Cervone - Grapes,1986)


(Paulo Ghiraldelli, além de filósofo,  é escritor, cartunista e professor da UFRRJ).


Published on 09/08/2013 by Paulo Ghiraldelli