segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

E O MUNDO LÉSBICO ENTROU PARA A LITERATURA BRASILEIRA...



(A. não identificado)



Laura Bacellar é editora de livros, atualmente responsável, juntamente com um grupo de mulheres, pela primeira editora lésbica do Brasil. Fico com essa brevíssima apresentação para ir direto ao que interessa: seu artigo sobre a primeira vez em que um autor brasileiro escreve sobre lesbianismo. Com vocês:


A PRIMEIRA CENA LÉSBICA DA LITERATURA BRASILEIRA


Por Laura Bacellar



(A. não identificado)



Precisei reler outro dia O cortiço, de Aluísio Azevedo, para um trabalho de edição didática. Já tinha sido obrigada a encarar este clássico lá no milênio passado, ele é inevitável para estudantes na boca do vestibular, e lembro de ter ficado muito decepcionada com a personagem lésbica. Para quem não recorda, Léonie, uma prostituta elegante, seduz uma mocinha inocente, Pombinha, que se corrompe por conta desse contato. Mais tarde, em vez de permanecer honesta e casada, ela prefere cair na vida e também se tornar prostituta.



(A. não identificado)



Aos meus olhos adolescentes pareceu sem graça e pouco romântico. Depois da cena de sexo entre as duas, Pombinha se envolve com homens.

Agora prestei mais atenção ao autor e minha opinião sobre o texto mudou um pouco. Primeiro, é bom lembrar que esse livro foi publicado em 1890, no meio daquele mar de baboseiras românticas – que me desculpem as apreciadoras de José de Alencar, mas eu nunca suportei a virgem de lábios de mel... – e textos moralizantes para todo lado. Tinha gente que ainda defendia, com toda pompa e circunstância, a escravidão, deuses do céu! Aluísio Azevedo, fiquei feliz em saber, sempre foi abolicionista convicto.



(Toni D'agostinho)



Mas o moço foi outras coisas mais. Como bom ariano, lançava-se sem temor em aventuras. Foi ele o iniciador do movimento Naturalista em nossas letras com um romance falando justamente dos preconceitos raciais, O mulato. Não teve medo de criticar a hipocrisia da Igreja num jornal que ele mesmo fundou, "O Pensador", quando tinha só 23 anos. Irritou tanto os padres locais que foi obrigado a mudar-se de São Luís para o Rio de Janeiro...





Filho de uma mãe separada unida a um viúvo – total escândalo para a época –, Aluísio nutria um delicioso desprezo pelas instituições burguesas, em especial o casamento. Nessa leitura mais adulta captei a descrição bem pouco elogiosa do casamento da tal moça que cai na vida. Veja só se ela não achava o marido um chato:



(Otto Mueller)


Pobre Pombinha! no fim dos seus primeiros dois anos de casada já não podia suportar o marido; todavia, a princípio, para conservar-se mulher honesta, tentou perdoar-lhe a falta de espírito, os gostos rasos e a sua risonha e fatigante palermice de homem sem ideal; ouviu-lhe, resignada, as confidências banais nas horas íntimas do matrimônio; atendeu-o nas suas exigências mesquinhas de ciumento que chora; tratou-o com toda a solicitude, quando ele esteve a decidir com uma pneumonite aguda; procurou afinar em tudo com o pobre rapaz: não lhe falou nunca em coisas que cheirassem a luxo, a arte, a estética, a originalidade; escondeu a sua mal-educada e natural intuição pelo que é grande, ou belo, ou arrojado, e fingiu ligar interesse ao que ele fazia, ao que ele dizia, ao que ele ganhava, ao que ele pensava e ao que ele conseguia com paciência na sua vida estreita de negociante rotineiro; mas, de repente, zás! faltou-lhe o equilíbrio e a mísera escorregou, caindo nos braços de um boêmio de talento, libertino e poeta, jogador e capoeira.


(Paul Émile Bécat)



O autor colocou a culpa no contato anterior com Léonie, que despertou em Pombinha “íntimos vexames”, mas deixa claro o que ele achava de casamentos arranjados...

(Aluisio Azevedo por Robson Vilalba)


Aluísio foi hetero, pelo que eu saiba, já que se uniu à argentina Pastora Luquez (mas não se casou!) e adotou seus dois filhos. Porém teve coragem de falar de sexo em geral e da homossexualidade em particular sem subterfúgios e, mais espantoso ainda, sem julgamento. Apresentou uma personagem que tem desejo sexual por outra mulher e faz algo a respeito. Descreveu uma cena de cama que acaba em gozo para as duas!



(A. não identificado)


(Permanece minha teoria de que a forma com que faz esse relato é masculina, uma mulher teria dito de modo bem mais sensível, portanto a meu ver não é literatura lésbica. Mas é interessante e corajosa.) Por conta disso, acho que o trecho da sedução da mocinha merece uma relida, veja se você não concorda comigo (ilustrações de Franz von Bayros - nota da Lua Quebrada):






Bem! Agora estavam perfeitamente a sós!
– Vem cá, minha flor!... disse-lhe, puxando-a contra si e deixando-se cair sobre um divã. Sabes? Eu te quero cada vez mais!... Estou louca por ti!
E devorava-a de beijos violentos, repetidos, quentes, que sufocavam a menina, enchendo-a de espanto e de um instintivo temor, cuja origem a pobrezinha, na sua simplicidade, não podia saber qual era.






A cocote percebeu o seu enleio e ergueu-se, sem largar-lhe a mão.
– Descansemos nós também um pouco... propôs, arrastando-a para a alcova.
Pombinha assentou-se, constrangida, no rebordo da cama e, toda perplexa, com vontade de afastar-se, mas sem ânimo de protestar, por acanhamento, tentou reatar o fio da conversa, que elas sustentavam um pouco antes, à mesa, em presença de Dona Isabel. Léonie fingia prestar-lhe atenção e nada mais fazia do que afagar-lhe a cintura, as coxas e o colo. Depois, como que distraidamente, começou a desabotoar-lhe o corpinho do vestido.





– Não! Para quê!... Não quero despir-me...
– Mas faz tanto calor... Põe-te a gosto...
– Estou bem assim. Não quero!
– Que tolice a tua...! Não vês que sou mulher, tolinha?... De que tens medo?... Olha! Vou dar exemplo!
E, num relance, desfez-se da roupa, e prosseguiu na campanha.
A menina, vendo-se descomposta, cruzou os braços sobre o seio, vermelha de pudor.





– Deixa! segredou-lhe a outra, com os olhos envesgados, a pupila trêmula.
E, apesar dos protestos, das súplicas e até das lágrimas da infeliz, arrancou-lhe a última vestimenta, e precipitou-se contra ela, a beijar-lhe todo o corpo, a empolgar-lhe com os lábios o róseo bico do peito.
– Oh! Oh! Deixa disso! Deixa disso! reclamava Pombinha estorcendo-se em cócegas, e deixando ver preciosidades de nudez fresca e virginal, que enlouqueciam a prostituta.
– Que mal faz?... Estamos brincando...
– Não! Não! balbuciou a vítima, repelindo-a.



– Sim! Sim! insistiu Léonie, fechando-a entre os braços, como entre duas colunas; e pondo em contato com o dela todo o seu corpo nu.
Pombinha arfava, relutando; mas o atrito daquelas duas grossas pomas
irrequietas sobre seu mesquinho peito de donzela impúbere e o rogar vertiginoso daqueles cabelos ásperos e crespos nas estações mais sensitivas da sua feminilidade, acabaram por foguear-lhe a pólvora do sangue, desertando-lhe a razão ao rebate dos sentidos.





Agora, espolinhava-se toda, cerrando os dentes, fremindo-lhe a carne em crispações de espasmo; ao passo que a outra, por cima, doida de luxúria, irracional, feroz, revoluteava, em corcovos de égua, bufando e relinchando.
E metia-lhe a língua tesa pela boca e pelas orelhas, e esmagava-lhe os olhos debaixo dos seus beijos lubrificados de espuma, e mordia-lhe o lóbulo dos ombros, e agarrava-lhe convulsivamente o cabelo, como se quisesse arrancá-lo aos punhados. Até que, com um assomo mais forte, devorou-a num abraço de todo o corpo, ganindo ligeiros gritos, secos, curtos, muito agudos, e afinal desabou para o lado, exânime, inerte, os membros atirados num abandono de bêbedo, soltando de instante a instante um soluço estrangulado.







Fontes:

 www.editoramalagueta.com.br. 


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