segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

AS "NOVAS" SEXUALIDADES - TRANSSEXUALIDADE: FONTE DE ESPECULAÇÕES, SOFRIMENTOS E PRECONCEITOS.



(A. não identificado)


Se o ser humano se divide entre machos e fêmeas, a sexualidade humana é múltipla e complexa. A tal ponto que, às vezes, coloca em cheque até mesmo essa divisão baseada na biologia. Será que somos apenas machos e fêmeas?

Temos tratado, aqui, de erotismo. Ou, mais precisamente, de sexualidade. Da confusa e enredada sexualidade dos seres humanos. E a transsexualidade é um desses enredos que nunca terminam, porque, como coloquei no título da matéria, é fonte de especulações, de sofrimentos e... preconceitos. Acho que somente o conhecimento pode ajudar a acabar com os preconceitos, já que especulações e sofrimentos são inerentes à própria humanidade.


(Jean Cocteau)


Trago, hoje, um depoimento colhido no Facebook e editado por mim, sem prejuízo do conteúdo - um pouco extenso, mas não quis cortar nada que pudesse prejudicar o texto, já que o autor balança entre razão e emoção, para narrar sua experiência de vida, uma profunda experiência.

As ilustrações servem apenas como "quebra" da sisudez do texto, de respiro ao longo de uma leitura que pode ser difícil para alguns, profunda para outros, tocante para muitos, mas sempre de vital interesse a todos que, humanos, se interessam pelas causas humanas.

Com vocês, Fernando Dantas Vieira:


(Claire Milbrath )


O MEU DEVIR TRANS:
O TOTALITARISMO DA NORMA
E OS PRIMEIROS PASSOS INTERNOS



Hannah Arendt, em seu livro " As Origens do Totalitarismo" fez a seguinte afirmação: " o totalitarismo se baseia na solidão, na experiência de não pertencer ao mundo, que é uma das mais radicais e desesperadoras experiências que o ser humano pode ter". Ela falava sobre os Judeus e, principalmente, sobre o regime totalitário nazista na Alemanha e sua maneira de destruir nos judeus o sentimento de pertencer à  humanidade. Arrisco-me, a partir da análise de um regime político, compará-lo a um regime igualmente redutor da humanidade do outro, que é a cis-heteronormatividade.


(Claire Milbrath)


Se mantivermos o pensamento de Arendt, perceberemos, por exemplo, que não há no totalitarismo uma " causa em específico" que conduza a um efeito exato (como em uma soma de matemática). Há, na verdade, um processo de "cristalização" do totalitarismo, que se funda, do levante das subjetividades das massas (interpretação minha).  Não seria totalitário apenas o Estado, mas seria ele a cristalização de certo desejo de segurança que está no âmago das individualidades e subjetividades, que se cristaliza, se enrijece, emerge como um regime totalitário que, para existir, deve, necessariamente, elencar um inimigo, um " outro" a ser combatido, e reduzi-lo à condição de abjeção.


(A. não identificado)


Eu não sabia o significado de " abjeção" e apenas recentemente descobri que é a condição daquilo que é abjeto, inumano, monstruoso. Percebi que a abjeção é, em nosso sistema e sociedade, distribuída a grupos de pessoas em específico, como nos contou Michel Foucault em " A história da Loucura na Idade Média", quando a condição de inumanidade foi dada aos loucos, que deveriam ser apartados, contidos, supliciados e, posteriormente, disciplinados. Porque estes "loucos" eram abjetos? Porque fugiam à " normalidade", ao padrão de comportamento esperado deles. No século XIX, a abjeção era distribuída aos " vagabundos", degenerados, homossexuais, às mulheres frígidas, às mulheres "independentes", ou seja, a todas as pessoas que fugiam do que era esperado para elas, tanto do ponto de vista social, quanto do comportamento sexual, emocional, e de gênero.


(Martin van Maele)


Aquele "outro" do totalitarismo, que precisa ser transformado em abjeção, é o "outro" que foge à norma. Obviamente, é preciso compreender a norma como um padrão social, ético, moral e comportamental socialmente construído, e, historicamente considerado como " natural". Por exemplo, a publicidade alemã naturalizou a inferioridade judia, através da reprodução de certo discurso clínico perverso. Associando àquelas pessoas a uma infinidade de males. Havia, naquele momento, uma maneira específica de produção da abjeção. Ela se produzia pelo discurso nítido, pela força, pela " bota do soldado contra nossa face", como diria George Orwelll.



(A. não identificado)



E hoje? Quem são as abjeções? Quais são as identidades que recebem, a torto e a direito, o rótulo de abjeto e inumano?

(Apollonia Saintclair)


Poderia aqui listar dezenas dessas identidades abjetas, drogadictos, prostitutas, "loucos", pobres, marginais. Entretanto, meu texto se centra, naqueles que são rotulados como abjeção pela cis-heteronorma, ou seja, o sistema que determina, arbitrariamente o gênero em relação ao genital, e que pressupõe a sexualidade do ser humano, antes que este possa manifestar seus desejos, suas vontades, suas preferências, sua orientação sexual. Deste modo, todo aqueles que fogem a esta " norma" são, em maior ou menor grau, objetos de abjeção. O homem homossexual é menos homem e menos humano quanto mais feminino for.


(Édouard-Henri Avril)


E este sou eu.

Durante muito tempo me entendi como homem gay cisgênero, ou seja, um homem homossexual que, apesar da minha orientação sexual, continuava a me identificar como homem. Sempre soube que eu não era exatamente como os outros homens gays. Eu tinha preferência por tudo o que fosse feminino. Meu corpo parecia um fardo a ser carregado. Meu pênis, eu o sentia como um excesso, algo que não me serviu e não me serviria para nada. Em minhas fantasias no banheiro, eu me imaginava mulher. Me imaginava como fada, como bruxa, como uma deusa a lutar com inimigos imaginários.


(Egon Schiele)

Entretanto, aos poucos, a " realidade" da norma nos chama a atenção, seja pela voz do pai, seja pela insinuação da amiga da mãe. Ela sempre nos diz "olha, não é bem assim", ou " este menino está com algum problema". Percebi que não era possível tornar-me mulher. Continuei a sê-lo em minhas fantasias, que passaram de " fantasias mágicas, para fantasias de ser uma mulher rica". Permiti, por muito tempo, que minhas fantasias fossem tomadas por imagens normativas do " ser mulher", e do " ser rica".


(Egon Schiele)


O tempo é sempre implacável em nos arremessar contra o muro da realidade normativa, sobretudo quando chega a adolescência. Eu via corpos desejáveis desenvolverem-se em volta de mim: uns eram os corpos das meninas, que me causavam inveja, suprema inveja; os outros eram os corpos dos meninos, que me despertavam desejo. Mas nenhum dos corpos era como eu. Eu estava fora da norma. Já pressentia que minha vida seria marcada por preconceitos e dilemas, e a escola me mostrou isso com inefável clareza.

(EKO)


Percebi que havia algo que me impunha a solidão. Que me impunha, como diria Hannah Arendt, o terrível sentimento de não pertencer ao mundo, porque o mundo, eu o concebia como aquela atmosfera, plenamente normativa, onde aprendi as diferenças do meu corpo para o corpo de uma mulher, e onde aprendi que travestis são prostitutas.


(Grécia antiga)


Com o tempo me assumi homossexual. Ser homem gay é enfrentar a gayfobia e diversos preconceitos, mas, ainda assim, é ser homem, não no sentido ontológico,  mas na condição de masculinidade desviante. Esse período é marcado por desastres psico-afetivos, perfis fake na internet, onde eu era mulher e podia viver minha feminilidade em salas de bate papo; passar-me por mulher para receber carinho e, sendo mulher, ser tratada no feminino. As impossibilidades do amor e uma estranha insatisfação comigo e com a vida sempre me tomaram. Olhar-me no espelho era deveras difícil.



(Gaston Goor)


No início, pensei que tal sofrimento ocorresse por ser feminino demais. Então, decidi ir em busca de alguma masculinidade maior: pedi a uma amiga fonoaudióloga que me ensinasse a " falar como homem", deixei a barba, pedi a um colega que me ensinasse um jeito de andar sem que rebolasse (o resultado foi dizerem que eu estava "assado"). Colecionando amores impossíveis, vivendo mentiras, sonhando com impossibilidades, tentei, por três, vezes o suicídio. E vivi (ainda vivo) boa parte do tempo revezando entre o muito depressivo e o pouco depressivo. Sinto não pertencer ao mundo. Sou eu, neste momento, sujeito abjeto.


(Grécia antiga)


A Teoria Queer e o ativismo LGBT me revelaram, indiretamente, algo sobre mim mesmo. Não sou homem gay. Sou mulher trans. É desesperador tomar consciência disso. Primeiro, porque isso significa que começarei do zero. Me assumir novamente, me transformar, e eu quero me transformar, vencer os laços que me dominam subjetivamente. Esta, é, sem dúvida, a primeira vez que falo no assunto.


(Jean Cocteau)


Ainda sou lido, visto e entendido como homem. Entretanto, ter consciência de que a determinação do meu gênero foi, no fundo, uma violência contra mim, me liberta. Pois sei o que sou. Sei que não pertenço à norma, mas sei que há um mundo de possibilidades e lutas a vivenciar e travar. A cisnormatividade é totalitária. Ela é violenta, mas não mais como foi a violência na modernidade.  Ela é sutil, apesar das mortes por transfobia, apesar da condição de marginalização em que vivem muitas mulheres trans; o processo interno, o sofrimento, a negação são de uma perversidade sem tamanho.



(Jean Cocteau)


Ainda estou no que eu chamaria de "devir mulher". Ainda estou me habituando com essa minha descoberta. Ainda olho para o meu corpo e começo a ver nele potencialidades de ser como eu gostaria. Não sei se sou binário (homem ou mulher), ou se serei gender-fluid. Mas sei que, definitivamente, não sou homem, ao menos não apenas homem. O que tenho vivido é uma imensa crise de disforia. Um imenso rejeitar-me. Tenho conversado com o psiquiatra a respeito. E espero, imensamente, me descobrir mais e melhor. Por enquanto, são pistas de mim mesmo. Neste texto me assumo trans, pois, estou já convicto que não sou "cis".



(Jean Cocteau)



Fonte:


Nota pós, bem pós-datada (de 11.5.2015): 
algum tempo depois desse artigo, o autor adotou de vez 
o nome feminino, Fernanda, como poderão constatar 
os que tiverem a curiosidade, o privilégio e a boa vontade 
de acessar sua página no Facebook.





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