segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

BELLOCQ: O FOTÓGRAFO DAS PROSTITUTAS DE NOVA ORLEANS



John Ernest Joseph Bellocq nasceu, viveu e morreu em Nova Orleans (1873 - 1949) e teria sido há muito esquecido, não fosse o fotógrafo Lee Friedlander ter encontrado uma caixa com as placas de vidro de seu daguerreótipo e resolvido publicá-las num livro e expô-las, em 1970, no Museu de Arte Moderna.

Quase nada se sabe de Bellocq, a não ser que, fotógrafo de profissão, frequentava os inferninhos da zona do meretrício de sua cidade. E, por artes e artimanhas, resolveu fotografar as prostitutas dessas casas.

Isso aconteceu por volta de 1912. Em plena Belle Époque. As fotos das senhoritas dos bordéis de Nova Orleans surpreendem pela delicadeza do fotógrafo em retratá-las em poses sensuais, às vezes nuas, muitas com máscaras para não serem reconhecidas. Algumas fotos, inclusive, trazem o rosto da modelo deliberadamente borrado.

São apenas 89 fotos. E os críticos lamentam que todo o resto do trabalho desse extraordinário e desconhecido fotógrafo tenha sido destruído depois de sua morte. Contentemo-nos com elas. E com a homenagem que lhe presta Louis Malle, no filme Pretty Baby - Menina Bonita, em que ficcionaliza a vida desse homem, ao fazê-lo enamorar-se da personagem de Brooke Shields e casar-se com ela, depois de fotografar as prostitutas do bordel do filme. Papel do ator Keith Carradine. 

Eis algumas das fotos de Bellocq, para seu deleite:












segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

E O MUNDO LÉSBICO ENTROU PARA A LITERATURA BRASILEIRA...



(A. não identificado)



Laura Bacellar é editora de livros, atualmente responsável, juntamente com um grupo de mulheres, pela primeira editora lésbica do Brasil. Fico com essa brevíssima apresentação para ir direto ao que interessa: seu artigo sobre a primeira vez em que um autor brasileiro escreve sobre lesbianismo. Com vocês:


A PRIMEIRA CENA LÉSBICA DA LITERATURA BRASILEIRA


Por Laura Bacellar



(A. não identificado)



Precisei reler outro dia O cortiço, de Aluísio Azevedo, para um trabalho de edição didática. Já tinha sido obrigada a encarar este clássico lá no milênio passado, ele é inevitável para estudantes na boca do vestibular, e lembro de ter ficado muito decepcionada com a personagem lésbica. Para quem não recorda, Léonie, uma prostituta elegante, seduz uma mocinha inocente, Pombinha, que se corrompe por conta desse contato. Mais tarde, em vez de permanecer honesta e casada, ela prefere cair na vida e também se tornar prostituta.



(A. não identificado)



Aos meus olhos adolescentes pareceu sem graça e pouco romântico. Depois da cena de sexo entre as duas, Pombinha se envolve com homens.

Agora prestei mais atenção ao autor e minha opinião sobre o texto mudou um pouco. Primeiro, é bom lembrar que esse livro foi publicado em 1890, no meio daquele mar de baboseiras românticas – que me desculpem as apreciadoras de José de Alencar, mas eu nunca suportei a virgem de lábios de mel... – e textos moralizantes para todo lado. Tinha gente que ainda defendia, com toda pompa e circunstância, a escravidão, deuses do céu! Aluísio Azevedo, fiquei feliz em saber, sempre foi abolicionista convicto.



(Toni D'agostinho)



Mas o moço foi outras coisas mais. Como bom ariano, lançava-se sem temor em aventuras. Foi ele o iniciador do movimento Naturalista em nossas letras com um romance falando justamente dos preconceitos raciais, O mulato. Não teve medo de criticar a hipocrisia da Igreja num jornal que ele mesmo fundou, "O Pensador", quando tinha só 23 anos. Irritou tanto os padres locais que foi obrigado a mudar-se de São Luís para o Rio de Janeiro...





Filho de uma mãe separada unida a um viúvo – total escândalo para a época –, Aluísio nutria um delicioso desprezo pelas instituições burguesas, em especial o casamento. Nessa leitura mais adulta captei a descrição bem pouco elogiosa do casamento da tal moça que cai na vida. Veja só se ela não achava o marido um chato:



(Otto Mueller)


Pobre Pombinha! no fim dos seus primeiros dois anos de casada já não podia suportar o marido; todavia, a princípio, para conservar-se mulher honesta, tentou perdoar-lhe a falta de espírito, os gostos rasos e a sua risonha e fatigante palermice de homem sem ideal; ouviu-lhe, resignada, as confidências banais nas horas íntimas do matrimônio; atendeu-o nas suas exigências mesquinhas de ciumento que chora; tratou-o com toda a solicitude, quando ele esteve a decidir com uma pneumonite aguda; procurou afinar em tudo com o pobre rapaz: não lhe falou nunca em coisas que cheirassem a luxo, a arte, a estética, a originalidade; escondeu a sua mal-educada e natural intuição pelo que é grande, ou belo, ou arrojado, e fingiu ligar interesse ao que ele fazia, ao que ele dizia, ao que ele ganhava, ao que ele pensava e ao que ele conseguia com paciência na sua vida estreita de negociante rotineiro; mas, de repente, zás! faltou-lhe o equilíbrio e a mísera escorregou, caindo nos braços de um boêmio de talento, libertino e poeta, jogador e capoeira.


(Paul Émile Bécat)



O autor colocou a culpa no contato anterior com Léonie, que despertou em Pombinha “íntimos vexames”, mas deixa claro o que ele achava de casamentos arranjados...

(Aluisio Azevedo por Robson Vilalba)


Aluísio foi hetero, pelo que eu saiba, já que se uniu à argentina Pastora Luquez (mas não se casou!) e adotou seus dois filhos. Porém teve coragem de falar de sexo em geral e da homossexualidade em particular sem subterfúgios e, mais espantoso ainda, sem julgamento. Apresentou uma personagem que tem desejo sexual por outra mulher e faz algo a respeito. Descreveu uma cena de cama que acaba em gozo para as duas!



(A. não identificado)


(Permanece minha teoria de que a forma com que faz esse relato é masculina, uma mulher teria dito de modo bem mais sensível, portanto a meu ver não é literatura lésbica. Mas é interessante e corajosa.) Por conta disso, acho que o trecho da sedução da mocinha merece uma relida, veja se você não concorda comigo (ilustrações de Franz von Bayros - nota da Lua Quebrada):






Bem! Agora estavam perfeitamente a sós!
– Vem cá, minha flor!... disse-lhe, puxando-a contra si e deixando-se cair sobre um divã. Sabes? Eu te quero cada vez mais!... Estou louca por ti!
E devorava-a de beijos violentos, repetidos, quentes, que sufocavam a menina, enchendo-a de espanto e de um instintivo temor, cuja origem a pobrezinha, na sua simplicidade, não podia saber qual era.






A cocote percebeu o seu enleio e ergueu-se, sem largar-lhe a mão.
– Descansemos nós também um pouco... propôs, arrastando-a para a alcova.
Pombinha assentou-se, constrangida, no rebordo da cama e, toda perplexa, com vontade de afastar-se, mas sem ânimo de protestar, por acanhamento, tentou reatar o fio da conversa, que elas sustentavam um pouco antes, à mesa, em presença de Dona Isabel. Léonie fingia prestar-lhe atenção e nada mais fazia do que afagar-lhe a cintura, as coxas e o colo. Depois, como que distraidamente, começou a desabotoar-lhe o corpinho do vestido.





– Não! Para quê!... Não quero despir-me...
– Mas faz tanto calor... Põe-te a gosto...
– Estou bem assim. Não quero!
– Que tolice a tua...! Não vês que sou mulher, tolinha?... De que tens medo?... Olha! Vou dar exemplo!
E, num relance, desfez-se da roupa, e prosseguiu na campanha.
A menina, vendo-se descomposta, cruzou os braços sobre o seio, vermelha de pudor.





– Deixa! segredou-lhe a outra, com os olhos envesgados, a pupila trêmula.
E, apesar dos protestos, das súplicas e até das lágrimas da infeliz, arrancou-lhe a última vestimenta, e precipitou-se contra ela, a beijar-lhe todo o corpo, a empolgar-lhe com os lábios o róseo bico do peito.
– Oh! Oh! Deixa disso! Deixa disso! reclamava Pombinha estorcendo-se em cócegas, e deixando ver preciosidades de nudez fresca e virginal, que enlouqueciam a prostituta.
– Que mal faz?... Estamos brincando...
– Não! Não! balbuciou a vítima, repelindo-a.



– Sim! Sim! insistiu Léonie, fechando-a entre os braços, como entre duas colunas; e pondo em contato com o dela todo o seu corpo nu.
Pombinha arfava, relutando; mas o atrito daquelas duas grossas pomas
irrequietas sobre seu mesquinho peito de donzela impúbere e o rogar vertiginoso daqueles cabelos ásperos e crespos nas estações mais sensitivas da sua feminilidade, acabaram por foguear-lhe a pólvora do sangue, desertando-lhe a razão ao rebate dos sentidos.





Agora, espolinhava-se toda, cerrando os dentes, fremindo-lhe a carne em crispações de espasmo; ao passo que a outra, por cima, doida de luxúria, irracional, feroz, revoluteava, em corcovos de égua, bufando e relinchando.
E metia-lhe a língua tesa pela boca e pelas orelhas, e esmagava-lhe os olhos debaixo dos seus beijos lubrificados de espuma, e mordia-lhe o lóbulo dos ombros, e agarrava-lhe convulsivamente o cabelo, como se quisesse arrancá-lo aos punhados. Até que, com um assomo mais forte, devorou-a num abraço de todo o corpo, ganindo ligeiros gritos, secos, curtos, muito agudos, e afinal desabou para o lado, exânime, inerte, os membros atirados num abandono de bêbedo, soltando de instante a instante um soluço estrangulado.







Fontes:

 www.editoramalagueta.com.br. 


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

PUNHETA TECNOLÓGICA: MASTURBAÇÃO VIA INTERNET






Em 2011, publiquei aqui mesmo, nesta LUA, o lançamento do FLASHLIGHT, um aparelho masturbador para homens, que imitava uma vagina. E até a opinião de quem já o havia testado.





Pois, bem: o tempo passou, os punheteiros continuaram punhetando-se, com ou sem o uso de aparelhos. Mas a fila anda. Ou, melhor: a tecnologia avança. E a imaginação dos inventores também. Faltava um aplicativo para se masturbar. Não falta mais.






Já  existe a possibilidade de se masturbar via internet. Dizem que foram engenheiros da NASA que desenvolveram o aparelho. Não sei por quê, mas há sempre alguém da NASA envolvido em novidades eróticas. Acho que o pessoal de lá vive "voando" não só em naves e satélites, mas também em outras "dimensões". Bem, isso não importa, já que essa história pode ser falsa.






O novo masturbador chama-se REALTOUCH INTERATIVO e, conforme a propaganda, "é a tecnologia de experiência sexual mais íntima" e intensa que se pode ter. Funciona mais ou menos assim (espero que esse mais ou menos seja mais, para os compradores):






1. você escolhe um modelo (parece que há vários, talvez relacionados ao tamanho do seu... pau) e, através de algum código parecido com o de barras, você baixa um programa na internet;

2. com esse programa, , você pode, então, conectar o "aparelho" no seu computador e buscar alguma garota ao vivo, em qualquer lugar do mundo, que tenha um aparelho chamado REALTOUCH JOYSTICK;






3. essas garotas, de acordo com o fabricante, têm conhecimento íntimo do REALTOUCH e estão à sua espera, para um encontro numa determinada hora que vocês combinam;

4. conectados os dois, começa o "jogo": a garota vai excitá-lo e, através do tal joystick, enviar simulações de movimentos para o interior do seu masturbador (onde já deverá estar o seu pau, claro); movimentos que simulam sexo oral, vaginal ou anal que, garantem, são extremamente realistas.






Você terá a sensação de que estará realmente fazendo sexo com a modelo e não apenas se masturbando! Pelo menos, é o que prometem. E toda a propaganda parece estar veiculada para incendiar a sua imaginação que é, ao fim e ao cabo, o que conta, para uma boa masturbação e para um bom sexo.





Quanto custa a brincadeira? O valor exato não consegui descobrir, porque - como tem punheteiros neste mundo! - ao tentar simular uma compra, para ver o preço do aparelho, o site informou que, devido à grande procura, não está aceitando novos compradores, por enquanto. No e-bay, achei um anúncio (já finalizado) ofererecendo o aparelho por U$149,00. Mas, como tudo é pago, inclusive o tempo em que você fica com as modelos (ao vivo ou sob demanda), a brincadeira não deve sair muito barata.






Sempre que sugem novas tecnologias, os apóstolos das novidades decretam o fim do passado. Foi assim com DVD (e conseguiram ressuscitar o disco de vinil). Está sendo assim com os livros e os jornais impressos (e eles parecem firmes, ou mais ou menos firmes). Será que, agora, que surgiu um "aplicativo para se masturbar", vão começar a dizer que a mão que masturba (os famosos "cinco a um") também vai ficar obsoleta?





Fonte:



(Fotos da internet, sem indicação de autoria)





segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

AS "NOVAS" SEXUALIDADES - TRANSSEXUALIDADE: FONTE DE ESPECULAÇÕES, SOFRIMENTOS E PRECONCEITOS.



(A. não identificado)


Se o ser humano se divide entre machos e fêmeas, a sexualidade humana é múltipla e complexa. A tal ponto que, às vezes, coloca em cheque até mesmo essa divisão baseada na biologia. Será que somos apenas machos e fêmeas?

Temos tratado, aqui, de erotismo. Ou, mais precisamente, de sexualidade. Da confusa e enredada sexualidade dos seres humanos. E a transsexualidade é um desses enredos que nunca terminam, porque, como coloquei no título da matéria, é fonte de especulações, de sofrimentos e... preconceitos. Acho que somente o conhecimento pode ajudar a acabar com os preconceitos, já que especulações e sofrimentos são inerentes à própria humanidade.


(Jean Cocteau)


Trago, hoje, um depoimento colhido no Facebook e editado por mim, sem prejuízo do conteúdo - um pouco extenso, mas não quis cortar nada que pudesse prejudicar o texto, já que o autor balança entre razão e emoção, para narrar sua experiência de vida, uma profunda experiência.

As ilustrações servem apenas como "quebra" da sisudez do texto, de respiro ao longo de uma leitura que pode ser difícil para alguns, profunda para outros, tocante para muitos, mas sempre de vital interesse a todos que, humanos, se interessam pelas causas humanas.

Com vocês, Fernando Dantas Vieira:


(Claire Milbrath )


O MEU DEVIR TRANS:
O TOTALITARISMO DA NORMA
E OS PRIMEIROS PASSOS INTERNOS



Hannah Arendt, em seu livro " As Origens do Totalitarismo" fez a seguinte afirmação: " o totalitarismo se baseia na solidão, na experiência de não pertencer ao mundo, que é uma das mais radicais e desesperadoras experiências que o ser humano pode ter". Ela falava sobre os Judeus e, principalmente, sobre o regime totalitário nazista na Alemanha e sua maneira de destruir nos judeus o sentimento de pertencer à  humanidade. Arrisco-me, a partir da análise de um regime político, compará-lo a um regime igualmente redutor da humanidade do outro, que é a cis-heteronormatividade.


(Claire Milbrath)


Se mantivermos o pensamento de Arendt, perceberemos, por exemplo, que não há no totalitarismo uma " causa em específico" que conduza a um efeito exato (como em uma soma de matemática). Há, na verdade, um processo de "cristalização" do totalitarismo, que se funda, do levante das subjetividades das massas (interpretação minha).  Não seria totalitário apenas o Estado, mas seria ele a cristalização de certo desejo de segurança que está no âmago das individualidades e subjetividades, que se cristaliza, se enrijece, emerge como um regime totalitário que, para existir, deve, necessariamente, elencar um inimigo, um " outro" a ser combatido, e reduzi-lo à condição de abjeção.


(A. não identificado)


Eu não sabia o significado de " abjeção" e apenas recentemente descobri que é a condição daquilo que é abjeto, inumano, monstruoso. Percebi que a abjeção é, em nosso sistema e sociedade, distribuída a grupos de pessoas em específico, como nos contou Michel Foucault em " A história da Loucura na Idade Média", quando a condição de inumanidade foi dada aos loucos, que deveriam ser apartados, contidos, supliciados e, posteriormente, disciplinados. Porque estes "loucos" eram abjetos? Porque fugiam à " normalidade", ao padrão de comportamento esperado deles. No século XIX, a abjeção era distribuída aos " vagabundos", degenerados, homossexuais, às mulheres frígidas, às mulheres "independentes", ou seja, a todas as pessoas que fugiam do que era esperado para elas, tanto do ponto de vista social, quanto do comportamento sexual, emocional, e de gênero.


(Martin van Maele)


Aquele "outro" do totalitarismo, que precisa ser transformado em abjeção, é o "outro" que foge à norma. Obviamente, é preciso compreender a norma como um padrão social, ético, moral e comportamental socialmente construído, e, historicamente considerado como " natural". Por exemplo, a publicidade alemã naturalizou a inferioridade judia, através da reprodução de certo discurso clínico perverso. Associando àquelas pessoas a uma infinidade de males. Havia, naquele momento, uma maneira específica de produção da abjeção. Ela se produzia pelo discurso nítido, pela força, pela " bota do soldado contra nossa face", como diria George Orwelll.



(A. não identificado)



E hoje? Quem são as abjeções? Quais são as identidades que recebem, a torto e a direito, o rótulo de abjeto e inumano?

(Apollonia Saintclair)


Poderia aqui listar dezenas dessas identidades abjetas, drogadictos, prostitutas, "loucos", pobres, marginais. Entretanto, meu texto se centra, naqueles que são rotulados como abjeção pela cis-heteronorma, ou seja, o sistema que determina, arbitrariamente o gênero em relação ao genital, e que pressupõe a sexualidade do ser humano, antes que este possa manifestar seus desejos, suas vontades, suas preferências, sua orientação sexual. Deste modo, todo aqueles que fogem a esta " norma" são, em maior ou menor grau, objetos de abjeção. O homem homossexual é menos homem e menos humano quanto mais feminino for.


(Édouard-Henri Avril)


E este sou eu.

Durante muito tempo me entendi como homem gay cisgênero, ou seja, um homem homossexual que, apesar da minha orientação sexual, continuava a me identificar como homem. Sempre soube que eu não era exatamente como os outros homens gays. Eu tinha preferência por tudo o que fosse feminino. Meu corpo parecia um fardo a ser carregado. Meu pênis, eu o sentia como um excesso, algo que não me serviu e não me serviria para nada. Em minhas fantasias no banheiro, eu me imaginava mulher. Me imaginava como fada, como bruxa, como uma deusa a lutar com inimigos imaginários.


(Egon Schiele)

Entretanto, aos poucos, a " realidade" da norma nos chama a atenção, seja pela voz do pai, seja pela insinuação da amiga da mãe. Ela sempre nos diz "olha, não é bem assim", ou " este menino está com algum problema". Percebi que não era possível tornar-me mulher. Continuei a sê-lo em minhas fantasias, que passaram de " fantasias mágicas, para fantasias de ser uma mulher rica". Permiti, por muito tempo, que minhas fantasias fossem tomadas por imagens normativas do " ser mulher", e do " ser rica".


(Egon Schiele)


O tempo é sempre implacável em nos arremessar contra o muro da realidade normativa, sobretudo quando chega a adolescência. Eu via corpos desejáveis desenvolverem-se em volta de mim: uns eram os corpos das meninas, que me causavam inveja, suprema inveja; os outros eram os corpos dos meninos, que me despertavam desejo. Mas nenhum dos corpos era como eu. Eu estava fora da norma. Já pressentia que minha vida seria marcada por preconceitos e dilemas, e a escola me mostrou isso com inefável clareza.

(EKO)


Percebi que havia algo que me impunha a solidão. Que me impunha, como diria Hannah Arendt, o terrível sentimento de não pertencer ao mundo, porque o mundo, eu o concebia como aquela atmosfera, plenamente normativa, onde aprendi as diferenças do meu corpo para o corpo de uma mulher, e onde aprendi que travestis são prostitutas.


(Grécia antiga)


Com o tempo me assumi homossexual. Ser homem gay é enfrentar a gayfobia e diversos preconceitos, mas, ainda assim, é ser homem, não no sentido ontológico,  mas na condição de masculinidade desviante. Esse período é marcado por desastres psico-afetivos, perfis fake na internet, onde eu era mulher e podia viver minha feminilidade em salas de bate papo; passar-me por mulher para receber carinho e, sendo mulher, ser tratada no feminino. As impossibilidades do amor e uma estranha insatisfação comigo e com a vida sempre me tomaram. Olhar-me no espelho era deveras difícil.



(Gaston Goor)


No início, pensei que tal sofrimento ocorresse por ser feminino demais. Então, decidi ir em busca de alguma masculinidade maior: pedi a uma amiga fonoaudióloga que me ensinasse a " falar como homem", deixei a barba, pedi a um colega que me ensinasse um jeito de andar sem que rebolasse (o resultado foi dizerem que eu estava "assado"). Colecionando amores impossíveis, vivendo mentiras, sonhando com impossibilidades, tentei, por três, vezes o suicídio. E vivi (ainda vivo) boa parte do tempo revezando entre o muito depressivo e o pouco depressivo. Sinto não pertencer ao mundo. Sou eu, neste momento, sujeito abjeto.


(Grécia antiga)


A Teoria Queer e o ativismo LGBT me revelaram, indiretamente, algo sobre mim mesmo. Não sou homem gay. Sou mulher trans. É desesperador tomar consciência disso. Primeiro, porque isso significa que começarei do zero. Me assumir novamente, me transformar, e eu quero me transformar, vencer os laços que me dominam subjetivamente. Esta, é, sem dúvida, a primeira vez que falo no assunto.


(Jean Cocteau)


Ainda sou lido, visto e entendido como homem. Entretanto, ter consciência de que a determinação do meu gênero foi, no fundo, uma violência contra mim, me liberta. Pois sei o que sou. Sei que não pertenço à norma, mas sei que há um mundo de possibilidades e lutas a vivenciar e travar. A cisnormatividade é totalitária. Ela é violenta, mas não mais como foi a violência na modernidade.  Ela é sutil, apesar das mortes por transfobia, apesar da condição de marginalização em que vivem muitas mulheres trans; o processo interno, o sofrimento, a negação são de uma perversidade sem tamanho.



(Jean Cocteau)


Ainda estou no que eu chamaria de "devir mulher". Ainda estou me habituando com essa minha descoberta. Ainda olho para o meu corpo e começo a ver nele potencialidades de ser como eu gostaria. Não sei se sou binário (homem ou mulher), ou se serei gender-fluid. Mas sei que, definitivamente, não sou homem, ao menos não apenas homem. O que tenho vivido é uma imensa crise de disforia. Um imenso rejeitar-me. Tenho conversado com o psiquiatra a respeito. E espero, imensamente, me descobrir mais e melhor. Por enquanto, são pistas de mim mesmo. Neste texto me assumo trans, pois, estou já convicto que não sou "cis".



(Jean Cocteau)



Fonte:


Nota pós, bem pós-datada (de 11.5.2015): 
algum tempo depois desse artigo, o autor adotou de vez 
o nome feminino, Fernanda, como poderão constatar 
os que tiverem a curiosidade, o privilégio e a boa vontade 
de acessar sua página no Facebook.