segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

O PÊNIS: TEMPOS DE ORGULHO, TEMPOS DE REPRESSÃO - UMA BREVE HISTÓRIA



(A. não identificado)


Eu sei que, de vez em quando, volto ao tema. Mas, por que não? Afinal, um blog que trata de erotismo não pode se furtar a falar de órgãos sexuais. Portanto, assim como escrevo sobre a vagina, também o pênis tem o seu lugar de destaque, por motivos mais do que óbvios.



(Amilkar)


Publicaram-se, aqui, artigos sobre a priapeia (grega e romana), sobre um parque de esculturas de pênis, na Coreia (Haesindang Parque), sobre um festival de pênis no Japão (Kanamara Matsuri) e muitas outras referências.  Recomendo que você, já que está aqui, faça um tour pelo blog, buscando as referências citadas, antes de encarar o texto abaixo, já que o assunto parece inesgotável. Essa matéria saiu no portal da SUPERINTERESSANTE (endereço no final), e merece ser lida. Editei um pouco, como sempre o faço, o que me perdoem leitores e leitoras dessa LUA, mas...


COM VOCÊS, O PÊNIS


(A. não identificado)


A veneração do pênis, como símbolo de poder, força e coragem, uma espécie de síntese das virtudes masculinas, é muito antiga e vem sendo continuamente atualizada e adaptada de acordo com os costumes de cada época, diz o pesquisador americano David Friedman. Em seu livro Uma Mente Própria - A História Cultural do Pênis, ele descreve o mais antigo ritual desse tipo. Por volta do ano 275 a.C. os moradores de Alexandria erigiam um monumental falo dourado, com 55 metros de comprimento, enfeitado com uma estrela na ponta, e o levavam pela cidade, onde meio milhão de pessoas entoavam poemas em homenagem ao astro da festa, suas qualidades e beleza ímpar.



(Egito antigo - papyrus erotique)


Mito e religião conviveram com o pênis durante toda a Antiguidade. Egípcios, gregos, romanos usavam a imagem do falo para representar as forças criadoras e fecundas do Universo, diz Bayard Fischer Santos, médico andrologista de Porto Alegre (RS), autor do livro A Medida do Homem. Na cidade de Pompeia, era comum colocar uma imagem fálica na porta de entrada das casas, ao lado da frase: "aqui mora a felicidade", para atrair sorte e afastar os espíritos das trevas. O pênis aparecia em peças decorativas e artísticas como um símbolo das virtudes masculinas. O caráter sexual só entrou em jogo por volta do século 2 a.C., quando o falo começou a ser usado como arma de sedução.



(Alex Virot)


Sem cerimônias, os gregos mostravam-no para conquistar donzelas e efebos e se exercitavam nus nas arenas esportivas. A anatomia peniana era considerada bela e, como tal, deveria ser mostrada. Algo parecido com a atual valorização e exibição da bunda feminina em nossa sociedade.



(Achille Deveria)


Na Europa,  a partir do século V, com o crescimento da influência cristã, o pênis ganhou o título de "vara do demônio". Em uma cultura na qual a virgindade simboliza a pureza, o membro masculino representava tudo que era maléfico, vergonhoso e destruidor, diz Friedman. Afinal, o próprio Cristo teria sido gerado sem a participação do pênis. Para Santo Agostinho (sempre ele!), "o pênis é a gargaleira poluída por onde emerge o mais obsceno dos eflúvios, o sêmen".



(Javier Gil)


Até o século XV, para possuir, expor ou utilizar uma imagem do pênis, devia-se seguir regras tão restritivas, que infringi-las poderia acabar em cana braba. E era considerado pecado e até mesmo um crime diante de deus e da sociedade, chegar ao orgasmo sem que fosse para procriar. No século VI, na Inglaterra, assassinos eram condenados a sete anos de reclusão, enquanto homens que recebiam sexo oral podiam pegar prisão perpétua.


(Heinrich Lossow)


O falo em riste passou a ser a imagem dos sofrimentos infernais. Mas, paradoxalmente, o rigor religioso considerava a incapacidade de procriação como um desvio de conduta moral, uma condenação divina. Se o homem se mostrasse impotente, isso servia de justificativa para a dissolução legal do casamento, afirma Friedman. Assim, alguns homens adotavam medidas extremas, e o ato de castrar-se chegou a ser uma prática comum entre religiosos e sacerdotes, que entendiam que, dessa forma, estariam eliminando sua faceta selvagem e mundana.



(Eunuco de guarda num harém - a. não identificado)


Durante séculos, em diferentes culturas foi comum a figura do eunuco. A castração era feita geralmente na infância e consistia em abrir o saco escrotal e remover os testículos. Em alguns casos, também o pênis era retirado. No Império Otomano, os escravos eunucos eram valiosos por serem raros, já que, a cada dez homens operados, apenas três sobreviviam. Por volta do século XIV, eles eram muito procurados pelos governantes, que lhes entregavam a administração de seus haréns. Pela confiança que inspiravam, chegavam a atingir altos postos na corte.



(Eunuco - a. não identificado)


Na China, durante mais de 3 mil anos, os funcionários do palácio real eram eunucos. Treinados em técnicas militares, extremamente cultos e bem relacionados, em certos períodos eles tiveram mais poder que o próprio imperador. O último deles morreu em 1996, aos 94 anos.



(Farinelli a. não identificado)


Era uma prática antiga, que durou desde o ano 400 até 1200 dC, remover os testículos de jovens cantores, para conservarem o tom feminino de voz.  Só voltou a ressurgir na Itália, a partir do  século  XVI,  e os castrati encantaram plateias da ópera, substituindo as mulheres, proibidas de subir aos palco,  até o início do século XX.


(Leonardo da Vinci)


Durante séculos, acreditou-se que a ereção acontecia por inflação de ar e que o falo seria ligado a uma artéria do coração que lhe daria vida. Ou, ainda, que o sêmen escorreria da medula espinhal até a glande. Durante o Renascimento europeu,  Leonardo da Vinci desenhou mais de 5 mil páginas com esboços sobre o pênis, dissecou cadáveres e elaborou o maior compêndio de anatomia sobre o órgão sexual masculino, até então. Seus estudos libertaram o pênis do esquecimento e desbancaram essas teorias.



(Michael Zichy)


Hoje, já sabemos muito sobre a anatomia e o funcionamento do pênis. Os cientistas o acompanham desde o útero e descobriram que,  a partir do sétimo mês, o feto tem ereções a cada uma hora e meia, que duram até 30 minutos. Ainda não se sabe bem por quê, mas parece essa atividade toda está relacionada com o amadurecimento do órgão, como uma das das vias para o desenvolvimento funcional e estrutural do membro.



(Gaston Goor)


Durante a infância, a importância do pênis fica restrita à curiosidade que desperta: é a época das explorações instintivas, das brincadeiras e comparações. Só na puberdade é que as revoluções hormonais transformam o singelo pipi no imponente falo. O corpo reage para preparar o pênis para se tornar um órgão reprodutivo competente e competitivo. São ajustados e testados os mecanismos fisiológicos e cerebrais de capacitação sexual do pênis:  ele triplica de tamanho em seis meses, enquanto o saco escrotal cresce seis vezes nesse tempo. Aos 17 anos de vida, ele atinge a estatura, o diâmetro e o formato que irá ostentar para o resto de seus dias.



(Robert Mapplethorpe)


No topo, a glande, ou cabeça do pênis, envolta pela chamada pele vermelha, a mesma que reveste mamilos e lábios. Extremamente enervada, ela confere ao local uma sensibilidade incomparável e um brilho próprio, resultado de sua superfície lisa. Dizem alguns ser uma artimanha da natureza para atrair os olhares femininos; dizem outros, como Jesse Bering (queira ver, neste blog),  ser uma estrutura peculiar, destinada à proteção da prole do macho.



(Robert Mapplethorpe)


Descendo um pouco, a rafe, ou corpo do pênis, é coberta por uma pele fina e extremamente elástica, similar à das pálpebras, onde existem pêlos minúsculos e glândulas que servem de proteção e ajudam na lubrificação. Sob a epiderme, estão os famosos corpos cavernosos e esponjoso, a uretra e os canais deferentes, que correm da bolsa escrotal até atingirem as vesículas seminais, que estão justapostas à próstata. Assim como a orelha e o nariz, o pênis não acumula gordura.


(Robert Mapplethorpe)


Logo abaixo, fica a bolsa escrotal: um refrigerador de espermatozoide, responsável pela produção, armazenamento e climatização dessas sementes, além de fabricar o principal hormônio masculino, a testosterona. Para manter-se sempre meio grau centígrado abaixo da temperatura do resto do corpo, o saco escrotal segue uma rotina de exercícios. Sempre que preciso, ele distende para refrescar ou intumesce para concentrar calor. Tanto sobe e desce só é possível graças às túnicas musculares da pele, que enrugam ou relaxam, de acordo com a necessidade.


(Robert Mapplethorpe)


A razão fisiológica de ser do pênis é a ereção, que é um sistema complexo, quando ocorre uma mudança rápida e radical, graças a um sistema hidráulico que gera uma pressão interna capaz de intumescer o órgão. Explicando melhor: em repouso, o pênis comporta uma quantidade irrisória de sangue (8 mililitros), que salta para 80 mililitros quando ereto, provocando a maior pressurização a que um órgão humano pode se submeter: 320 milímetros de mercúrio, nada menos que 25 vezes maior que a pressão arterial (a força com que o coração bombeia sangue para todo o corpo). Com tanto impulso, o sangue comprime as veias e impede que o membro relaxe. A natureza se programou para dificultar o escape de sangue. O pênis é a única região do corpo que tem duas artérias para cada veia. A mensagem é clara: há o dobro de vias para entrar do que para sair. Uma vez duro, o pênis tem pelo menos o dobro do tamanho, dez vezes mais quantidade de sangue e suporta até 5 quilos dependurados sobre ele.


(George Grosz)


A cada ejaculação, a musculatura peniana expele cerca de 5 mililitros de esperma (com 300 milhões de espermatozoides), menos que uma colher de sopa, que irão percorrer em torno de 8 metros de canais só para chegar até a extremidade da glande. Dali  avançam numa velocidade que costuma lançá-los a uma distância de 30 centímetros, mas que em situações de extrema excitação pode chegar a 1,5 metro. Ir longe pode ser uma vantagem para esse exército, que é muito mais valioso do que se costuma pensar. Fabricar novos espermatozoides não é tão fácil: são necessários três meses para que eles estejam totalmente maduros e prontos para a ação.




(Janitor Flunacy)


Para a maioria dos animais, a ejaculação é instintiva e rápida, reduzindo a penetração a segundos de duração. O homem é o único animal com condições de prolongar, voluntariamente, a ejaculação, durante o sexo, o que exige uma complexidade comportamental elevada. O sexo prolongado é um sinal de que o desejo, o prazer e os laços afetivos influenciaram a evolução do homem.



(Achille Deveria)


Entre os machos do planeta, os homens e alguns poucos primatas são quem mais se esforça pela ereção. A maioria dos mamíferos, incluindo a maior parte dos primatas, têm um osso na genitália, o báculo. Outros garanhões contam com cartilagens ou estruturas fibrosas que fazem a sustentação do pênis ereto, sem despender muita energia, conseguindo um resultado mais rápido, duradouro e totalmente voluntário. Um gorila, por exemplo, controla a musculatura de seu pênis e, por isso, consegue mantê-lo rígido, com o mesmo esforço necessário para levantar um braço.


(Robert Mapplethorpe)


O pênis humano não chama a atenção pelo desenho arrojado, mas quando o assunto é tamanho e flexibilidade, ninguém nos supera, pelo menos entre os primatas. O pênis do chimpanzé chega a sete centímetros, quando ereto, enquanto o do gorila fica apenas em cinco centímetros, em média. Ambos têm a grossura de um lápis e não são capazes de curvaturas acentuadas. Nos humanos, o comprimento médio dobra e o diâmetro fica em torno de três centímetros. Leves torções são permitidas. Mas mesmo entre os homens, existem diferenças estruturais impressionantes. Os machos da tribo hotentote, no sul da África, têm uma cartilagem dentro do pênis. Uma possível pista de que todos os exemplares humanos também a tiveram um dia. Porém, quis a evolução (e as mulheres) que essa pecinha desaparecesse.



(Karnowski)


Segundo Geoffrey Miller, psicólogo americano especializado em evolução humana e autor do livro A Mente Seletiva, foram as preferências sexuais das mulheres que conduziram as principais evoluções do órgão sexual masculino, selecionando para a cópula os machos que tinham as informações genéticas que as agradavam. E a ereção humana representou um papel importante nessa escolha, já que ela é uma forma de o macho demostrar que é saudável e forte e que, além disso, está disposto para a cópula, diz Miller. Para ele, o prazer também foi determinante para chegar ao formato final do pênis, o que aconteceu há cerca de 60 mil anos, como produto da escolha das fêmeas: elas o o preferiam longo, grosso e flexível, porque, assim, a cópula se tornava mais agradável.


(Felicien Rops)


A relação do homem com o próprio pênis raramente é harmoniosa, já que ele funciona como uma espécie de comando biológico da identidade masculina. Isso explicaria por que os homens dão tanta importância a ele, preocupam-se com seu tamanho, comparam-no com os outros e entram em crise ao menor sinal de problema na região.


(André Collot)


O pênis tem cinco funções entre os primatas: atrair fêmeas, delimitar território, estabelecer hierarquia, intimidar o inimigo e fecundar. Ou seja, todas as missões essenciais para sobreviver em grupo. Quando um macaco se sente ameaçado, fica em pé e tem uma ereção. Com ela, é como se ele dissesse: "tudo o que está ao meu redor é meu, não se aproxime, estou pronto para atacar". O homem ainda faz isso, ao seu modo, como uma herança primitiva.


(Apollonia Saintclair)


A civilização e a cultura nos deram recursos dissimulados para fazer essa representação, como, por exemplo, o automóvel e muitos outros sinais de poder e riqueza, que substituem o falo na função de impressionar mulheres, declarar poder e intimidar rivais.


(Felicien Rops)


Esse comportamento faz parte da cultura masculina, nem sempre entendida pelas mulheres. A origem dessa diferença é a maneira como cada gênero lida com a sexualidade. O homem é falocêntrico, põe toda sua erotização no pênis, enquanto a mulher a distribui pelo corpo. O pênis reúne os conceitos de procriação, prazer, virilidade e paternidade. Na mulher, eles estão separados entre o clitóris (prazer), útero (procriação), vagina (gênero), seios (maternidade), diz a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do programa de sexualidade do Hospital das Clínicas da USP.


(Frans de Geetere)


Isso justificaria a angústia dos homens em relação à sua virilidade. O símbolo de sua força e poder está fora de seu controle. Para ficar ereto, o pênis segue suas próprias regras. Ele é indomável e pode enaltecer ou envergonhar o macho, afirma Carmita.



(Allie - the good hostess)

Foi Sigmund Freud que primeiro se preocupou com a "alma" do pênis. O fundador da psicanálise dedicou parte de sua vida e de sua obra para explicar o papel dele na formação do indivíduo e da sociedade. Para ele, o pênis era o órgão fundamental na formação do caráter de todas as pessoas. As mulheres se caracterizariam pela ausência e a inveja do falo; os homens, pelo medo da castração e pelo complexo de Édipo. Freud acreditava que todo o comportamento dos indivíduos podia ser explicado pela relação dele (ou dela) com o pênis.


(George Grosz)

Sessenta anos depois de Freud publicar seus Três Ensaios sobre a Sexualidade, em 1901, o pênis se tornou mote da guerra dos sexos, virou emblema político e, mais precisamente nas décadas de 60 e 70, foi um dos alvos prediletos dos discursos feministas. Na luta por direitos iguais, mulheres passaram a contestar a tese de inveja do pênis que, de instrumento de prazer, passou a ser símbolo da opressão. Tornou-se novamente um maldito e chegou a ver ameaçado o seu reinado, substituído por sua versão plastificada, o vibrador, cujo uso era encorajado pelas feministas. O resultado dessa batalha foi a chamada democratização do falo. O pênis, como símbolo de poder, foi dividido com a mulher na esfera social. Hoje, elas também são chefes no trabalho e em casa e assumem papéis convencionalmente associados aos homens, diz Carmita.


(Lana Dorocsheva)



Será que a importância ideológica do símbolo, enfim, ultrapassou seu significado concreto? Essa história ainda está longe de oferecer uma resposta definitiva. O fato é que, a cada novo desafio, nosso astro tem de reafirmar sua força e utilidade, ainda mais agora, numa era em que já é possível gerar um ser humano apenas com uma célula-mãe.



(Ralph Gibson)



BREVE BIBLIOGRAFIA SOBRE O PÊNIS:


Uma Mente Própria - A História Cultural do Pênis, David M. Friedman, Objetivam, 2002

A Mente Seletiva, Geoffrey F. Miller, Campus, 2000

O Livro do Pênis, Roland Barthes, Francisco Alves, 1991

A Medida do Homem - Mitos & Verdades, Bayard Fischer Santos, Imprensa Livre, 1999

Mitologia Erótica, Shahrukh Husain, Ediouro, 2002

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