segunda-feira, 17 de novembro de 2014

O TESÃO DE SALOMÉ PELO PROFETA, OU: BEIJO NEGADO, CABEÇA CORTADA!



(Salomé, de Franz von Stuck)

A ópera SALOME, de Richard Strauss, com libreto de Hedwig Lachmann, tem como fonte a peça homônima de Oscar Wilde. Quando estreou no Teatro da Corte, em Dresden, Alemanha, em 1905, provocou aplausos calorosos de uma plateia ávida por novidades e escândalos, do começo do século XX. No entanto, foi logo proibida em vários países, justamente por essas novidades: erotismo, decapitação, necrofilia... e tantos outros temas subjacentes na história da princesa que pede a cabeça do profeta, por haver sido rejeitada por ele.

(Foto: Salome, de Mario-Piazza)

O trecho abaixo (com tradução de Mário Videira) narra o momento em que, depois de obrigar os guardas de Herodes a tirar Yokanaan, o profeta, da cisterna onde se encontra prisioneiro, Salomé declara-se tremendamente atraída por ele, por seu corpo. Ao ver negados seus pedidos, entra num jogo de repulsa e desejo desesperadores, que a levam, mais tarde, a pedir a cabeça do profeta, depois de dançar sensualmente para seu padrasto, Herodes. Suas palavras provocam o suicídio de Narraboth, o chefe da guarda, seu admirador apaixonado, cujas súplicas tinham sido impotentes para demover a vontade de Salomé de ver o profeta e falar com ele.

(Salome, de Pierre Bonnard)

SALOMÉ:- Iokanaan! Eu estou apaixonada por teu corpo, Iokanaan! Teu corpo é branco como os lírios no campo, que nunca foram tocados pela foice. Teu corpo é branco como a neve nos montes da Judeia. As rosas no jardim da rainha da Arábia não são tão brancas como o teu corpo. Nem as rosas no jardim da rainha, nem os pés da aurora sobre a folhagem, nem o seio da lua sobre o mar. Nada no mundo é tão branco como teu corpo. Deixe-me tocá-lço, o teu corpo!

IOKANAAN:- Para trás, filha da Babilônia! Foi através da mulher que o mal veio ao mundo. Não fales comigo. Eu não quero te ouvir! Eu ouço apenas a voz do Senhor, meu Deus.


(Herrmann-Paul- 1864 - Jochanaan-und-Salome)


SALOMÉ:- Teu corpo é horrendo. Ele é como o corpo de um leproso. Ele é como uma parede caiada, por onde rastejaram as víboras; como uma parede caída, onde os escorpiões construíram o seu ninho. Ele é como um túmulo pintado de cal e repleto de coisas repugnantes. Ele é horrível, teu corpo é horrível. Por teu cabelo é que estou apaixonada, Iokanaan. Teu cabelo é como as uvas negras, nas vinhas de Edom. Teu cabelo é como o cedro, os grandes cedros do Líbano, que dão sombra aos leões e aos ladrões. As longas noites negras, quando a Lua se esconde e as estrelas lêm medo, não são tão negras como teu cabelo. O silêncio da floresta... Nada no mundo é tão negro como teu cabelo. Deixa-me tocá-lo, o teu cabelo!

IOKANAAN:- Para trás, filha de Sodoma! Não me toques! Não profanes o templo do Senhor, meu Deus!



(Foto de Mason Summers: Irina Koval e Joseph Carlson)



SALOMÉ:- Teu cabelo é horrível! Ele está repleto de imundície. É como se fosse uma coroa de espinhos posta sobre tua cabeça. É como um emaranhado de serpentes ao redor de teu pescoço. Eu não gosto do teu cabelo. (Com suprema paixão). Tua boca é o que eu desejo, Iokanaan. Tua boca é como uma fita escarlate em uma torre de marfim. Ela é como uma romã, cortada com uma faca de prata. As flores da romã nos jardins de Tiro, mais rubras do que as rosas, não são tão vermelhas. As rubras fanfarras das trombetas que anunciam a aproximação dos reis, e diante das quais treme o inimigo, não são tão vermelhas como tua boca. Tua boca é mais vermelha que os pés dos homens que esmagam uvas nos lagares. Ela é mais vermelha que os pés das pombas que habitam nos templos. Tua boca é como um ramo de corais no mar, durante o crepúsculo, é como a púrpura nas minas de Moab, a púrpura dos reis... (Fora de si). Nada no mundo é tão vermelho como tua boca. Deixa-me beijá-la, a tua boca.


(Frantisek Drtikol - Salome)


IOKANAAN (Em voz baixa, num horror quase sem voz):- Jamais, filha da Babilônia, filha de Sodoma... Jamais!

SALOMÉ:- Quero beijar tua boca, Iokanaan. Quero beijar tua boca.

NARRABOTH (Com extremo pavor e desespero):- Princesa, Princesa, vós que sois como um jardim de mirra, vós que sois a pomba de todas as pombas, não olheis para este homem. Não digais a ele essas palavras. Isto eu não posso suportar...

SALOMÉ:- Quero beijar tua boca, Iokanaan. Eu quero beijar tua boca.


(Narraboth se apunhala e cai morto entre Salomé e Iokanaan).


SALOMÉ:- Deixa-me beijar tua boca, Iokanaan!

IOKANAAN:- Não tens medo, filha de Herodíades?

SALOMÉ:- Deixa-me beijar tua boca, Iokanaan!

IOKANAAN:- Filha da luxúria, há apenas uma pessoa que te pode salvar. Vai e procura por ele. Procura por ele! (Com grande fervor). Ele está em um barco no mar da Galileia e fala a seus discípulos. (Muito solene). Ajoelha-te à beira do mar, chama por ele, e chama-o pelo nome. Quando ele vier a ti, e ele vem a todos que o chamam, curva-te então aos seus pés, para que ele perdoe os teus pecados.



(Aubrey Beardsley - Salome)


SALOMÉ (Como desesperada):- Deixa-me beijar tua boca, Iokanaan!

IOKANAAN:- Maldita sejas, filha de mãe incestuosa. Maldita sejas!

SALOMÉ:- Deixa-me beijar tua boca, Iokanaan!

IOKANAAN: Eu não quero olhar para ti. Estás amaldiçoada, Salomé. Tu estás amaldiçoada!


 (Ele desce novamente para a cisterna).



(Maria Ewing - Salome)



E assim, por causa desse beijo negado - e, claro, depois do beijo, tudo o mais... - Salomé exigiu de Herodes que lhe trouxessem a cabeça do profeta numa bandeja de prata, cujos lábios ela beija, enfim, desesperadamente, loucamente, antes de ser morta pelos soldados do Tetrarca, a seu mando. Isso tudo, no enredo da peça de Wilde e na ópera de Strauss.


(Giampetrino - Salome e a cabeça de Jean Baptiste)




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