segunda-feira, 8 de setembro de 2014

UM TEMA DIFÍCIL, NUM BELO CONTO DE CAMILA FERNANDES





(Mila F., ou Camila Fernandes: nua pensativa)

Assim ela se apresenta em sua página na internet:
"Sou ilustradora, escritora, revisora de textos e pretensa bailarina de tribal fusion. Assino ilustrações como Mila F e textos com meu nome verdadeiro."
Estou falando de Camila Fernandes.
Ousada, como uma escritora deve ser, achei de sua lavra (desculpem o termo!) o belíssimo conto abaixo, que aborda... não, não vou antecipar o tema: as ilustrações de Julius Zimmerman, com as curvas generosas de Jessica Rabbit, já o fazem. 
Saboreiem.

A PARTITURA




Bem devagar. Foi como começou.

Seus olhos correram pretos pelo branco de leite das mãos dele. Um presente para ela aconchegado nas palmas róseas. Sorriu. Avaliou a delicadeza dos homens verdadeiramente poderosos.

Caiu no abismo azul dos olhos dele. Doeu no fundo quando ele piscou. Que não piscasse. Que tivesse o tempo todo olhos para ela só.




Os lábios do homem ficaram entreabertos numa proposta entrecerrada.

Mãos de pianista, as dele. Encontraram no corpo dela suas teclas. Apanharam-na. Afinaram suas notas. Tiveram a paciência de um imortal. A certeza de um proprietário. O tempo de todo o mundo. Tensionaram cordas – e ela se converteu num brinquedo espontâneo.

Tangendo sempre… Flamenco nos seios. Jazz no ventre. Entre as pernas, um chorinho de arrancar lágrimas.





O bojo dos seus quadris apoiado sobre a coxa firme do homem. A mão esquerda conduzindo seu braço numa valsa descabida. A destra hábil gravou na sua medula a letra daquela canção.

Fez ecoar a voz do amado no recinto outrora vazio da alma da amante.

Ela se contorceu, se inclinou, gata em momento de preguiça, quatro patas, traseiro alto em alegre submissão. A boca dele cantarolou no seu sexo. Lábios com lábios. E todas as janelas do seu corpo se abriram, se escancararam, berrando um convite. Latejando. Umedecendo.



Ele escolheu uma entrada. A doce porta proibida.

Tocou de leve os glúteos fortes. Cor de trigo. Páginas sofisticadas. Abriu-as. O miolo de tal livro era algo a se conhecer.

Ele regia uma sinfonia suave, morosa. Primeiro os violinos. Meigos, furtando suspiros precoces.

E a porta antes trancada foi cedendo devagar.



Então, os oboés. Os violoncelos. Os clarinetes. A divina cacofonia.

O amante avançou. Entrou. Afundou com coragem. Curvou o torso. Encaixou-se à amada como o parafuso à porca. O peso do seu corpo firme sobre o dela, gentilmente subordinado. Tateou. Dedos cegos mas espertos logo acharam seu posto na orquestra. Aninharam-se na alcova alagada de um órgão em flor. Dedilharam… Um, dois, três. Um, dois, três. Encontraram o ritmo. Sem pressa, ele a embalou. Indo e vindo. Afundando sempre.




O maestro conduziu. A diva cantou. Prazer agudo. Palpitante. Infringir a regra e jamais contar a ninguém. Despejar o conteúdo de todas as gavetas. Rasgar as páginas de todos os diários. Falar de amor carnal e visceral em todos os altares. Preencher com gozo divino todos os buracos mundanos. Meter o pecado virtude adentro. Entrar e sair do paraíso roçando o inferno. Roçando o fogo.

A voz dela rivalizou com as de todos os castrati.

Ah! Foi uma longa sinfonia.









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