segunda-feira, 25 de agosto de 2014

MANUEL BANDEIRA: O EROTISMO QUE SE ESCONDE E O EROTISMO QUE SE ESCANCARA




(A. não identificado)


Encanta-nos a poesia de Manuel Bandeira (1886-1968) por sua oralidade e ternura. Seus versos fluem como o som de uma flauta e os temas atingem nossos sentidos como o embalo suave e constante do vento do Nordeste. Engana-nos, todavia: sob a ternura, há abismos de sensualidade e erotismo que só mentes "poluídas" ousam desbravar.

Há um olhar enviesado, rápido, logo disfarçado, que ousa, com timidez, desvelar o tesão, nos versos deliciosos de "Evocação do Recife":


(Henry Gerbault)


Lá longe o sertãozinho de Caxangá
Banheiros de palha
Um dia eu vi uma moça nuinha no banho
Fiquei parado o coração batendo
Ela se riu
Foi o meu primeiro alumbramento. 


Há uma ironia fina e triste por trás dos versos infantis do "Porquinho-da-índia", mas o erotismo explode sem que o percebamos no último verso, quebrando a inocência e jogando-nos num mundo lúdico e lúbrico:



  (Grandville)


Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele pra sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas...
- O meu porquinho-da-índia foi a minha primeira namorada.



(Marc Bourgne)

  
Há também os abismos que ele mesmo escancara, muitas vezes, com uma poesia erótica de grande beleza e coragem, como na "Primeira Canção do Beco", que joga com o pecado de um corpo que não se define e uma certa ironia com a noção do pecado, ao se referir ao muro alto do convento dos frades carmelitas da rua onde ele morava, na velha e safada Lapa do Rio de Janeiro:


(Drew Jones)


Teu corpo dúbio, irresoluto
de intersexual disputadíssima,
teu corpo, magro não, enxuto,
lavado, esfregado, batido,
destilado, asséptico, insípido
e perfeitamente inodoro
é o flagelo de minha vida.
Ó esquizoide! Ó leptossômica!



(Drew Jones)


Por ele sofro há bem dez anos
(anos que mais parecem séculos)
tamanhas atribulações,
que às vezes viro lobisomem,
e estraçalhado de desejos
divago como os cães danados
a horas mortas, por becos sórdidos!



(Drew Jones)



Põe paradeiro a este tormento!
Liberta-me do atroz recalque!
Vem ao meu quarto desolado
por estas sombras de convento,
e propicia aos meus sentidos
atônitos, horrorizados
a folha-morta, o parafuso,
o trauma, o estupor, o decúbito!



(A. não identificado)



Enfim, muitos seriam os exemplos do erotismo de nosso poeta, mesmo quando faz poesia "séria". A porta está aberta, ou só entreaberta, a quem quiser vasculhar seu mundo. Basta ter um pouco mais de sensibilidade e coragem, ler e reler nas entrelinhas dos versos que falam de mulheres, amores, relacionamentos,  que o velho e bom Manuel Bandeira sabia ser dúbio quando óbvio e óbvio quando dúbio.



(A. não identificado)



"Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei."



(André Collot)




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