segunda-feira, 4 de agosto de 2014

EXCESSOS DE DUAS NOITES: LESBIANISMO, SADISMO, BESTIALISMO...





Gamiani, ou duas noites de orgia (Gamiani, ou deux nuits d'excès) foi publicado em 1833, sem indicação de autoria. Tornou-se um grande sucesso, com inúmeras reedições e traduções em toda a Europa.



  
Uma novela erótica de estrutura simples e narrativa direta: um jovem permance após o baile na casa da condessa de Gamiani e surpreende-a com a jovem amante. Junta-se a elas e, em meio à orgia que se segue, em que ele descobre ser a moça ainda virgem, os três relatam seus passados. A condessa revela ter sido criada num convento onde se desenrolavam grandes orgias, incluindo práticas sádicas e sexo com animais.





Trata-se de uma daquelas histórias eróticas "moralistas", típicas da época: com muita sacanagem e um final em que se punem de alguma forma os exageros da carne. Claro, isto apenas para salvar as aparências, já que o artificialismo desse recurso fica óbvio para o leitor moderno.




Durante muitos anos discutiu-se sua autoria. Finalmente, chegou-se à conclusão de ter sido escrito por Afred de Musset (1810 - 1857) e tem fortes relações do poeta com o tórrido romance entre ele e George Sand(1804 - 1876), uma mulher que estava à frente do seu tempo: tinha uma vida livre e vestia-se com roupas masculinas, para escândalo da sociedade da época.






As ilustrações da primeira edição do livro também saíram anônimas. Parece que ninguém queria se comprometer com a autoria de obra tão "escandalosa". Estabeleceu-se que eram do ilustrador e pintor Achille Deveria(1800 - 1857), devido sua amizade com o poeta.






Muitos outros desenhistas e pintores ilustraram as páginas ardentes de Gamiani, quase sempre de forma anônima, talvez uma tradição. As que estão neste post são todas as originais, de Deveria. Divirta-se com alguns trechos do livro:





GAMINANI

[...] Privadas de homens, éramos ainda mais engenhosas em inventar extravagâncias. Conhecíamos todas as priapeias, todas as histórias obscenas da antiguidade e dos tempos modernos. Nós as tínhamos ultrapassado. Elefantis e Aretino tinham menos imaginação do que nós. Seria muito longo descrever nossos artifícios, nossas astúcias, nossos filtros maravilhosos para reanimar nossas forças, despertar nossos desejos e satisfazê-los. Poderás julgar isso pelo tratamento singular que aplicávamos a uma de nós para aguilhoar sua carne.




Mergulhava-se inicialmente a jovem num banho de sangue quente para fazer renascer seu vigor. Depois, ela beb ia uma poção de cantárida, deitava-se sobre uma cama e se fazia friccionar por todo o corpo. Com a ajuda da hipnose, adormecia. Tão logo o sono lhe chegava, ela era exposta de maneira propícia, e nós a chicoteávamos até sangrar, e também a espetávamos. A paciente despertava no meio de seu suplício. Levantava-se alucinada, olhava-nos com aparência de louca e logo entrava em violentas convulsões. Seis pessoas mal conseguiam dominá-la. Só as lambidas de um cão podiam acalmá-la. Seu furor extravasava em torrentes. Mas, se o alívio não chegava, a infeliz tornava-se mais terrível e pedia aos brados um jumento.





FANNY

Um jumento, misericórdia!

GAMIANI

Sim, minha cara, um jumento. Tínhamos dois deles bem adestrados, bem dóceis. Não queríamos ceder em nada às damas romanas, que se serviam deles em suas saturnais.

A primeira vez que fui posta à prova, encontrava-me no delírio do vinho. Precipitei-me violentamente sobre o escabelo, desafiando todas as freiras. O jumento foi imediatamente erguido diante de mim, com a ajuda de uma correia. Sua terrível lança, aquecida pelas mãos das irmãs, batia pesadamente em meus quadris. Segurei-a com as duas mãos, coloquei-a no orifício e, após um roçar de alguns segundos, procurei introduzi-la. Com a ajuda de meus movimentos, assim como de meus dedos e de uma pomada dilatante, fui em breve senhora de cerca de dez centímetros. [...] Era uma dor surda, sufocante, à qual se mesclava, todavia, uma irritação calorosa, titilante e sensual. O animal, sempre se remexendo, produzia uma fricção tão vigorosa que toda a minha ossatura estremecia. Meus canais espermáticos abriram-se e transbordaram. Minha ciprina ardente fremiu um instante em minhas entranhas. Oh! que gozo! Sentia-o escorrer em jatos de chamas e cair gota a gota no funto de minha matriz. [...]





FANNY

Que êxtases provocas em mim, Gamiani! Logo não aguentarei mais... Afinal, como saíste desse convento do diabo?

GAMIANI

Assim, após uma grande orgia, tivemos a ideia de nos tranformar em homens, com a ajuda de um pênis artificial amarrado, penetrando uma na outra sucessivamente, para em seguida correr como loucas. Eu formava o último anel da cadeia; era a única, em consequência, eu cavalgava sem ser cavalgada. Qual foi a minha surpresa quçando me senti vigorosamente atacaca por um homem nu que, não sei como, introduziu-se entre nós. Ao grito de pavor que me escapou, todas as freiras se dispersaram e vieram se precipitar incontinenti sobre o infeliz intruso. Cada uma queria concluir de verdade um prazer iniciado por um fatigante simulacro.





O animal, muito festejado, em pouco tempo se esgotou. Era preciso ver seu estado de torpor e prostração: sua bisnaga flácida e pendente, toda sua virilidade na mais negativa demonstração. Tive dificuldade em reanimar toda essa indigência quando chegou minha vez de também experimentar o exilir prolífico. Mas consegui. Deitada sobre o moribundo, minha cabeça entre suas coxas, chupei taõ habilmente o senhor Priapo adormecido que ele despertou rubicundo, vivaz de fazer gosto. Também eu, acariciada por uma língua ágil senti aproximar-se um incrível prazer, que finalizei sentando-me gloriosamente e em êxtase sobre o cetro que eu acabara de conquistar. Dei e recebi um dilúvio de volúpia.




Esse último excesso extenuou nosso homem. Tudo foi inútil para reanimá-lo. Acreditarias no que vou te dizer? Tão logo as freiras compreenderam que esse infeliz não servia para mais nada, decidiram, sem hesitar, que era preciso matá-lo e enterrá-lo num porão, de medo que suas indiscrições viessem a comprometer o convento. Em vão combati esse ato criminoso; em menos de um segundo foi retirada uma das lâmpadas e a vítima erguida em um nó corrediço. Desviei o olhar daquele horrível espetáculo... Mas eis que, para a grande surpresa dessas fúrias, o enforcamento  produziu seu efeito extraordinário. Maravilhada pela demonstração nervosa, a superiora subiu sobre uma banqueta e, aos aplausos frenéticos de suas dignas cúmplices, ela acoplou no ar com a morte, e se agarra a um cadáver! Não é o fim da história. Mito fina ou muito gasta para suportar esse duplo peso, a corda cede e se rompe. Morto e viva caem ao chão, tão rudemente que a freira tem os ossos quebrados e o enforcado, cujo estrangulamento foi mal executado, retorna à vida e ameaça, em sua tensão nervosa, estrangular a superiora.




O raio caindo sobre a multidão produz efeito menor do que essa cena sobre as freiras. Todas fugiram apavoradas, julgando que o diabo estivesse com elas. A superiora permaneceu sozinha a se debater com o intempestivo ressuscitado. A aventura devia acarretar terríveis consequências. Para evitá-las, escapei nessa mesma noite desse antro de crime e devassidão. [...]





FANNY

Estou em um estado horrível. Tenho desejos terríveis, monstruosos. Tudo o que sentiste de prazer ou de dor, eu também gostaria de sentir, já, agora mesmo!... Não poderás mais me satisfazer... Minha cabeça queima... gira... Oh! temo enlouquecer. [...] Quero morrer de excesso, quero gozar, enfim!... gozar!... gozar!...





GAMIANI

Calma, Fanny, calma! [...] O que queres?

FANNY

[...] Que tua boca me devore, que ela me sugue... [...] Oh! aquele jumento! ele também me atormenta. Eu queria um membro enorme, ainda que me partisse e me matasse.





GAMIANI

[...] Minha boca é hábil, e além do mais, eu trouxe um instrumento... Toma! observa... ele bem vale a ação de um jumento...





FANNY

Ah! É monstruoso! Dá, rápido, quero tentar!... Ai! Ai! impossível! Ele me sufoca!

GAMIANI

Não sabes manejá-lo. Isso é comigo; fica firme, apenas.







(Gamiani ou duas noites de orgia, de Afred de Musset; tradução de Plínio Augusto Coelho)





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