segunda-feira, 3 de março de 2014

PARIS, PAIXÃO E SEXO - "O TENRO PERVERTIDO"




(Paris, século XVIII - pont neuf - Albert Robida)

A ligação entre pornografia e política é uma das mais antigas tradições parisienses ainda vivas na cidade moderna. Argumenta-se que a literatura erótica do começo do século XVIII é a fonte de todas as formas subsequentes de liberdade política e artística em Paris - do carnavalesco Terror de 1789 ao alegre festival revolucionário de 1968. essa é a visão da diretora e atriz pornô "Ovidie", conforme expresso em seu livro Manifesto pornô, uma polêmica defesa da pornografia na qual ela argumenta que a indústria pornográfica contemporânea reflete desejos utópicos.


(Ovidie)

E foi por isso que, em uma fria manhã de setembro, eu combinei de conversar com ela em um café perto da rue Saint-Denis, o espalhafatoso coração da indústria sexual parisiense. Acima de tudo, eu queria perguntar quais conexões poderiam ser feitas entre as mais antigas tradições de libertinagem sexual em Paris e o frio espetáculo oferecido pelos supermercados de produtos pornôs, e pelos peep shows dos dias de hoje.



Ovidie era miúda, usava percings e vestia uma espécie de pijama preto, mantendo o olhar firme de uma pequena maoista. Ela começou a responder minhas perguntas citando os pensadores contemporâneos Jean Baudrillard, Georges Bataille e Guy Debord que, de formas diferentes, defendem que a liberdade total significa a total liberdade sexual, com todas as dificuldades existenciais que essa posição implica ("Quem nós fodemos e por quê?", como disse Ovidie). Ela mencionou a popularidade da pornografia na Paris pré-revolucionária, antes de explicar sua noção de que, por ser baseada em uma necessidade universal - se for literalmente colocada nas mãos certas - "a pornografia pode libertá-lo".




Ovidie prosseguiu me contando como ela mesma descobriu a pornografia no início da adolescência, na companhia de sua irmã. Disse que aquilo foi para ela uma revelação, na mesma tenra idade em que meros eventos físicos podem ser a fonte de tanto encantamento e aflição. E continuou: a pornografia é sobre nada mais do que a promessa da felicidade humana. A exploração física e econômica que estão inegavelmente envolvidas na indústria sexual são, em sua opinião, erradas apenas porque são uma traição à sua original, e bastante inocente, confiança. A exploração de mulheres em particular, disse ela, é uma traição aos objetivos originais de liberação da pornografia do século XVIII. É essa filosofia original igualitária que Ovidie alega recapturar em seu trabalho. Isso não exclui pagamento: é exatamente o oposto. "Eu fodo por dinheiro", me disse Ovidie. "E é claro que isso exige respeito."



Qualquer homem ou mulher racional respeitável do século XVIII teria entendido esse argumento no ato. A teoria que orientava a época era a de que fatos comprovados da matemática ou na ciência natural  ofereciam formas de conhecimento superiores àquelas das instituições hierárquicas da monarquia ou da religião. Mais do que isso, era dever moral de todo ser inteligente agir de acordo com esse princípio e desmascarar todas as ideias anteriores nocivas e códigos gerais de comportamento. Era, portanto, possível, e de fato na ocasião até necessário, ser um ardente moralista, ao mesmo tempo em que se opunha a todas as formas da moral tradicional.




Por isso, não foi acidental que a era da matemática tenha sido também a era da pornografia. A relação entre as duas formas de pensamento é mais próxima do que parece. Por exemplo, os pornógrafos do século XVIII, como boas personificações da ração e da ciência, eram obcecados por números e precisão geométrica em uma proporção involuntariamente hilária. Essa obsessão vem à tona não muito depois nos trabalhos do marquês de Sade, cujos frios gang-bangs ficcionais são pontuados por comandos severos de "dois ou três paus extras" ou, mais revelador, "alguma ordem nessas orgias, por favor".




A essa altura, a pornografia estava intimamente ligada à ascensão de uma nova classe pensadores, os libertins, que eram declaradamente ateus e céticos sob re todas as outras crenças estabelecidas, como o poder absoluto da monarquia. O sentido original do termo libertin indicava um humanista radical e livre pensador, proeminentes "libertinos" do governo de Luís XVI, como M. de Vauban e Pierre Boisguillebert, foram considerados os descendentes espirituais de Rabelais, Montaigne ou mesmo Boccaccio. Na época da morte de Luís, entretanto, só um implacável ataque de pensadores religiosos sofisticados, como Pascal e Bossuet, o termo libertin era usado como um insulto.



Era, de fato, difícil defender com grande dignidade títulos como A freira de camisola ou João, o libertino devasso. A marca desses livros era muitas vezes igualmente precisa em sua linguagem e clara em sua intenção ("À Anconne, chez la veuve Grosse-Motte" - "Na rua Avulva, na casa da viúva da boceta grande" era, por exemplo, um endereço fictício popular extremamente conhecido). O libertin (ou, de fato, libertino) era, porém, um tenro pervertido, um ateu que lutava contra a devoção supersticiosa adotando os prazeres terrenos e da carne. A pornografia era uma representação literária desse combate e estava indissoluvelmente associada a outros esforços contra o irracionalismo político e filosófico.




(A história secreta de Paris - Andrew Hussey; 

tradução de Fabiana de Carvalho; Editora Manole)



(Ilustrações de Jean-Baptiste Louvet de Couvray - 1760-1797)


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