segunda-feira, 17 de março de 2014

PARIS, PAIXÃO E SEXO - "É PRECISO REINVENTAR O AMOR"






Alguns parisienses estão do lado de Ovidie. Eles, na verdade, têm um orgulho ufanista de seu horror pelo puritanismo e ainda lamentam como os prazeres das pessoas foram arruinados pelo planejamento da cidade em mais de uma maneira.


À medida que a cidade ficava mais "moderna", por exemplo, o puritanismo público dominava. O primeiro e mais claro sinal disso foi a mudança do nome de ruas dominadas por bordéis em Les Halles. Em 1809, a rue Tire-Boudin ("Rua do Puxador de Salsicha") tornou-se a rue Marie-Stuart; a rue Trousse-Nonain, ou "Rua Freira-Trepadora", já disfarçada em documentos oficiais com Tasse-Nonian, virou rue Beaubourg; a rue de la Pute-y-Muse, ou "Rua da Puta que Vaga", passou  a ser Petit-Muse, enquanto toda a escatológica coleção de rues Merdeuse, Merdelet, Chieur e Chiard desapareceu dos novos mapas de Haussmann para a cidade racional e higiênica. As rues du Petit et du Gros-Cul (literalmente, "Pequeno e Grande Cu"), Gratte-Cul ("Arranha-Cu", na acepção mais literal, rua que abrigava alguns dos bordéis favoritos de Casanova) e du Poil-au-Con ("Boceta Peluda") também desapareceram na mesma época, embora, como notou ironicamente um observador contemporâneo, os estabelecimentos que haviam inspirado os nomes das ruas tenham continuado a oferecer aos seus fregueses a democrática tradição da liberdade de escolha.






Os últimos traços dessa tradição são visíveis apenas na Paris central. Um deles, segundo a própria Ovidie - Le Beverly, o único cinema pornô que restou no centro de Paris -, estava preparando-se para fechar as portas de vez. Esse cinema fica na ponta extrema do distrito da luz vermelha da rue Saint-Denis, quase, mas não exatamente, na área de Montorgeuil Saint-Denis, que passa por um rápido enobrecimento urbano. Acima da porta há uma fotografia do poeta Rimbaud e sua famosa frase "Il faut réinventer l'amour" ("È preciso reinventar o amor"). Um quadro escrito com caneta hidrográfica oferece preços especiais para casais nas noites de quinta-feira. Há um apelo suave ali, assim como um perverso e desavergonhado exibicionismo.





A maioria dos cinemas pornôs de estilo antigo em Paris desapareceu nos anos 1980 vítima da explosão do comércio de vídeos e aparições regulares de pornografia hardcore na tevê aberta. Le Beverly de alguma forma sobreviveu aos anos 1990. A maioria dos frequentadores que agora aparecem são visivelmente tradicionalistas. Alguns deles parecem até velhos demais para estarem interessados em sexo - talvez venham apenas pela companhia e em nome da lealdade. Ouros parecem tão sinistros quanto encabulados. Um punhado de imigrantes do terceiro mundo senta-se em suas poltronas, fumando.






Le Beverly nunca foi respeitável - a atmosfera na escuríssima salle de spetacle era tensa e ardente, com muito mais que indícios de um perigo físico real. Mas visitar esse lugar, em toda sua sórdida glória, era viajar a uma época remota: um tempo no qual exibir sexo em um espaço público era uma transgressão real. Nestes dias, um curto passeio descendo até a rue Saint-Denis ou através das ruelas da Pigalle, onde DVDs pornôs estão à venda a preços baixos, revela que a realidade é o oposto. Eu deixei Le Beverly intrigado, mas não muito convencido do argumento de Ovidie de que escrever ou exibir seja seja em si uma genuína declaração subversiva de intenção erótica obstinada e sem culpa. Esse pode ter sido o caso no século XVIII, ou mesmo nos anos 1970, ma hoje me dia sinto que a visão do escritor Michel Houellebecq - que em um de seus poemas descreve brilhantemente e com uma chocante precisão como a tediosa rotina de punhetas e peep shows combina com as horas de expediente no centro da cidade - era, de fato, uma versão tristemente precisa da Paris do século XXI.






"Nossa civilização sofre de exaustão vital", Houellebecq escreve em outra ocasião:

No século de Luís XIV, quando o apetite pela vida era grande, a cultura oficial tinha seu foco na negação do prazer e da carne; repetia insistentemente que a vida mundana pode oferecer apenas alegrias imperfeitas, que a única fonte de felicidade verdadeira está em Deus. Tal discurso (...) não seria tolerado hoje. Precisamos de aventura e erotismo porque precisamos ouvir nós mesmo repetindo que a vida é maravilhosa e excitante; e é bastante claro que preferimos duvidar disso.





Ao me distanciar de Le Beverly, pareceu-me que essa teoria explicava, se não justificava, os rostos apagados e assustados das garotas por quem passei na rue du Caire.




                     




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