segunda-feira, 24 de março de 2014

ATRAÇÃO, TESÃO E SACANAGENS DE... CARLOS ZÉFIRO -1





(Capa original - Toni D'Agostinho)

Quando pedi ao meu amigo Toni d'Agostinho para desenhar a capa de meu livro, ATRAÇÃO, TESÃO E SACANAGEM, uma coletânea de contos, aceitei com satisfação sua sugestão de produzir um desenho inspirado nos "catecismos" de Carlos Zéfiro. Já a ele dediquei um post, nesta Lua, mas volto ao nosso sacana-mor, para mais alguns esclarecimentos.


UMA VIDA COMUM, PARA UM PORNÓGRAFO





Carlos Zéfiro era o pseudônimo de Alcides Aguiar Caminha (1921 - 1992), carioca  e funcionário público do setor de Imigração do Ministério do Trabalho a vida toda. Casado desde os 25 anos, com dona Serat Caminha teve 5 filhos e sempre escondeu de toda a família sua atividade paralela de desenhista.






Ilustrou e publicou, durante as décadas de 50 a 70, histórias em quadrinhos de cunho erótico que ficaram conhecidas por "catecismos", tendo cerca de 500 trabalhos reconhecidos. Eram quase sempre desenhados, os catecismos, em preto e branco com tamanho de 1/4 de folha ofício, um quadro por página, contendo de 24 a 32 páginas. Eram vendidos dissimuladamente em bancas de jornais, devido ao seu conteúdo porno-erótico, e chegaram a tiragens de 30.000 exemplares.





Seus gibis eram inspirados em quadrinhos românticos mexicanos publicados pela editora Editormex (cujas histórias possuíam apenas dois quadros por página) e em fotonovelas pornográficas de origem sueca. O nome Carlos Zéfiro foi tirado de um autor mexicano de fotonovelas.






O jornalista Gonçalo Júnior afirma que os catecismos de Zéfiro não possuem nenhuma relação com os "tijuana bibles" (aguarde!), quadrinhos eróticos publicados nos Estados Unidos entre as décadas de 1930 e 1950. Sua identidade somente se tornou pública em uma reportagem de Juca Kfouri para Revista Playboy (onde era editor na época) que foi publicada em 1991, um ano antes de sua morte.





Autodidata no desenho, somente concluiu o curso de segundo grau quando tinha 58 anos, teve de manter o anonimato porque a Lei 1.711 de 1952  poderia punir com a demissão o funcionário público que tivesse "incontinência pública escandalosa" e retirar os proventos com os quais mantinha a família. E os quadrinhos, claro, eram bastante escandalosos para a sociedade da época.






Os "catecismos" eram desenhados diretamente sobre papel vegetal, eliminando assim a necessidade do fotolito, e impresso em diferentes gráficas em diferentes estados da Federação, gerando, inclusive, diversos imitadores. Em 1970, durante a ditadura militar, foi realizada em Brasília uma investigação para descobrir o autor daquelas obras pornográficas. Chegou-se a prender por três dias o editor Hélio Brandão, amigo do artista, mas a investigação terminou inconclusa.






Alcides Caminha/Carlos Zéfiro só teve algum reconhecimento após a sua morte, com a publicação de artigos e livros sobre sua obra; a cantora Marisa Monte, em 1997, ilustrou seu CD, Barulhinho Bom, com desenhos de Zéfiro; e em agosto de 1999, em Anchieta, bairro em que morava, foi inaugurada a Lona Cultural Carlos Zéfiro, com show da Velha Guarda da Portela e Marisa Monte. Em Janeiro de 2011, os trabalhos de Zéfiro foram expostos ao lado de outros quadrinhos eróticos do resto mundo no Museu do Sexo, em Nova Iorque. Em março de 2011, Zéfiro foi tema da peça de teatro "Os catecismos segundo Carlos Zéfiro" escrita e dirigida por Paulo Biscaia Filho.






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