segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

PARIS, PAIXÃO E SEXO - UM "MANIFESTO PORNÔ"



(Paris - século XVIII - autor não identificado)


"Paris desperta fortes emoções." Assim Andrew Hussey começa sua longa história de uma das cidades mais emblemáticas do mundo, para dizer o mínimo. O livro é A HISTÓRIA SECRETA DE PARIS  ou "como ladrões, vigaristas, cruzados, santas, prostitutas, déspotas, anarquistas, poetas e sonhadores transformaram um povoado gaulês na cidade luz da Europa". Destruída e reconstruída dezenas de vezes, Paris não só desperta emoções, mas a nossa imaginação, quando se fala de amor, erotismo, sexo, paixão... Por isso, desse autor, reproduzo algumas páginas de seu livro, em vários posts, para tratar exatamente daquilo que é o assunto principal (ou único) deste blog, o sexo. As ilustrações não estão no livro, mas foram escolhidas por sua ligação com o tema ou com a cidade. Divirtam-se.

MANIFESTO PORNÔ


Sempre existiu uma poderosa tradição de literatura obscena ou erótica em Paris. Esse gênero floresceu particularmente a partir do século XII. Dali em diante, parisienses de todas as classes estariam acostumados aos poemas humorísticos como La Demoisele Qui ne Pooit Oïr Parler de Foutre  ("A garota que não podia ouvir falar de foda") ou La Veuve ("A viúva"). Os autores desses poemas eram anônimos ou há muito esquecidos, mas as histórias em si entraram profundamente no folclore parisiense.. Muitos desses poemas, como Le Chevalier Qui Fist Parler Les Cons ("O cavaleiro que fazia bocetas falarem"), eram admirados não apenas por seu conteúdo vulgar, mas também por sua sofisticação e atrevida sagacidade.


De fato, esse último poema (escrito por um parisiense chamado Garin no século XIII) foi a inspiração para o conto Les Bijoux Indiscrets ("As joias indiscretas", 1748), de Denis Diderot - a história de um rei que possui anel mágico que faz os genitais das damas de sua corte falarem. Como um homem da razão e da ciência, um filósofo e ateu, Diderot decidiu que tinha uma obrigação moral de atacar todas formas de superstição, incluindo a do poder real. Les bijoux indiscrets é uma alegoria mordaz satirizando as mentiras, falsidade e completas desonestidades da vida na corte de Luís XV em Versalhes. Como tal, é também um bom exemplo de como a popularidade da literatura erótica no século XVIII reside no fato de ela ter sido muitas vezes explicitamente política.


Paris tinha agora as mais modernas instalações para a produção e distribuição de livros e, o mais importante, um mercado de leitores educados e semieducados sedentos por conhecimento, esclarecimento e entretenimento. O aumento da alfabetização não levou necessariamente a um amento na propriedade de livros, mas meso o mais simples empregado podia ler o jornal de seu patrão ou uma revista em casa ou em um café. Portanto, ler pornografia, no café ou em casa, era uma atividade aberta a todas as classes da sociedade.


As recém-estabelecidas livrarias parisienses do começo do século XVIII eram lugares barulhentos e sociáveis. Como registrado por um comentarista, grupos de leitores ficavam em pé "como que hipnotizados ao redor do balcão; eles ficam no caminho do dono da livraria, que retirou todos os assentos para forçá-los a ficar em pé; mas isso não os impede de permanecer horas debruçados sobre livros, ocupados, folheando panfletos, fazendo julgamentos antecipados de seus méritos e destinos". As mais famosas livrarias eram elegantes e carregadas de sexualidade. As mais célebres eram aquelas nas arcadas do Palais-Royal, que concentravam muito envaidecimento intelectual e discretos flertes durante o dia. Entre elas estavam estabelecimentos como a Librairie Pierre-Honoré-Antoine Pain, cuja lista de livros mais vendidos incluía títulos como Le Parnasse des Poètes Satyriques (uma antologia de poemas eróticos), Thérèse Philosophe (a introdução de uma jovem à sexualidade) ou L'Enfant du Bordel ("A criança do bordel"), no qual uma das heroínas era "dotada de um clitóris que envergonharia o mais belo tornozelo na França".


Muitas dessas livrarias ficavam abertas até tarde da noite, quando o Palais-Royal ficava lotado de prostitutas, dândis e diversos tipos de aventureiros sexuais. Ler um texto erótico à luz de uma vela em uma dessas lojas era para muitos rapazes e moças da época o equivalente do século XVIII a um aperitivo sexual, um aguçado estimulante físico antes de aventurar-se pelas ruas escuras da cidade em busca de satisfação.




 (A história secreta de Paris - Andrew Hussey; 
tradução de Fabiana de Carvalho; Editora Manole)


(Ilustrações de Antoine Borel - 1743-1810 - para os livros 
L'Aretin François e Thérèse Philosophe)


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