segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

PARIS, PAIXÃO E SEXO - "O UNDERGROUND LITERÁRIO"




(Paris -  século XVIII - bouquiniste - a. não identificado)


Acompanhando o crescimento da leitura como uma atividade moderna vieram os bouquinistes. Esses eram livreiros mais pobres e desesperados que surgiram em Paris no século XVI vendendo seus produtos ao ar livre ao longo da Pont-Neuf. Inicialmente chamados de estaleurs (mercadores de rua), eles eram famosos por vender livretos protestantes clandestinos durante as guerras religiosas. As autoridades os reprimiam como ladrões ou subversivos. No século XVIII, eles tinham se tornado semirrespeitáveis, suas tendas eram frequentadas principalmente por estudantes e eles passaram a ser conhecidos como bookinistes ou bouquinistes (do termo flamengo boekin, "livrinho"). Eles também haviam se espalhado pelo Sena, ocupando mais ou menos as posições que mantêm agora.

As autoridades faziam tentativas frequentes de retirá-los, mas cada uma das sucessivas ondas de problemas em Paris, da fome às revoltas da Fronde, dava a eles um mercado pronto de leitores entusiasmados em devorar panfletos ilegais condenando o rei ou atacando o governo da época. Em 1732, as margens do Sena estavam lotadas com mais de 120 bouquinistes, alimentando os apetite dos parisienses por política e pornografia.


Paris foi, de fato, lar de um enorme grupo de literatura underground durante esse período. Muito era importado de Amsterdã ou Bruxelas, mas grande parte também era produção caseira e escandalizava os leitores com relatos detalhados e cheios de conhecimento da vida da cidade. Política (ou às vezes lugares) e erotismo estavam muitas vezes de mãos dadas, e as autoridade municipais e reais achavam quase impossível manter controle sobre o que estava sendo vende onde e por quem. Se um livro não estivesse à venda no Palais-Royal, ele poderia facilmente ser encontrado chez les bouquinistes; se isto não fosse possível, ele poderia ser comprado dos colporteurs, livreiros itinerantes e escribas que não se estabeleciam em um ponto como os bouquinistes e distribuíam suas mercadorias pela cidade, em cafés, tavernas e salons.

O colporteur, como o bouquiniste, havia de fato sido parte da rotina da vida parisiense desde o século XVI, quando as taxas de alfabetização cresceram e ler se tornou uma atividade diária, em vez de uma marca da elite privilegiada. Ele era basicamente um vendedor ambulante, um trapaceiro de rua sempre alerta às autoridades. Colporteurs podiam ser encontrados na maioria das esquinas de Paris vendendo livros em uma banquinha, com os textos mais incendiários ou sexuais escondidos sob um papier bleu. Como uma testemunha da época observou:


Os investigadores da polícia declaram guerra aos  colporteurs, uma raça de homens que vende os únicos livros bons que ainda podem ser lidos na França, e que são consequentemente banidos. Eles são tratados horrivelmente; todos os cães da polícia perseguem essas pobres criaturas que não sabem o que estão vendendo e esconderiam a Bíblia sob suas capas se o tenente da polícia decidisse banir a Bíblia. Eles são postos na Bastilha por vender livretos tolos que serão esquecidos amanhã.
Os parisienses devoravam todo tipo de texto dos colporteurs: livros de magia, almanaques, comédias (Les Adieux de Tabarin - a versão em texto do número do artista de rua Tabarin era um campeão de vendas), guias burlescos de Paris (Le Déjeuneur de La Rapée - literalmente, "O almoço ralado" - era uma versão famosamente escatológica da cidade), dicionários de gírias ou um guia para peidos.

O público também gostava de fatos que fossem bizarros ou puramente sinistros. Os eventos relatados nos jornais entre 1716 e 1717 incluíam, por exemplo, um casamento na igreja de Saint-Eustache entre um noivo de 105 anos e uma noiva de 95; a virada de um barco e o afogamento de seu carregamento de lavadeiras no Sena congelado, com as cabeças delas apontando acima do gelo e os corpos presos abaixo; o corpo de uma menina amarrada a uma estaca, congelada até a morte, nas cercanias de Saint-Denis; e a descoberta, em uma rua de Faubourg Saint-Marceau, de uma menina torrada em um espeto, "como o espeto atravessando sua cabeça". Mais populares do que tudo, porém, entre todas as classes de leitores, eram os textos eróticos que se opunham à moralidade pública em nome da liberdade.


Muito antes, porém, a pornografia era inteiramente funcional tanto como guia quanto como entretenimento. Ela fornecia endereços e o cardápio de serviços nos bem conhecidos bordéis, como o Les Gros Millan, na rue du Beaujolais, ou Le Grand Balcon, na rue Croix-des-Petits-Champs. O gênero logo virou um entretenimento propriamente dito e grande parte da energia da polícia era gasta na perseguição aos impressores, editores e leitores de trabalhos considerados anticristãos e antissociais, mas que a maioria dos parisienses acreditava tornar sua vida melhor tanto qualquer de seus outros prazeres.




(A história secreta de Paris - Andrew Hussey; 

tradução de Fabiana de Carvalho; Editora Manole)


(Ilustrações de autor não identificado, para o livro "A História de Juliette", do Marquês de Sade - 1740-1814)


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