segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

UM ANTES E DEPOIS AINDA MAIS DIFERENTE...



Sandra Bianco é uma fotógrafa estadunidense especializada em fotos de crianças. Belas e inocentes fotos de meninos e meninas. Veio parar neste blog nada inocente por uma bela e sensual ideia. Primeiro, ela se inspirou numa outra fotógra - Tina Boyd-, também estadunidense, mas especializada em fotos de família, casais com filhos, mulheres grávidas, às vezes inocentes, às vezes com um pouco de sensualidade. Foi o caso desta foto:





Resolveu, então, a nossa Sandra, que tinha uma amiga grávida de 35 semanas, fotografá-la na mesma situação. Vejam que a foto é extremamente semelhante:





Duas semanas depois que o bebê nasceu, ela repetiu a foto (infelizmente não no mesmo lugar, mas em outro muito parecido), com a mesma pose:






Sem dúvida, um show de sensualidade, mas principalmente, uma lição para todas as grávidas, lição que já aqui mesmo tivemos ocasião de deixar clara e que há muitos anos a nossa grande Leila Diniz já havia anunciado: gravidez e maternidade não deixam a mulher menos bela ou menos sensual. Às vezes, muito ao contrário.



(Foto da internet/sem indicação de autoria)



segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

PARIS, PAIXÃO E SEXO - "O UNDERGROUND LITERÁRIO"




(Paris -  século XVIII - bouquiniste - a. não identificado)


Acompanhando o crescimento da leitura como uma atividade moderna vieram os bouquinistes. Esses eram livreiros mais pobres e desesperados que surgiram em Paris no século XVI vendendo seus produtos ao ar livre ao longo da Pont-Neuf. Inicialmente chamados de estaleurs (mercadores de rua), eles eram famosos por vender livretos protestantes clandestinos durante as guerras religiosas. As autoridades os reprimiam como ladrões ou subversivos. No século XVIII, eles tinham se tornado semirrespeitáveis, suas tendas eram frequentadas principalmente por estudantes e eles passaram a ser conhecidos como bookinistes ou bouquinistes (do termo flamengo boekin, "livrinho"). Eles também haviam se espalhado pelo Sena, ocupando mais ou menos as posições que mantêm agora.

As autoridades faziam tentativas frequentes de retirá-los, mas cada uma das sucessivas ondas de problemas em Paris, da fome às revoltas da Fronde, dava a eles um mercado pronto de leitores entusiasmados em devorar panfletos ilegais condenando o rei ou atacando o governo da época. Em 1732, as margens do Sena estavam lotadas com mais de 120 bouquinistes, alimentando os apetite dos parisienses por política e pornografia.


Paris foi, de fato, lar de um enorme grupo de literatura underground durante esse período. Muito era importado de Amsterdã ou Bruxelas, mas grande parte também era produção caseira e escandalizava os leitores com relatos detalhados e cheios de conhecimento da vida da cidade. Política (ou às vezes lugares) e erotismo estavam muitas vezes de mãos dadas, e as autoridade municipais e reais achavam quase impossível manter controle sobre o que estava sendo vende onde e por quem. Se um livro não estivesse à venda no Palais-Royal, ele poderia facilmente ser encontrado chez les bouquinistes; se isto não fosse possível, ele poderia ser comprado dos colporteurs, livreiros itinerantes e escribas que não se estabeleciam em um ponto como os bouquinistes e distribuíam suas mercadorias pela cidade, em cafés, tavernas e salons.

O colporteur, como o bouquiniste, havia de fato sido parte da rotina da vida parisiense desde o século XVI, quando as taxas de alfabetização cresceram e ler se tornou uma atividade diária, em vez de uma marca da elite privilegiada. Ele era basicamente um vendedor ambulante, um trapaceiro de rua sempre alerta às autoridades. Colporteurs podiam ser encontrados na maioria das esquinas de Paris vendendo livros em uma banquinha, com os textos mais incendiários ou sexuais escondidos sob um papier bleu. Como uma testemunha da época observou:


Os investigadores da polícia declaram guerra aos  colporteurs, uma raça de homens que vende os únicos livros bons que ainda podem ser lidos na França, e que são consequentemente banidos. Eles são tratados horrivelmente; todos os cães da polícia perseguem essas pobres criaturas que não sabem o que estão vendendo e esconderiam a Bíblia sob suas capas se o tenente da polícia decidisse banir a Bíblia. Eles são postos na Bastilha por vender livretos tolos que serão esquecidos amanhã.
Os parisienses devoravam todo tipo de texto dos colporteurs: livros de magia, almanaques, comédias (Les Adieux de Tabarin - a versão em texto do número do artista de rua Tabarin era um campeão de vendas), guias burlescos de Paris (Le Déjeuneur de La Rapée - literalmente, "O almoço ralado" - era uma versão famosamente escatológica da cidade), dicionários de gírias ou um guia para peidos.

O público também gostava de fatos que fossem bizarros ou puramente sinistros. Os eventos relatados nos jornais entre 1716 e 1717 incluíam, por exemplo, um casamento na igreja de Saint-Eustache entre um noivo de 105 anos e uma noiva de 95; a virada de um barco e o afogamento de seu carregamento de lavadeiras no Sena congelado, com as cabeças delas apontando acima do gelo e os corpos presos abaixo; o corpo de uma menina amarrada a uma estaca, congelada até a morte, nas cercanias de Saint-Denis; e a descoberta, em uma rua de Faubourg Saint-Marceau, de uma menina torrada em um espeto, "como o espeto atravessando sua cabeça". Mais populares do que tudo, porém, entre todas as classes de leitores, eram os textos eróticos que se opunham à moralidade pública em nome da liberdade.


Muito antes, porém, a pornografia era inteiramente funcional tanto como guia quanto como entretenimento. Ela fornecia endereços e o cardápio de serviços nos bem conhecidos bordéis, como o Les Gros Millan, na rue du Beaujolais, ou Le Grand Balcon, na rue Croix-des-Petits-Champs. O gênero logo virou um entretenimento propriamente dito e grande parte da energia da polícia era gasta na perseguição aos impressores, editores e leitores de trabalhos considerados anticristãos e antissociais, mas que a maioria dos parisienses acreditava tornar sua vida melhor tanto qualquer de seus outros prazeres.




(A história secreta de Paris - Andrew Hussey; 

tradução de Fabiana de Carvalho; Editora Manole)


(Ilustrações de autor não identificado, para o livro "A História de Juliette", do Marquês de Sade - 1740-1814)


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

POR QUE OS HOMENS FAZEM ISSO?




Não gosto da expressão "politicamente correto", até porque se for levar a sério isso, não conseguiria publicar este blog. Mas, de vez em quando, dou meus recados "corretos", ou mais precisamente, "éticos", em termos de relacionamento entre as pessoas no que se refere a sexo. Já que é de sexo que trato aqui, sempre. Lembram o post sobre os vestidinhos curtos das mulheres? Pois, é: o recado pode ter sido um pouco (só um pouco) sutil. Então, hoje vou ser mais explícito: adoro uma sacanagem, e acho que todo mundo também gosta. Mas sacanagem que envolva outra pessoa tem que ser consensual. E sem assédio, sem forçar a barra. Que isso, mais do que ser "politicamente correto", é sadio, é gostoso e, principalmente, sadio e gostoso para todos.






Bem, vou dar a palavra a Thaïs Gualberto, do site indicado lá embaixo, com um recado importante que, de certa forma, justifica a pergunta do título. A tira também é da autora e as demais ilustrações, de Apollonia Saintclair.


O SILÊNCIO DAS INOCENTES






Esta semana produzi uma tira sobre um fato que ocorreu comigo na infância e me marcou profundamente. Como ocorre com a maioria das mulheres no Brasil (quiçá no mundo), fui abordada por estranhos na rua que acharam oportuno me mostrar seu pênis (usei o termo “pau” na tira, mas acharam engraçado, então para ninguém se confundir quanto ao teor do texto, preferi recorrer ao termo científico). Na segunda vez em que isso ocorreu eu tinha cerca de 11 anos, mas na primeira eu sequer lembro que idade tinha.


Por ser um assunto delicado, muitas pessoas preferem não falar a respeito, mas ao ler a tira, várias outras mulheres comentaram que o mesmo havia ocorrido com elas, um estranho no ônibus ou mesmo um colega da escola. Segundo a pesquisa feita no site thinkolga.com, de 7.762 mulheres, 99,6% responderam que já foram assediadas sexualmente. Dentre outras estatísticas, 90% das mulheres responderam que já trocaram de roupa pensando no lugar onde iriam por medo de assédio, 82% foram agarradas na balada e 68% já foram xingadas por dizer não à cantada de alguém.


Se esse é um fato tão comum, por que é tão pouco discutido? Porque é subestimado. Em um grupo de discussão me apresentaram o termo gaslighting, oriundo do filme À Meia Luz (Gaslight, 1944), de George Cuckor, onde o marido de Paula Alquist (Ingrid Bergman) tenta convencer a ela e aos demais que sua mulher está louca. Segundo o Wikipédia, “gaslighting é uma forma de violência psicológica na qual uma falsa informação é apresentada na intenção de fazer a vítima duvidar da própria memória, percepção e sanidade”. Dadas as devidas proporções, a maior parte das mulheres se sente violada quando sofre qualquer forma de assédio sexual, mas acaba se convencendo (ou sendo convencida) de que está exagerando e no fim das contas, felizmente não aconteceu nada mais sério.




Se você duvida, mostre esse texto a um número considerável de pessoas e veja quantas consideram que estou exagerando, quantas acham que eu preciso de um tanque de roupa suja pra lavar e quantas acham que eu sou “malcomida”. Isso só pra mencionar os termos mais comuns quando qualquer tentativa de se fazer mostrar uma situação incômoda para as mulheres ocorre. Mas enquanto acham que eu estou exagerando, esse tipo de situação tem ocorrido com bastante frequência ao longo da vida das suas mães, irmãs e namoradas. E isso as traumatiza. Eu deixei de andar de bicicleta, mas a Joana deixou de andar de ônibus, a Clarice deixou de usar saias e a Denise não consegue mais confiar nos homens.










segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

PARIS, PAIXÃO E SEXO - UM "MANIFESTO PORNÔ"



(Paris - século XVIII - autor não identificado)


"Paris desperta fortes emoções." Assim Andrew Hussey começa sua longa história de uma das cidades mais emblemáticas do mundo, para dizer o mínimo. O livro é A HISTÓRIA SECRETA DE PARIS  ou "como ladrões, vigaristas, cruzados, santas, prostitutas, déspotas, anarquistas, poetas e sonhadores transformaram um povoado gaulês na cidade luz da Europa". Destruída e reconstruída dezenas de vezes, Paris não só desperta emoções, mas a nossa imaginação, quando se fala de amor, erotismo, sexo, paixão... Por isso, desse autor, reproduzo algumas páginas de seu livro, em vários posts, para tratar exatamente daquilo que é o assunto principal (ou único) deste blog, o sexo. As ilustrações não estão no livro, mas foram escolhidas por sua ligação com o tema ou com a cidade. Divirtam-se.

MANIFESTO PORNÔ


Sempre existiu uma poderosa tradição de literatura obscena ou erótica em Paris. Esse gênero floresceu particularmente a partir do século XII. Dali em diante, parisienses de todas as classes estariam acostumados aos poemas humorísticos como La Demoisele Qui ne Pooit Oïr Parler de Foutre  ("A garota que não podia ouvir falar de foda") ou La Veuve ("A viúva"). Os autores desses poemas eram anônimos ou há muito esquecidos, mas as histórias em si entraram profundamente no folclore parisiense.. Muitos desses poemas, como Le Chevalier Qui Fist Parler Les Cons ("O cavaleiro que fazia bocetas falarem"), eram admirados não apenas por seu conteúdo vulgar, mas também por sua sofisticação e atrevida sagacidade.


De fato, esse último poema (escrito por um parisiense chamado Garin no século XIII) foi a inspiração para o conto Les Bijoux Indiscrets ("As joias indiscretas", 1748), de Denis Diderot - a história de um rei que possui anel mágico que faz os genitais das damas de sua corte falarem. Como um homem da razão e da ciência, um filósofo e ateu, Diderot decidiu que tinha uma obrigação moral de atacar todas formas de superstição, incluindo a do poder real. Les bijoux indiscrets é uma alegoria mordaz satirizando as mentiras, falsidade e completas desonestidades da vida na corte de Luís XV em Versalhes. Como tal, é também um bom exemplo de como a popularidade da literatura erótica no século XVIII reside no fato de ela ter sido muitas vezes explicitamente política.


Paris tinha agora as mais modernas instalações para a produção e distribuição de livros e, o mais importante, um mercado de leitores educados e semieducados sedentos por conhecimento, esclarecimento e entretenimento. O aumento da alfabetização não levou necessariamente a um amento na propriedade de livros, mas meso o mais simples empregado podia ler o jornal de seu patrão ou uma revista em casa ou em um café. Portanto, ler pornografia, no café ou em casa, era uma atividade aberta a todas as classes da sociedade.


As recém-estabelecidas livrarias parisienses do começo do século XVIII eram lugares barulhentos e sociáveis. Como registrado por um comentarista, grupos de leitores ficavam em pé "como que hipnotizados ao redor do balcão; eles ficam no caminho do dono da livraria, que retirou todos os assentos para forçá-los a ficar em pé; mas isso não os impede de permanecer horas debruçados sobre livros, ocupados, folheando panfletos, fazendo julgamentos antecipados de seus méritos e destinos". As mais famosas livrarias eram elegantes e carregadas de sexualidade. As mais célebres eram aquelas nas arcadas do Palais-Royal, que concentravam muito envaidecimento intelectual e discretos flertes durante o dia. Entre elas estavam estabelecimentos como a Librairie Pierre-Honoré-Antoine Pain, cuja lista de livros mais vendidos incluía títulos como Le Parnasse des Poètes Satyriques (uma antologia de poemas eróticos), Thérèse Philosophe (a introdução de uma jovem à sexualidade) ou L'Enfant du Bordel ("A criança do bordel"), no qual uma das heroínas era "dotada de um clitóris que envergonharia o mais belo tornozelo na França".


Muitas dessas livrarias ficavam abertas até tarde da noite, quando o Palais-Royal ficava lotado de prostitutas, dândis e diversos tipos de aventureiros sexuais. Ler um texto erótico à luz de uma vela em uma dessas lojas era para muitos rapazes e moças da época o equivalente do século XVIII a um aperitivo sexual, um aguçado estimulante físico antes de aventurar-se pelas ruas escuras da cidade em busca de satisfação.




 (A história secreta de Paris - Andrew Hussey; 
tradução de Fabiana de Carvalho; Editora Manole)


(Ilustrações de Antoine Borel - 1743-1810 - para os livros 
L'Aretin François e Thérèse Philosophe)