segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

QUANDO O CORAÇÃO DISPARA






Amor, tesão. Sexo. Paixões proibidas. Insinuações eróticas. Desejo. Erotismo e religiosidade. O santo não é, assim, tão santo. E a moça, bem, a moça é carne e tesão. Mesmo que o amor/tesão tenha chegado um pouco cedo. E provoque na menina o espanto e mais desejo.

Um universo erótico, em que nada escapa, nem as galinhas. E, claro, os rapazes, desde aquele que "palita os dentes" até o frei. E eles estão no quintal, onde há bananeiras que viram mar; no armazém, espreitando entre sacas de grãos; ou atrás dos muros dos quartéis ou pulando muros... Também, com essa vizinhança!

Estamos falando de ADÉLIA PRADO.

Seu erotismo sutil, ou não. Mas sempre belo, sempre poético.

De seu livro O CORAÇÃO DISPARADO, os poemas que constitui o "capítulo" denominado "o coração disparado e a língua seca", uma série de poemas de dar água na boca, embora água não seja o amor, ou o tesão.

Para fazer um jogo de oposião à sutileza mineira de Adélia, convoco o pintor italiano AURELIO PERNICE, com suas madonas estilizadas e exageradas, suas cores intensas. Minas e Itália, uma mistura que nunca vai dar samba nem tarantella, mas pode provocar, já que tanto a mineira quanto o italiano o fazem, cada um de seu jeito, recolhido ou despachado. Divirtam-se, pois.


1. MOÇA NA SUA CAMA





Papai tosse, dando aviso de si,
vem examinar as tramelas, uma a uma.
A cumeeira da casa é de peroba do campo,
posso dormir sossegada. Mamãe vem me cobrir,
tomo a bênção e fujo atrás dos homens,
me contendo por usura, fazendo render o bom.
Se me tocar, desencadeio as chusmas,
os peixezinhos cardumes.
Os topázios me ardem onde mamãe sabe,
por isso ela me diz com ciúmes:
dome logo, que é tarde.
Sim, mamãe, já vou:
passear na praça sem ninguém me ralhar.
Adeus, que me cuido, vou campear nos becos,
moa de moços no bar, violão e olhos
difíceis de sair de mim.
Quando esta nossa cidade ressonar em neblina,
os moços marianos vão me esperar na matriz.
O céu é aqui, mamãe.
Que bom não ser livro inspirado
o catecismo da doutrina cristã,
posso adiar meus escrúpulos
e cavalgar no torpor
dos monsenhores podados.
Posso sofrer amanhã
a linda nódoa de vinho
das flores murchas no chão.
As fábricas têm os seus pátios,
os muros têm seu atrás.
No quartel são gentis comigo.
Não quero chá, minha mãe,
quero a mão de frei Crisóstomo
me ungindo com óleo santo.
Da vida quero paixão.
E quero escravos, sou lassa.
Com amor de zanga e momo
quero minha cama de catre,
o anjo santo do Senhor,
meu zeloso guardador.
Mas descansa, que ele é eunuco, mamãe.


2. DIA




As galinhas com susto abrem o bico
e param daquele jeito imóvel
- ia dizer imoral-
as barbelas e as cristas envermelhadas,
só as artérias palpitando no pescoço.
Uma mulher espantada com sexo:
mas gostando muito.

3. BAIRRO




O rapaz acabou de almoçar
e palita os dentes na coberta.
O passarinho recisca e joga no cabelo do moço
excremento e casca de alpiste.
Eu acho feio palitar os dentes,
o rapaz só tem a escola primária
e fala errado que arranha.
Mas tem um quadril de homem tão sedutor
que eu fico amando ele perdidamente.
Rapaz desses
gosta muito de comer ligeiro:
bife com arroz, rodela de tomate
e ir no cinema
com aquela cara de invencível fraqueza
para os pecados capitais.
Me põe tão íntima, simples,
tão à flor da pele o amor,
o samba-canção,
o fato de que vamos morrer
e como é bom a geladeira,
o crucifixo que mamãe lhe deu,
o cordão de ouro sobre o frágil peito
que.
Ele esgravata os dentes com o palito,
esgravata é meu coração de cadela.


4. CANÍCULA





Ao meio dia, deságua o amor,
os sonhos mais frescos e intrigantes;
estou onde estão as torrentes.
Ao redor da casa grande espaça um quintal sem cercas,
tomado de bananeiras, só bananeiras,
altas como coqueiros.
Chego e é na beira do mar encrespado de correntezas,
sorvedouros azuis.
Há um perigo sobre faixa exígua
que é de areia e é branca.
Quero braceletes
e a companhia do macho que escolhi.


5. GÊNERO





Desde um tempo antigo até hoje,
quando um homem segura minha mão,
saltam duas lembranças guarnecendo
a secreta alegria do meu sangue:
a bacia da mulher é mais larga que a do homem,
em função da maternidade.
O Osvaldo Bonitão estão pulando o muro de dona Gleides.
A primeira, eu tirei de um livro de anatomia,
a segunda, de um cochilo de Maria Vilma.
Oh! por tão pouco incendiava-me?
Eu sou feita de palha,
mulher que os gregos desprezariam?
Eu de barro e oca.
Eu sou barroca.


6. CORRIDINHO






O amor quer abraçar e não pode.
A multidão em volta,
com seus olhos cediços,
põe caco de vidro no muro
para o amor desistir.
O amor usa o correio,
o correio trapaceia,
a carta não chega,
o amor fica sem saber se é ou não é.
O amor pega o cavalo,
desembarca do trem,
chega na porta cansado
de tanto caminhar a pé.
Fala a palavra açucena,
pede água, bebe café,
dorme na sua presença,
chupa bala de hortelã.
Tudo manha, truque, engenho:
é descuidar, o amor te pega,
te come, te molha todo.
Mas água o amor não é.


7.A MAÇÃ NO ESCURO





Era um cômodo grande, talvez um armazém antigo,
empilhado até o meio de seu comprimento e altura
com sacas de cereais.
Eu estava lá dentro, era escuro,
estando as portas fechadas
como uma ilha de sombra em meio do dia aberto.
De uma telha quebrada, ou de exígua janela,
vinha a notícia da luz.
Eu balançava as perna,
em cima da pilha sentada,
vivendo um cheiro como um rato o vive
no momento em que estaca.
O grão dentro das sacas,
as sacas dentro do cômodo,
o cômodo dentro do dia
dentro de mim sobre as pilhas
dentro da boca fechando-se de fera felicidade.
Meu sexo, de modo doce,
turgindo-se em sapiência,
pleno de si, mas com fome,
em forte poder contendo-se,
iluminando sem chama a minha bacia andrógina.
Eu era muito pequena,
uma menina-crisálida.
Até hoje sei quem me pensa
com pensamento de homem:
a parte que em mim não pensa e vai da cintura aos pés
reage em vagas excêntricas,
vagas de doce quentura,
de um vulcão que fosse ameno,
me põe inocente e ofertada,
madura pra olfato e dentes,
em carne de amor, a fruta.



(Adélia Prado, O CORAÇÃO DISPARADO; Guanabara, RJ, 1987).


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