segunda-feira, 19 de agosto de 2013

A PRIMEIRA VEZ DE... UMA IPÁSIA



UM TEXTO ERÓTICO DE HUMBERTO ECO



(Foto da internet - s/indicação de autoria)


O livro é longo e tortuoso. Baudolino, o herói, conta suas aventuras a Nicetas. Ele busca o império de um tal Preste João, misto de padre e imperador do oriente remoto. É quando encontra a tribo das ipásias. São descendentes das discípulas de uma mulher virtuosa e sábia chamada Ipásia que dirigia, há mais mil anos, uma escola de filosofia, em Alexandria. Perseguidas pelos cristãos, abrigaram-se num reino distante e lá vivem isoladas do mundo, sendo fecundadas ocasionalmente pelos faunos, tentando manter a sabedoria da Ipásia original. Chamam-se todas pelo nome de Ipásia e Baudolino se apaixona por uma delas, ao encontrá-la à beira de um lago, com seu unicórnio chamado Acácio. Uma aventura fantástica, sem dúvida nenhuma. E a descrição da primeira relação entre Baudolino que, na época já passava dos cinquenta anos, e a Ipásia é muito, muito saborosa. Se é realmente a primeira vez da Ipásia, isso o autor não deixa claro.


(Ipásia de Charles William Mitchell - fonte: Wikipedia)



Ipásia estendeu a mão, roçando-lhe ainda a cicatriz: "Tu deves ser uma coisa boa, Baudolino, porque gosto de tocar-te, como acontece com Acácio. Toca-me também, talvez possas despertar alguma centelha que ainda existe dentro de mim, e que desconheço."

"Não meu doce amor, tenho medo de fazer-te mal."

"Toca-me aqui atrás da orelha. Assim mesmo, mais... Talvez através de ti pode-se evocar um deus. Em algum lugar deve ter um sinal que te ligue a algo mais..."


(Nymphe-du-Bocage)


Pusera-lhe as mãos debaixo da veste, deixava correr os dedos entre os pelos de seu peito. Aproximou-se para cheirá-lo. "Estás cheio de erva, de boa erva", disse. Depois disse ainda: "Como és belo aí embaixo, suave como um animal jovem. És jovem? Eu não percebo a idade de um homem. És jovem?"
"Sou jovem, meu amor, começo a nascer agora."



(Diana y sus ninfas sorprendidas por satiros - 1638-1640. Rubens)


Ele acariciava-lhe agora os cabelos quase com violência, ela pôs suas mãos atrás da nuca e depois começou a dar-lhe pequenas lambidas no rosto, e o fazia como se ele fosse um cabrito, depois riu olhando bem nos seus olhos e dizia que tinha gosto de sal. Baudolino, que jamais fora um santo, apertou-a contra si e buscou com os lábios os seus lábios. Ela deu um gemido de susto e de surpresa, tentou afastar-se, e depois cedeu. Sua boca tinha gosto de pêssego, de damasco, e com a língua dava pequenas lambidas na dele, a qual ela experimentava pela primeira vez.


(Theodor Gustav Linger - nymphe des eaux - avant 1917)


Baudolino empurrou-a para trás, não por virtude, mas para libertar-se daquilo que o cobria, ela viu o sem membro, tocou-o com os dedos, sentiu que estava vivo, e disse que o queria: estava claro que não sabia como nem por que o queria, mas alguma potência dos bosques ou das fontes estava lhe sugerindo o que devia fazer. Baudolino voltou a cobri-la de beijos, desceu dos lábios ao pescoço, depois às costas, enquanto lhe tirava lentamente o vestido, descobriu-lhe os seios, afundou o rosto neles, enquanto que com as mãos continuava a fazer o vestido deslizar até as ancas, sentiu o pequeno ventre tenso, apalpava seu umbigo, percebeu antes do que esperava aquilo que devia ser a pelugem que lhe escondia o bem supremo. Ela sussurrava, chamando-o: meu Éon, meu Tirano, meu Abismo, minha Ogdoade, meu Pleroma...


(Mare Nympha by Nights Queen)


Baudolino empurrou as mãos debaixo do vestido que ainda a cobria e sentiu que aquela pelugem que parecia anunciar o púbis tornava-se mais densa, cobria-lhe o início das pernas, a parte interna da coxa, e se prolongava até as nádegas...


(Agostino Carracci - 1585-1600 - sátiro)


"Senhor Nicetas, eu arranquei-lhe a veste, e a vi. Do ventre para baixo, Ipásia tinha formas caprinas, e suas pernas terminavam em dois cascos cor de marfim. Entendi logo por que, coberta pela veste até o chão, não parecia caminha como quem apoia os pés, mas passava suavemente, como se não tocasse o chão. E entendi quem eram os fecundadores, os sátiros-que-não-se-veem-nunca, de cabeça humana chifruda e corpo de carneiro, os sátiros que há séculos viviam a serviço das ipásias, dando-lhe suas fêmeas e criando os próprios machos, estes com o mesmo vulto horrendo, e elas que ainda lembravam a formosura egípcia da bela Ipásia, a antiga, e de suas primeiras pupilas."

"Que horror!", disse Nicetas.


 (Pan - Vila dos Papiros, em Herculano)


"Horror? Não, não foi o que senti naquele momento. Surpresa, sim, mas apenas por um instante. Depois decidi, meu corpo decidiu pela minha alma, minha alma pelo meu corpo, que aquilo que eu via e tocava era belíssimo, porque aquela era Ipásia, e também a sua natureza ferina fazia parte de suas graças, aquele pelo encaracolado e macio era o que eu mais poderia desejar, perfumava a musgo, aqueles seus membros antes escondidos eram desenhados pela mão de um artista, e eu a amava, queria aquela criatura perfumada como o bosque, e teria amado Ipásia mesmo que tivesse as feições da quimera, da icnêumone, da cerasta."


(Female satyr - autor não identificado)


Foi assim que Ipásia e Baudolino se uniram, até o ocaso, e quando já estavam esgotados, deitaram-se um do lado o outro, acariciando-se e chamando um ao outro com termos muito carinhosos, esquecidos de tudo quanto os circundava.


(The nymph and the unicorn by Jajano)




(Baudolino, de Umberto Eco; tradução de Marco Lucchesi)



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