segunda-feira, 24 de junho de 2013

MANUEL BANDEIRA ERÓTICO OU APÓCRIFO?





Às vezes, um grande poeta, desse medalhões acadêmicos ou quase lá, que frequentam os livros didáticos, cometem alguma boa poesia erótica. Ficam na moita, no entanto. Uns poucos amigos os leem e os textos, engavetados, só se publicam postumamente. E acabam gerando confusão, porque nem sempre é possível avalizar a autoria.




Vejam o caso do poema abaixo. A maioria das pessoas atribui os versos a Manuel Bandeira, embora fuja um pouco de seu estilo. Mas, já encontrei quem jurasse serem da lavra de Drummond (também não é bem o estilo do mineiro).



Como ficamos?

Em caso de dúvida, àquele que gritar mais. Então, a Bandeira o que é ou pode ser (ou não) de Bandeira!

Afinal, quem se importa muito, se os versos são bons e as ilustrações - de RAJAH -, também são muito boas?

A CÓPULA




Depois de lhe beijar meticulosamente
O cu, que é uma pimenta, a boceta, que é um doce,
O moço exibe à moça a bagagem que trouxe:
Colhões e membro, um membro enorme e turgescente.




Ela toma-o na boca e morde-o. Incontinenti,
Não pode ele conter-se, e, de um jacto, esporrou-se.
Não desarmou porém. Antes, mais rijo, alterou-se
E fodeu-a. Ela geme, ela peida, ela sente




Que vai morrer: - "Eu morro! Ai, não queres que eu morra?!"
Grita para o rapaz que aceso como um diabo,
Arde em cio e tesão na amorosa gangorra





E titilando-a nos mamilos e no rabo
(Que depois irá ter sua ração de porra),
Lhe enfia cona adentro o mangalho até o cabo.







segunda-feira, 17 de junho de 2013

DE SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE, NEGRO E SENSUAL REQUEBRO





Maria Olinda Beja Martins Assunção, nasceu em Guadalupe, em 1946, em São Tomé e Príncipe. Com apenas dois anos foi para Portugal, onde passou a residir. Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas (Português/Francês) pela Universidade do Porto, Olinda Beja é docente do Ensino Secundário desde 1976. Ensina também Língua e Cultura Portuguesa na Suíça, é assessora cultural da Embaixada de São Tomé e Príncipe e dinamizadora cultural. Publicou os livros de poemas 'Bô Tendê?', 'Leve, Leve', 'No País do Tchiloli', 'Quebra-Mar' e 'Água Crioula';  os romances 'A Pedra de Villa Nova', '15 Dias de Regresso' e 'A Ilha de Izunari' e ainda livros de contos. Em 2013, ganhou o prémio literário Francisco José Tenreiro, o principal de São Tomé e Príncipe, pela obra “ A Sombra do Ocá”.

De OLINDA BEJA, destacamos dois deliciosos poemas (as fotos são da internet, sem indicação de autoria):


NEGBA





Passas dengosa
perfumosa
exibindo olhares lascivos
às multidões do sexo.
Balouças
a flor de lótus
que escondes no teu corpo
por entre a garridez
de tecidos virginais
e vais
deixando pólen
gostoso
africanoso
em detalhes colíricos
de afectuosas manhãs


MULATA





corpo de mulata
corpo de batuques e luar
corpo de serpente
a enroscar-se na árvore
corpo de mel e malícia
onde mãos buscam frementes
poemas de luz e cor
onde beijos estremece
entre seios ponteagudos
onde o sexo é uma flor
a oferecer as sementes
aos quatro cantos do mundo
corpo esguio e feiticeiro
por onde passa o amor
e fica ainda mais belo.






«Bô Tendê?», Edição da Autora
com apoio da Câmara Municipal de Aveiro, 1992



segunda-feira, 10 de junho de 2013

HILDA HILST X EZRA POUND







Hilda Hilst e Ezra Pound. Pode? Pode, sim. Misturemos prosa e poesia.

Mélangeons!

E o que vai dar isso? Um dos contos mais engraçados e sarcásticos de nossa Incomparável Hilda. Sem mais, vamos a um trecho desse “bonheur sans mélange”, com ilustrações de Heinrich Lassow

Insano! Dá-lhe, Hilda:




Um tal de Ezra Pound, poeta norte-americano, era o xodó de Josete. Ô cara repelente. Um engodo. Invenção de letrados pedantescos. No primeiro dia que ela citou o tal poeta eu lhe disse: meu tio Vlad quando eu era molequinho, tinha crises de loucura quando ouvia esse aí falando numa rádio italiana. O cara era um bom fascistóide, você sabia?
      bobagens, Crassinho, o homem foi um gênio.




      Para agradá-la, pedi que me emprestasse algum livro dele. Emprestou Do Caos à Ordem, cantar XV. Aquilo era uma pústula, uma privada de estação em Cururu Mirim. Senão, vejam:


   "O eminente escabroso olho do cu cagando moscas,
     retumbando com imperialismo
     urinol último, estrumeira, charco de mijo sem cloaca
     ................. o preservativo cheio de baratas,
     tatuagens em volta do ânus
     e em círculo de damas jogadoras de golfe em roda      dele."
  




Josete adorava. Os olhinhos cor de alcaçuz, úmidos, tremelicavam. A boca repetia lentamente (em inglês, lógico) esses últimos dois versos do tal gênio: "tattoo marks around the anus, and a circle of lady golfers about him". Eu achava um lixo, mas não queria me desentender com toda aquela boceta-chupeta que literalmente, quando ativada, abraçava e quase engolia o meu pau.
      tudo bem, Josete, se você gosta... de gustibus et coloribus etc.
      pois gosto tanto, amor, que vou te mostrar a que ponto vai minha reverência por esse autor admirável





      Abatido, já me imaginei desperdiçando aquelas horas a folhear idiotias, ainda mais em inglês. Estávamos no apartamento de Josete. Pensei: é agora que ela vai se levantar e esparramar os livros do nojento aqui na cama. E adeus mesmo, vou inventar uma súbita náusea e me mando. Surprise! Ah, como a vida me encheu de surpresas! Josete deitou-se de bruços e ordenou lacônica:
      pegue aquela grande lupa lá na minha mesinha.




      Lupa?
      Lupa, sim, Crassinho.
      Então peguei.
      faz um favor, benzinho, abra o meu cu.
      como?
      oh, Crassinho, como você está ralenti esta noite
      e o que eu faço com a lupa?
      a lupa é pra você olhar ao redor dele.
      ao redor do seu cu, Josete?
      evidente, Crassinho.





      Foi espantoso. Ao redor do buraco de Josete, tatuadas com infinito esmero e extrema competência estavam três damas com seus lindos vestidos de babados. Uma delas tinha na cabeça um fino chapéu de florzinhas e rendas.
      não acredito no que estou vendo, Josete, você tatuou à volta do seu cu pra quê?
      homenagem a Pound, Crassinho
      mas isso deve ter doído um bocado!
      the courageous violent slashing themselves with knifes ( que quer dizer: os violentos corajosos cortando-se com facas. Continuação do Canto XV).
      coma meu cuzinho, coma meu bem, andiamo, andiamo (cacoetes de Pound)





      Aí achei o cúmulo. "Jamais, meu amor, machucaria essas lindas damas". Josete começou a chorar.
      ó Crasso, você é o primeiro homem a quem eu mostro esse mimo, essa delicadeza, essa terna homenagem ao meu poeta, andiamo, andiamo in the great scabrous arse-hole (no grande escabroso olho do cu)
      Aí pensei: essa maldita louca vai começar a choramingar mais alto e o prédio inteiro vai ouvir. Enchi-me de coragem e estraçalhei-lhe o rabo com inglesas ou americanas (who knows?) e babados e o chapéu, não naturalmente sem antes lhe tapar a boca, porque tinha certeza que ela ia zurrar como um asno. Zurrou abafada, mas eu podia discernir algumas palavras. Ela zurrava: ó (leia-se aou, aou, aou, entonação inglesa) Aou Ezra, aou my beloved Ezra! Nunca entendi por que Josete quando citava Pound colocava a entonação inglesa. Também nunca perguntei. Certamente o nojento era o Shakespeare dela.







segunda-feira, 3 de junho de 2013

UM POEMA DE VERLAINE PRETTO




Tem nome de poeta essa poeta. Pois que se trata, aqui, de feminino elevado à potência de um erotismo sutil e instigante. Com prazer - sempre - essa Lua revela mais uma talentosa escritora, com ilustração de Egon Schiele:

AMIGA

(Egon Schiele - two women)



O sono pesado nos separa
me desampara
dormes linda imersa
dispersa-me e eu a amo
remexo-me ruidosa e tu
muito dengosa
como atriz talentosa me sorris
sinto a ti e amo
teu calor envolve-me inteira
então sinto a companheira
que de qualquer maneira
demonstra-se presente
mesmo no sono ausente e eu amo

Como é bom dividires comigo querida
tua cama
da qual emana amor



Amanhã ao meio dia vai ter arroz