segunda-feira, 11 de março de 2013

UM ORGASMO POR DIA O MÉDICO E A MORTE DISTANCIA







Voltando ao tema do orgasmo e da masturbação feminina, sempre atuais e inesgotáveis assuntos, transcrevo o que a autora de A HISTÓRIA DA V - ABRINDO A CAIXA DE PANDORA, Catherine Blackledge escreve sobre masturbação feminina:



MASSAGEM MÉDICA É BOM, 

MASTURBAÇÃO FEMININA É MAU







[...] é surpreendente e ultrajante que, enquanto alguns médicos manipulavam mulheres em seus consultórios para lhes provocar orgasmo, e cobravam por isso, outros publicavam artigos sobre os problemas de as mulheres fazerem-no para si mesmas - manual ou mecanicamente. 



O título de um artigo publicado em 1892 no Journal of Nervous and Mental Disorders (Jornal de Doenças Neurológicas e Mentais) é "O elemento neuropsíquico na aversão conjugal", ou seja, por que as mulheres dizem não ao sexo com seus maridos. Esse artigo sugere que "a fonte da aversão conjugal parece decorrer de que as excitações mecânicas e iníquas (vibradores e masturbação) dão mais satisfação que as obtidas através da maneira legítima e concomitante".




Outras revistas médicas publicaram artigos pormenorizando como os médicos poderiam identificar se sua pacientes sofriam de "doença masturbatória". "Sinais de masturbação na mulher", de E. H. Smith, é basicamente um guia para os médicos sobre como detectar se as mulheres andavam se masturbando. De acordo com seu autor, um sinal era um dos lábios vaginais mais longo que o outro. Outro sinal era que as mulheres ficavam sexualmente mais sensíveis do que deveriam. É um horror que, para verificar se uma mulher era sexualmente mais sensível do que deveria, essa revista médica propunha passar uma "corrente farádica leve", isto é, dar um choque elétrico, na uretra.






Parece que as mulheres ocidentais só podiam sair derrotadas - ou eram inferiores aos homens por não ter sensações sexuais, ou eram anormais porque gostavam e demonstravam suas sensações de prazer sexual. Parece que muitos médicos ficaram bem confusos. Um ginecologista do final do século XIX, Otto Adler, escreveu que até 40% das mulheres sofriam de anestesia sexual. Mas entre as mulheres que compunham essa categoria de "anestesiadas sexuais" havia as que diziam obter orgasmo com a masturbação; as que diziam ter intensos desejos sexuais (embora não os conseguissem satisfazer); e uma mulher que relatou ter tido um orgasmo enquanto era examinada pelo médico. 





A categorização de Adler do que constituía anestesia sexual em mulheres era realmente mito peculiar, e não muito consistente.Enquanto isso,  a edição de 1899 do Manual Merck, o guia de referência para médicos, recomendava em uma página massagem como tratamento para a histeria, enquanto em outra sugeria o uso de ácido sulfúrico como um remédio para a ninfomania. Isso fez lembrar a ideia bárbara de despejar fenol no clitóris como "cura" para a masturbação feminina.




Esse estado de confusão do meio médico sobre como entender o orgasmo e o prazer femininos talvez possa ser explicado, em parte, pelas diferentes mensagens das autoridades da época. Por um lado, a ciência dizia que o orgasmo feminino não tinha nenhum papel na reprodução, logo, aos olhos dos homens moralistas e frequentadores de igrejas, o prazer sexual das mulheres não podia ser aprovado porque não contribuía diretamente para ela. 





Mas, por outro lado, a ciência ainda não ensinava (pelo menos até o final do século XIX) que o orgasmo feminino era necessário para a saúde - e a ética médica exigia que os médicos cumprissem com seu dever. No fim das contas, igual ao que se deu com o clitóris, a perda de um papel óbvio e imediato no sucesso da reprodução significou que era possível para a comunidade médica e científica ignorar o conceito complicado do orgasmo feminino. E, em linhas gerais , isso foi feito, apesar de até bem pouco terem proporcionado orgasmos em nome da saúde.




A história da obsessão ocidental com orgasmos e saúde não seria completa sem mencionar Wilhelm Reich (1897-1957), um médico vienense contemporâneo de Sigmund Freud, que se mudou para os EUA em 1939. O orgasmo e sua relação com a saúde fascinaram Reich durante toda a sua vida. Em seu livro The Function of Orgasm - sex-economic problems of biological energy (A função do orgasmo: problemas econômico-sexuais da energia biológica), publicado em 1927, Reich escreveu sobre sua crença que a saúde, a saúde psicológica em especial, dependia do que ele chamava de "potência orgástica", isto é, o grau em que uma pessoa pode se entregar e ter orgasmo, livre de qualquer inibição. 





Ele sugere que os seres humanos armazenam emoções nos músculos, e que durante o orgasmo as contrações e os relaxamentos liberam essas emoções e mantêm a pessoa saudável. Ou seja, o orgasmo regula a energia emocional do corpo e libera as tensões sexuais, que, em caso contrário, se transformariam em neurose. O orgasmo concebido por Reich era o livre fluxo de energia sexual ou biológica (que ele chamava de orgone) pelo corpo.





A outra face da moeda, a incapacidade de desfrutar plena e satisfatoriamente do orgasmo devido a bloqueios das tensões psicológicas no corpo, era a enfermidade. Reich explicou e expandiu essa ideia da seguinte maneira:





As pessoas que crescem com uma atitude negativa em relação à vida e ao sexo adquirem uma ansiedade em relação ao prazer, que é fisiologicamente ancorado em espasmos musculares. Essa ansiedade neurótica do prazer é a base sobre a qual são reproduzidas, por essas mesmas pessoas, as ideias que negam a vida e que produzem os ditadores. É o núcleo de um medo de um estilo de vida independente, orientado para a liberdade.




As ideias de Reich sobre a importância do prazer sexual não eram partilhadas por todos, talvez devido à sua exortação controvertida de foder livremente. Um filme de propaganda que ele fez na juventude para promover o que ele chamou de orgasmoterapia, Os Mistérios do Orgasmo, afirma:




Um ser humano tem uns 4.000 orgasmos na vida. Não desligue esse motor pulsátil de alegria e força vital... A carga e descarga biológica produzida pela união dos genitais provocam o reflexo orgásmico, contrações musculares supremamente poderosas. A sujeição a disciplinas sociais pode causar úlceras gástricas e doenças respiratórias, coronarianas e vasculares. Camaradas amantes, pelo bem de sua própria saúde: fodei livremente!




Num mundo ocidental que preferia nem falar sobre sexo e orgasmo, e que apenas permitia o sexo dentro do matrimônio, para fins reprodutivos, as ideias de Reich foram rejeitadas e ridicularizadas, além de outras coisas. Seus livros foram queimados em duas ocasiões: a primeira delas em 1933, pelos nazistas na Alemanha. 



Posteriormente, nos EUA, sua crença em que certas doenças poderiam ser afetadas pelo orgasmo (a energia orgone) criou-lhe sérias dificuldades com as autoridades responsáveis pela saúde. Ele foi praticamente o único escritor ocidental do pós-guerra que teve seus livros queimados pelo governo dos EUA (1956) e morreu na prisão um ano depois, encarcerado por desrespeitar uma ordem judicial que o proibira "de fazer qualquer declaração ou representação relativa à existência do orgone", pelo resto da vida.




Parece irônico que exatamente 50 anos depois que os médicos norte-americanos provocavam orgasmos em nome da saúde, Reich tenha sido perseguido por sugerir a mesma coisa - ainda que de maneira muito mais pública. Há um adendo curioso à história de Reich, na medida em que pesquisas ocidentais recentes sugerem que o orgasmo bem poder ser bom para a saúde. 




Estudos de homens mostraram que os que têm dois ou mais orgasmos por semana vivem mais tempo que os que têm um ou nenhum, ao passo que outros estudos sobre doença coronariana em mulheres e homens sugerem que uma vida sexual orgásmica e satisfatória pode contribuir para um coração forte e saudável. Será possível que Reich tivesse razão, que a função do orgasmo é garantir a saúde do corpo e da mente? Infelizmente ainda não temos o veredito final. Mas, no que me diz respeito, fico feliz em acreditar que um orgasmo por dia, o médico e a morte distancia.





 (A História da V - abrindo a caixa de Pandora: Catherine Blackledge; tradução de J. M. Berolote; p.251).

(Ilustrações: desenhos antigos de autoria não identificada)


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