segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

BOCETAS, de Henry Miller




Henry Valentine Miller (Manhattan, New York, 26 de dezembro de 1891 – Los Angeles, 7 de junho de 1980) é um escritor cujo estilo é caracterizado pela mistura de autobiografia com ficção. Henry Miller tornou-se um clássico quando publicou a trilogia "Sexus, Plexus, Nexus", que ele chamou "A Crucificação Encarnada". Como nos outros livros, esses romances narram trechos de sua própria vida, embora ele negasse. Sobre seu processo, declarou: "fiz uso, ao longo desses livros, de irruptivos assaltos ao inconsciente, tais como sonhos, fantasia, burlesco, trocadilhos pantagruélicos etc., que emprestam à narrativa um caráter caótico, excêntrico, perplexo". Tudo isso é verdade, mas também o é que Miller vivia na pândega e descrevia isso. O erotismo exacerbado, presente nessa trilogia e em várias outras obras, tornaram-no um clássico nesse gênero. De Henry Miller, um trecho de TRÓPICO DE CAPRICÓRNIO, aqui devidamente ilustrado por Giovanna Cassotto e por fotos da internet (sem indicação de autoria), transformado quase em um poema:

BOCETAS

Henry Miller


"Há bocetas que riem e bocetas que falam; há bocetas malucas e histéricas com o formato de ocarinas e há bocetas abundantes e sismográficas que registram o subir e baixar da seiva; 


há bocetas canibalistas que se abrem como as fauces da baleia e o engolem vivo; há também bocetas masoquistas que se fecham como a ostra, têm conchas duras e talvez uma ou duas pérolas dentro; 


há bocetas ditirâmbicas que dançam à mera aproximação do pênis e ficam inteiramente úmidas com o êxtase; há as bocetas porco-espinho que abrem seus espinhos e sacodem bandeirinhas na época do Natal; 


há bocetas telegráficas que praticam o código Morse e deixam a mente cheia de pontos e traços; há as bocetas políticas que estão saturadas de ideologia e que negam até mesmo a menopausa; 



há bocetas vegetativas que não apresentam reação a menos que você as puxe pelas raízes; há as bocetas religiosas que cheiram como Adventistas do Sétimo Dia e estão cheias de contas, minhocas, conchas, excrementos de carneiro e de vez em quando migalhas de pão seco; 


há as bocetas mamíferas que são forradas com pele de lontra e hibernam durante o longo inverno; há bocetas navegantes equipadas como iates, que são boas para solitários e epilépticos; há bocetas glaciais nas quais você pode deixar cair estrelas cadentes sem provocar uma faísca; 




há bocetas mistas que não se enquadram em categorias ou descrições, com as quais você se encontra uma só vez na vida e que o deixam queimado e marcado; há bocetas feitas de pura alegria que não têm nome nem antecedentes e estas são as melhores de todas, mas para onde voaram elas?



E depois há a boceta das bocetas, que é tudo e que chamaremos de superboceta, porque não é desta terra, mas daquele brilhante país para onde fomos há muito tempo convidados a voar. 



Lá o orvalho está sempre brilhando e os altos caniços curvam-se com o vento. É lá que mora o grande pai da fornicação, o Pai Ápis, o touro profético que abriu caminho a chifradas até o céu e destronou as divindades castradas do bem e do mal. 


De Ápis surgiu a raça de unicórnios, aquela ridícula fera dos escritos antigos em cuja testa erudita cresceu um falo cintilante; e do unicórnio através de fases gradativas derivou-se o homem da última cidade que fala Oswald Spengler(*). E do membro morto deste triste espécime surgiu o gigantesco arranha-céu com seus elevadores expressos e torres de observação."



(*) Oswald Arnold Gottfried Spengler (Blankenburg am Harz, 19/5/1880 - Munique, 8/5/1936) foi um historiador e filósofo alemão, cuja obra O Declínio do Ocidente (1918) ficou como um marco nos debates historiográficos, filosóficos e políticos da intelectualidade europeia durante o século XX. (Wikipedia) - Nota da Lua.





(Trópico de Capricórnio, tradução de Aydano Arruda)






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