segunda-feira, 24 de setembro de 2012

CIÚME








Sentimento de posse. De exclusividade. Insegurança. Medo da perda... Enfim, muita coisa pode justificar o ciúme, visto quase sempre como um sinal de amor. O que nem sempre é verdade.

No entanto, ficam as perguntas: é possível amar sem sentir ciúmes da pessoa amada? Existem pessoas que não têm ciúmes? Quem não sente ciúmes da pessoa amada não a ama verdadeiramente? O caudalista não é ciumento? E quem pratica swing? E quem tem cônjuge que ganha a vida com o sexo?

Enfim, sobram perguntas sobre o ciúme. Faltam respostas. O fato é que existem pessoas que não têm ciúmes. Para desespero, muitas vezes, do outro ou outra.

A crônica abaixo, se não desvenda todas as questões, lança um olhar - humorado e desconfiado - sobre a relação em que uma das partes não sente ciúmes da outra.


DOGMAS DE UMA GERAÇÃO


 Marcelo Rubens Paiva



(Agostino Carracci) 


"Você nunca tem ciúmes?", ela perguntou.
"E isso é ruim?"

Ela não respondeu e impediu a passagem do garçom com o braço, que sorriu complacente como todo garçom de casamento que tem a passagem bloqueada. Que olhou para a convidada já bem alta, como a maioria naquele horário, adivinhou a sua bebida, encheu o copo longo com três pedras de gelo e uma dose caprichada do scotch disponível. Complacente e camarada.

Ela agradeceu trôpega, deu um gole, balançou a cabeça satisfeita, sorriu, sentou-se ao lado do marido, que já estava havia horas bebendo só água, e disse:

"Acho bem esquisito."
"O quê?"
"Você não ter ciúme."
"Devia dar graças a Deus."
"Acha mesmo?"
"Marido ciumento é pior do que psicopata preso."
"Por quê?"
"Porque está solto."





Ela não achou graça. Ele não explicaria num fim de festa perto da melancolia e estados alterados, que veio de outra geração, que viveu numa época em que o ciúme era combatido como a mais-valia, a exploração do proletariado mundial, o latifúndio, a Coca-Cola e o fast-food, que no seu tempo a turma usava uma estrelinha vermelha e negava a propriedade privada, inclusive a sexual. Não poderia haver posse nas relações. O homem não deveria subjugar as mulheres, dominá-las. Emancipação. Direitos iguais, ouviu falar?

Sim, ela é de outra época, ela é "jovem". Nem imagina quanto os homens hoje grisalhos tiveram de reaprender, sofreram nas mãos de universitárias combativas que não se depilavam, costume burguês, que comparavam à fidelidade e ao casamento, essa instituição falida, a dois projetos em que o ciúme jamais deveria fazer parte, cujo casal modelo, Sartre e Simone, era lido e debatido, imitado e invejado.





Ele não ia enumerar quantas vezes dançou e cantou o libelo paradoxal de sua época, para uma garota de vestido Tweed ou calça Yes Brazil em cores cítricas, chutando e socando o ar: "Eu quero levar uma vida moderninha, deixar minha menininha sair sozinha, não ser machista e não bancar o possessivo, ser mais seguro e não ser tão impulsivo. Mas eu me mordo de ciúme..."

E quanto foi difícil assimilar com as mulheres a não ter ciúmes, excrecência que não passa de sintoma de uma insegurança que merece um divã e muita meditação, que nem deve entrar na mesa do banquete de discussões matrimoniais, porque é um sentimento torpe, mesquinho, vil, insano. Passou anos aprendendo a não ter ciúmes, a controlar as fraquezas do seu ego, a conviver com emulações, invejas. Não era agora que...





"A mulher do seu amigo me atacou no banheiro."
"Como é que é?"
"Estávamos dançando, você não quis dançar, você nunca quer dançar, tava aí em altos papos com o Caio, eu e ela, sobrando, pra variar, ela me chamou pra dançar, você não viu? Eu falei, olha, vamos dançar, viu? Querem vir? Estavam falando do projeto lá de vocês, e como sempre você nem reparou... Dançamos, fomos pro banheiro, e ela me atacou."
"A Lu?"
"É. A mulher do Caio."
"Como te atacou?"
"Atacou atacando. Me grudou na parede, me beijou, enfiou a língua."






Deu mais alguns goles. Olharam a festa no auge da decadência, a noiva bêbada dançando sem o véu e parte do vestido com o fotógrafo, o noivo fumando sozinho. Ele se levantou, pegou na mão da mulher e disse:

"Bora."

No carro, pensou no porquê a mulher do Caio a atacara, mulher que nunca gostou dele, pois achava que ele era má influência para o marido, com quem trabalhava, que na verdade era quem o levava a inferninhos baratos depois do expediente, em que se embebedavam e, lógico, o cara, Caio, sempre dava bandeira quando chegava em casa com o perfume vagabundo de uma prostituta no corpo, um arranhão novo nas costas, uma camisinha no bolso, bandeiras que eram desfraldadas e geravam uma crise por meses, enquanto ele, o álibi, só bebia e no máximo olhava o strip-tease.




Então, Lu, resolveu se vingar, hein?, e atacar a nova mulherzinha suculenta daquele a ser derrotado, garota de outra geração que, por sinal, já ficou com mulheres, como uma vez contei para Caio, que deve ter te fofocado, Lu, numa noite qualquer sem assunto...

"Não ficou com ciúme?"
"Não."
"Nem um pouco?"
"Nem um pouco."
"E se fosse o seu amigo que me atacasse?"
"O Caio? Não faria isso."
"Quem te garante? Ah... A ética masculina."
"Tenho certeza de que ele não faria isso."
"Mas se fizesse?"
"Eu ia ficar... Sei lá."
"Com ciúme?"
"Não."
"Ia romper a amizade?"
"Talvez."
"Ia nunca mais falar com ele?"
"Não sei."






Entraram no carro. Ele dirigiu. Já estava há mais tempo na água, enquanto ela não conseguiria dar a partida. Não ligaram o som. Porque talvez quisessem ver até onde aquela conversa ia, se chegaria a uma encruzilhada ou ao ponto final e revelaria um para o outro o que estava em jogo naquela relação que começava, qual era o limite, onde era o campo minado, quem era quem, quem topava o quê.

"Vocês têm muitos projetos juntos?"
"Dois."
"Já foram aprovados?"
"Estamos na fase da captação."
"Pode rolar, como pode ir pra gaveta."
"Por que está tão interessada?"
"Ele ficou passando a mão na minha perna."
"O Caio?!"
"É. Por debaixo da mesa. Enquanto jantávamos nós quatro na mesa, ele passava a mão na minha perna, eu tirava, ele colocava, não sei se a Lu viu, fiquei desesperada, deve ter visto, eu mudava de posição, ele vinha, fiquei sem saber o que fazer, por isso me levantei e fui dançar, te falei vamos dançar, mas você engatou um papo empolgado com ele, e a mão dele procurando minhas pernas, eu, bêbada, ela deve ter visto e acho que por isso em vingança me atacou no banheiro, é, seu sócio, que situação..."






A rua deserta. Mesmo assim ele parou no sinal. Que abriu, fechou, abriu e fechou. Não saíram do lugar. Mãos firmes no volante.

"Estou vendo que isso mexeu com você", ela disse.

Temeu que ele manobrasse para voltar ao casamento e arrebentar o amigo.

"Não é estranho? Dela, você não tem ciúme. Já dele... Precisa rever seus conceitos."

Ele continuou calado.

"Que bom, você tem ciúmes, sinal de que me ama. E que é um pouco machista. Porquê... Se bobear, sou mais ela do que ele. Vamos pra casa, vai."

Ele finalmente colocou o carro em movimento. E disse, lamentando:

"Dois projetos a mais na gaveta."
"Relaxa, amor, é mentira, ele não passou a mão na minha perna, e ela não me agarrou."

Ele olhou sem entender nada. E antes de repreendê-la, ela disse:

"Queria me certificar se o dogma da sua geração é uma verdade absoluta."

Se certificou. Não é. Mas até hoje ele está desconfiado de que o desmentido final foi para salvar os projetos em captação.






OESP/25 de agosto de 2012 


(Ilustrações: exceto a de A. Carracci, todas as demais não têm identificação de autor)


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