segunda-feira, 30 de julho de 2012

A PRIMEIRA VEZ... COM A PROFESSORA DE PIANO, DE HENRY MILLER




LIÇÕES DE PIANO



(A. não identificado)


Uma das razões pelas quais nunca consegui nada com a maldita música é que ela sempre estava misturada com sexo. Desde que fui capaz de tocar uma canção, bocetas me cercavam como moscas. Para começar, foi em grande parte culpa de Lola. Lola foi minha primeira professora de piano. Lola Niessen. Era um nome ridículo e típico do bairro onde então vivíamos. Fazia lembrar um arenque fedorento ou uma boceta bichenta. Para dizer a verdade, Lola não era exatamente uma beldade. Parecia um pouco uma calmuca ou uma chinuque, com tez pálida e olhos biliosos. Tinha algumas verrugas e lobinhos, para não falar no bigode. O que me excitava, porém, era seu aspecto cabeludo. Tinha belos cabelos pretos, maravilhosamente compridos, que arrumava em coques ascendentes e descendentes sobre seu crânio nongólico. Na nuca, enrolava os cabelos para cima em forma de serpentina. Vinha sempre tarde, como conscienciosa idiota que era, e quando chegava eu já estava um tanto enervado de tanto masturbar-me. Logo que se sentava na banqueta ao meu lado, porém, eu ficava excitado de novo, com aquele perfume fedorento que encharcava suas axilas. No verão usava blusas muito cavas e eu podia ver os tufos de cabelos embaixo de seus braços. A vista deles deixava-me louco. Imaginava-a como tendo cabelos sobre todo o corpo, inclusive no umbigo. E o que eu desejava fazer era enrolar-me neles, enterrar meus dentes neles. Eu seria capaz de comer seus pelos como uma guloseima se houvesse um pouco de carne presa a eles. Seja como for, ela era peluda, é o que quero dizer, e sendo peluda como um gorila fazia com que meu pensamento se desviasse da música para sua boceta. 





(Mikhail Shishov)


Eu me sentia tão ansioso por ver aquela sua boceta que finalmente um dia subornei seu irmãozinho para que me deixasse olhar pela fechadura quando ele a estava tomando banho. Foi ainda mais maravilhoso do que imaginara: ela tinha uma grenha que se estendia do umbigo até o vão das pernas, um tufo enorme e espesso, um "sporran" escocês, rico como tapete tecido a mão. quando passou sobre ele a esponja do talco pensei que ia desmaiar. Da vez seguinte em que ela veio dar-me lição deixei uns dois botões da minha braguilha abertos. Ela pareceu nada notar de errado. Da vez seguinte deixei toda a braguilha aberta. Dessa vez ela percebeu. Disse: "Acho que se esqueceu de alguma coisa, Henry". Olhei para ela, vermelho como uma beterraba, e perguntei melosamente; "O quê?" Ela fingiu desviar os olhos enquanto apontava para ele com a mão esquerda. Sua mão chegou perto que não pude resistir a tentação de agarrá-la e enfiá-la na minha braguilha. Ela se levantou rapidamente, parecendo pálida e assustada. A essa altura meu membro já estava fora da braguilha e fremente de alegria. Avancei sobre ela e enfiei a mão por baixo de seu vestido para alcançar aquele tapete tecido à mão que eu vira pelo buraco da fechadura. De repente percebi um sonoro tapa no ouvido e depois outro. Ela me segurou pela orelha e, levando-me até um canto da sala, virou meu rosto para a parede e disse: "Agora abotoe sua calça, menino bobo!" Voltamos ao piano alguns momentos depois - voltamos a Czerny e aos exercícios de velocidade. Eu não conseguia mais distinguir um sustenido de um bemol, mas continuava a tocar porque tinha medo que ela contasse o incidente a minha mãe. Felizmente não coisa fácil de contar à mãe de alguém.




(Foto de Igor Pyatinin)



O incidente, embaraçoso como foi, assinalou uma decidida mudança em nossas relações. Pensei que quando viesse na vez seguinte seria severa comigo, mas, pelo contrário, parecia ter-se enfeitado, ter posto mais perfume e estava mesmo um pouco mais jovial, o que era extraordinário em Lola, tipo taciturno e retraído. Não me atrevia mais a deixar minha braguilha aberta, mas ficava de pau duro durante toda a lição, o que devia agradar-lhe, pois estava sempre lançando olhares disfarçados naquela direção. Eu tinha apenas quinze anos nessa época e ela devia ter uns vinte e cinco ou vinte e oito. Era difícil para mim saber o que fazer, a menos que a atacasse deliberadamente um dia em que minha estivesse fora de casa. Durante algum tempo, segui-a à noite, quando ela saía sozinha. Tinha o hábito de dar longos passeios sozinha, ao anoitecer. Eu costumava seguir seus passos, esperando que ela fosse a algum lugar deserto perto do cemitério onde pudesse tentar algumas táticas violentas. Tinha às vezes a impressão de que ela sabia que eu a estava seguindo e gostava disso. Penso que esperava que eu a atacasse de emboscada - penso que era isso que ela queria. Seja como for, uma noite eu estava deitado na grama perto dos trilhos do trem. Era uma abafada noite de verão e havia pessoas deitadas por toda parte, como cães arquejantes. Eu absolutamente não estava pensando em Lola - estava parado ali, com calor demais para pensar em alguma coisa. De repente vejo uma mulher avançando pelo estreito caminho coberto de restos de carvão de pedra. Estou deitado de costas no barranco e não vejo ninguém em roda. A mulher aproxima-se devagar, de cabeça baixa, como se estivesse sonhando. Quando chega perto reconheço-a. "Lola!" - chamo. "Lola!" - Ela parece realmente espantada em ver-me aqui. "Que está fazendo aqui?" - pergunta, sentando-se ao meu lado no barranco. Não me dei ao trabalho de responder-lhe. Não disse sequer uma palavra. Apenas rastejei até ela e deitei-a. "Aqui não, por favor", implorou, mas eu não prestei atenção. Enfiei a mão entre suas pernas, emaranhado-a naquele seu espesso "sporran". Ela estava toda molhada, como um cavalo espumando. Jesus, era minha primeira foda e tinha de apareceu um trem para jogar faíscas quentes sobre nós. Lola ficou aterrada. Acho que era também sua primeira foda e provavelmente ela estava precisando mais do que eu, mas quando sentiu as faíscas quis escapar. Era como tentar segurar uma égua brava. Não consegui conservá-la deitada, por mais que lutasse com ela. Levantou-se, baixou suas roupas e arrumou o coque na nuca. "Você deve ir para casa", disse ela. "Não vou para casa", repliquei, segurando-a pelo braço e pondo-me a andar. Caminhamos em silêncio mortal por uma boa distância. Nenhum de nós parecia estar notando para onde íamos. 


(A. não identificado)




Finalmente chegamos à rodovia. Acima de nós ficavam os reservatórios e perto dos reservatórios havia uma lagoa. Instintivamente encaminhei-me para a lagoa. Tínhamos de passar sob algumas árvores baixas quando nos aproximamos da lagoa. Eu estava ajudando Lola a abaixar-se quando de repente ela escorregou, arrastando-me consigo. Não fez o menor esforço para levantar-se. Ao invés disso, segurou-me, apertou-me contra ela e, para meu completo espanto, senti-a também enfiando a mão em minha braguilha. Acariciou-me tão maravilhosamente que em um um instante acabei em sua mão. Depois tomou minha mão e enfiou-a entre suas pernas. Ficou deitada, completamente largada, e abriu bem as pernas. Curvei-me e beijei cada pelo de sua boceta; pus a língua em seu umbigo e limpei-o com lambidas. Depois deitei-me com a cabeça entre suas pernas e lambi o suco que escorria de dentro dela. Ela agora estava gemendo e agitando furiosamente as mãos. Seus cabelos desmancharam-se e ficaram caídos sobre seu abdome nu. Para resumir, enfiei o pau e deixei-o dentro uma porção de tempo, pelo que ela deve ter-me agradecido muito, pois acabou nem sei quantas vezes - foi como um monte de foguetes disparado. Ao mesmo tempo, enterrava os dentes em mim, machucava meus lábios, unhava-me, rasgava minha camisa e só o diabo sabe o que mais. Eu estava marcado como um novilho quando cheguei em casa e mel olhei no espelho. 




(A. não identificado)



Foi maravilhoso enquanto durou, mas não durou muito tempo. Um mês depois os Niessens mudaram para outra cidade e nunca mais vi Lola. Mas pendurei seu "sporran" sobre a cama e rezo para ele toda noite. Sempre que começo um exercício de Czerny tenho uma ereção, pensando em Lola deitada na grama, pensando em seus compridos cabelos pretos, no coque em sua nuca, nos gemidos que ela dava e no suco que jorrava de dentro dela. Para mim tocar piano era apenas um longo sucedâneo da foda. Tive de esperar outros dois anos antes de usar de novo o pau, como dizem, e então não foi tão bom porque apenhei uma bela gonorreia. Além disso, não foi na grama, nem foi no verão. E não havia calor no ato, pois foi apenas uma fria e mecânica foda de um dólar em sujo quartinho de hotel, com a filha da puta a fingir que estava acabando e não acabando coisíssima nenhuma. Talvez não tenha sido ela quem me passou a gonorreia, mas sua coleguinha do quarto ao lado que estava trepando com meu amigo Simmons. Foi assim - eu acabei tão depressa minha foda mecânica que pensei em ir ver o que estava acontecendo com meu amigo Simmons. Eles ainda estava metendo e com vontade. A garota era uma tcheca e bastante suculenta. Aparentemente não fazia muito tempo que estava na vida e esquecia-se do trabalho, passando a divertir-se. Observando como ela fazia o negócio, resolvi esperar e dar-lhe também uma trepada. Foi o que fiz. E antes de passar uma semana tive um corrimento e depois fiquei imaginado se ia ser orquite ou prostatite.





(Foto de Mutowka)


Mais ou menos um ano depois era quem estava dando lições. Quis a sorte que a mãe da moça que eu estava ensinando fosse uma cadela, uma vagabunda, uma puta da pior espécie. Vivia com um negro, como descobri mais tarde. Parecia não ser capaz e encontrar membro suficientemente grande para satisfazê-la. Seja como for, toda vez que eu ia sair ela me segurava na porta e se esfregava em mim. Eu tinha medo de começar alguma coisa com ela porque diziam que estava cheia de sífilis, mas que diabo pode a gente fazer quando uma cadela quente como aquela  esfrega a boceta na gente e manda a língua até o meio da garganta da gente? Costumava fodê-la em pé no vestíbulo, o que não era difícil, pois ela era leve eu podia segurá-la nas mãos como uma boneca. Segurava-a assim certa noite quando de repente ouvi alguém enfiar uma chave na fechadura. Ela também ouviu e ficou paralisada de susto. Não havia para onde ir. Felizmente havia um reposteiro no vão da porta e eu me escondi atrás dele. depois ouvi o negro beijá-la e dizer-lhe: "Como está, beleza?" Ela disse que estava esperando por ele e que era melhor subirem logo porque não podia mais esperar e assim por diante. Quando a escada parou de ranger, abri cuidadosamente a porta e dei o fora. 


(A.não identificado)

Então, por Deus, fiquei realmente assustado, porque se aquele preto me descobre eu estava com a garganta cortada, disso não há dúvida. Por isso deixo de lecionar naquela casa, mas logo a filha está atrás de mim - mal tem dezesseis anos - e me pede para dar-lhe lições na casa de uma amiga. Começamos novamente os exercícios de Czerny, com faíscas e tudo. É o primeiro cheiro de boceta fresca que eu sinto e é maravilhoso., como feno recém-cortado. Fodemos o tempo todo em cada lição e entre as lições damos algumas metidas adicionais. Depois, um dia, a mesma história triste: ela está grávida e que vamos fazer? Tenho de arranjar um judeuzinho para ajudar-me, mas ele quer vinte e cinco dólares pelo trabalho e eu nunca vi vente e cinco dólares em minha vida. Além disso, ela e menor de idade. Ademais poderia ter uma septicemia. Dou cinco dólares ao judeuzinho por conta e vou passar um par de semanas nos Adirondacks. Nos Adirondacks encontro uma professora que está morrendo de vontade de tomar lições. Mais exercícios de velocidade, mais camisinhas e adivinhações. Toda vez que eu tocava no piano parecia saltar uma boceta.



(A. não identificado)



(Trópico de Capricórnio, tradução de Aydabi Arruda)

segunda-feira, 23 de julho de 2012

SEIOS: VIAGEM AOS SEIOS DE DUÍLIA





(Autor não identificado)

José Maria, já um senhor, aposenta-se no Rio de Janeiro, depois de mais de quarenta anos de trabalho numa repartição burocrática. Solteiro, não se adapta à vida pós-trabalho. Atormentado por lembranças de Caratinga, naquela época, década de 50, uma perdida cidadezinha do interior de Minas, relembra um momento de alumbramento.

Dou a palavra a 


Aníbal Machado 



(A. não identificado)

"Foi andando para o passado...Abriu-se-lhe uma cidade de montanha, pontilhada de igrejas. E sempre para trás - tinha então, 16 anos - ressurgiu-lhe a cidadezinha onde encontrara Duília. Aí parou. E Duília lhe repetiu calmamente aquele gesto, o mais louco e gratuito com que uma moça pode iluminar para sempre a vida de um homem tímido.
(...)


(Roman Tkachenko)

O que mais o espantara no gesto de Duília - recordava-se José Maria durante a insônia, agarrando-se ao travesseiro - foi a gratuidade inexplicável e a absurda pureza.




(A. não identificado)

Ela era moça recatada, ele um rapazinho tímido; apenas se namoravam de longe. Mal se conheciam. A procissão subia a ladeira, o canto místico perdia-se no céu de estrelas. De repente, o séquito parou para que as virgens avançassem, e na penumbra de uma árvore ela dá com o olhar dele fixo em seu colo, parece que teve pena e com simplicidade, abrindo a blusa, lhe disse - Quer ver? - Ele quase morre de êxtase. Pálidos ambos, ela ainda repete - Quer ver mais? - E mostra-lhe o outro seio, branco, branco. E fechou calmamente a blusa. E prosseguiu cantando...



(Bathelemi)

Só isso. Durou alguns segundos, está durando uma eternidade. Apenas uma vez, depois do alumbramento, avistara Duília. A moça se esquivara. Mas o que ela havia feito estava feito, e era um alumbramento."


(Foto do filme VIAGEM AOS SEIOS DE DUÍLIA)


VIAGEM AOS SEIOS DE DUÍLIA 


É o nome do conto. VIAGEM AOS SEIOS DE DUÍLIA é o nome de um filme luso-brasileiro, realizado em 1964, com direção de Carlos Hugo Christensenroteiro de Orígenes Lessa e Rodolfo Mayer no papel principal.

(Barthelemi)

Um dos filmes menos conhecidos de nossa produção e, talvez, um dos mais belos, pela nostalgia que nos traz e pela poesia do retorno ao passado, à juventude, através da metáfora dos "seios de Duília". Porque, é claro que nosso herói resolve empreender a viagem de volta, uma longa viagem pelas estradas de Minas, para reencontrar a dona daqueles seios...


(Autor não identificado)

E ele a encontra? Sim. Mais de cinquenta anos depois. E é também uma cena muito breve. E é também uma cena belíssima. Não a descreverei: quem sabe o leitor encontre na net o velho filme (como eu o encontrei e revi, muitos anos depois) e também se encante com o desvelamento puro e sensual dos seios de Duília e com o breve reencontro dela com seu apaixonado tanto tempo depois...


(Foto de Marcus Prado)

Tempus fugit.





Ficha técnica do filme:

Título original: Viagem Aos Seios de Duília
Gênero: Drama
Duração: 105min.
Lançamento (Brasil): 1964
Distribuição: U.C.B. - União Cinematográfica Brasileira
Estúdios: Atlântida Cinematográfica
Direção: Carlos Hugo Christensen
Roteiro: Orígenes Lessa (argumento baseado no conto de Anibal Machado)
Produção: Paulo D. Serrano
Gerente de produção: Orlando Guy
Co-produção: Serrano Filmes
Música: Lírio Panicali
Som: Aloysio Vianna
Fotografia: Anibal Paz Gonzalez
Desenho de produção: Benet Domingo
Edição: Nello Melli




Elenco:

Rodolfo Mayer
Natália Timberg
Oswaldo Louzada
Sarah Nobre
Artur Semedo
Lícia Magna
Isolda Cresta
Jota Barroso
Mário de Lucena
Lita Palácios
Geny Dias
Otávio Cardoso
Palmira Barbosa
Rofran Fernandes
Galileu Amparo
João Amaral
Manoel Teixeira
Renato Cardoso
Gilda Mendes
Patrícia Loureiro


Premiações:

- Menção Honrosa Especial, Troféu "Dedo de Deus", I Festival de Cinema de Terezópolis, RJ, 1965

- Primeiro Lugar, Prêmio "Governo do Estado da Guanabara", Comissão de Auxílio à Indústria Cinematográfica do Rio de Janeiro, RJ, 1965

- Primeiro Prêmio, "Prêmios de Cinema do IV Centenário", RJ, 1965

- Melhor Ator (Rodolfo Mayer), Prêmio "Governador do Estado de São Paulo", SP, 1965. 





(A. não identificado)



segunda-feira, 16 de julho de 2012

SEIOS





Emílio de Menezes (Curitiba, 4 de julho de 1866  Rio de Janeiro, 6 de junho de 1918), poeta, boêmio e grande piadista, estava numa festa e a anfitriã, uma senhora com um imenso decote, virou-se para ele e perguntou: - O senhor sabe quais são os encantos da mulher, senhor Emílio? Ao que ele respondeu, sem pestanejar: "- Sei-os, minha senhora, sei-os!" 


(Sara Varone - fotógrafo não identificado)



Também é dele o seguinte trocadilho infame. Numa outra festa, contemplava o poeta uma reprodução de famoso quadro de Da Vinci, quando uma senhora com imensas mamas e não menor decote aproximou-se:- "Gosta da Ceia do Senhor, senhor Emílio?" A resposta veio na hora, para gáudio dos demais poetas que o cercavam: - "Gosto mais do seio da senhora"!





Bem, piadinhas à parte, pergunta-se: por que os seios femininos exercem tanta atração?





Cantados em verso e prosa, esculpidos, pintados, fotografados... sempre admirados, os seios são, afinal, apenas uma glândula mamária, para amamentação da prole, ou têm função realmente sexual, de atração do macho?





No livro A MULHER NUA, Desmond Morris tenta responder a essa questão. Diz ele:





"Um exame da anatomia dos seios revela que a maior parte de seu volume é constituída de tecido gorduroso, enquanto apenas uma pequena parte é de tecido glandular ligado à produção de leite. A forma arredondada dos seios, resultado do tecido gorduroso, exige uma explicação que ultrapassa sua função de aleitamento. 





Embora seja claro para um biólogo que essa explicação tem a ver com sexualidade, muitas mulheres recusam essa interpretação. Julgam ofensiva a ideia de que alguns aspectos do corpo feminino possam ter evoluído até sua forma atual para atrair o macho. Ignorando o fato de que a atração física está envolvida em sua concepção, elas insistem que os seios têm apenas a função parental e usam sua engenhosidade para encontrar explicações não-sexuais para a forma arredondada dos seios. Assim surgiram sete sugestões:





O tecido gorduroso protege as glândulas mamárias. Isso pode ser verdade durante a lactação, mas não explica o persistente arredondamento dos seios em outros períodos. E também não explica por que as fêmeas de outras espécies primatas não precisam dessa ajuda.






O tecido gorduroso mantém o leite morno. Mais uma vez, isso só é necessário durante a amamentação.





A forma arredondada dos seios os torna mais confortáveis para a alimentação do bebê. Simplesmente não é verdade. Basta pensar no formato de uma mamadeira.





A forma arredondada funciona como um sinal visual que informa aos homens que aquela mulher será uma boa fonte de alimento para a prole. Mais uma vez, não é verdade. 




Mulheres de seios pequenos podem amamentar com mais facilidade que as de seios enormes.






O tecido gorduroso é uma importante maneira de estocar gordura para quando o alimento for escasso. Sim, é verdade, mas por que concentrar esse estoque no peito, já que os seios fartos fazem com que a mulher tenha mais dificuldade para correr? 



O corpo feminino tem uma generosa camada de gordura na maior parte de sua superfície, e essa reserva de gordura dispersa é a maneira mais eficiente de ela se proteger contra a eventualidade de uma fome. Além do mais, a gordura dos seios representa apenas 4% da gordura total do corpo, e é a que diminui menos quando a mulher perde peso.






O tecido gorduroso compensa a falta de uma capa naternal de pelos à qual o bebê possa se agarrar quando se alimenta. Não é verdade. Como qualquer mãe sabe, o bebê tem que ser segurado junto ao seio, e, de qualquer forma, um macio hemisfério de carne dificilmente ajudaria a tornar o mamilo mais acessível.






A forma hemisférica dos seios é, de acordo com um autor, "não funcional, a ponto de ser antifuncional". Quando todas as outras justificativas parentais falham, está é a última saída para aqueles que se recusam a aceitar que a forma dos seios femininos é sexual.





A inevitável conclusão é que a forma hemisférica dos seios não é parental, mas um sinal sexual. Isso significa que teorias que consideram o interesse masculino pelos seios femininos como "infantil" ou "regressivo" não têm fundamento. O homem que reage aos seios de uma virgem ou uma não-lactante está respondendo a um primitivo sinal sexual da espécie humana".




Acho que esse papo merece um aprofundamento. Afinal, numa sociedade em que a mulheres procuram, hoje, melhorar o aspecto de seus seios, através de intervenções cirúrgicas às vezes bastante agressivas, para melhor se apresentarem (a quem, cara pálida?), continuar acusando os homens que apreciam a beleza de um par de seios de "infantilismo" me parece, para dizer o mínimo, incoerente.




Portanto, a viagem aos seios femininos irá continuar...





(A mulher nua - um estudo do corpo feminino
Desmond Morris: [tradução Eliana Rocha] 
- São Paulo, Globo, 2005)


(Fotos da internet, sem indicação de autoria)


segunda-feira, 9 de julho de 2012

DOGGING



(A. não identificado)

A sexualidade humana é múltipla, inconstante e, muitas vezes, surpreendente.

O dogging é uma prática sexual que - parece - surgiu no Reino Unido e se espalhou pelo mundo, principalmente pelas grandes cidades. Não é troca de casais, não é (apenas) voyeurismo, não é (apenas) exibicionismo, mas pode ser uma mistura de tudo isso. Com uma pitada a mais de emoção: o medo de ser surpreendido (pela polícia, principalmente).

O que é dogging?





É a prática de sexo ao ar livre, principalmente em logradouros públicos, ou seja, em ruas, praças, parques etc.

E tem suas regras muito claras, para minimizar o perigo. Que existe e é constante. Tanto no aspecto físico (risco de agressões), legal (sexo em público é considerado crime em quase todos os países) quanto no aspecto higiênico (risco de doenças sexualmente transmissíveis).






Primeiro, só há dogging quando pessoas que o praticam combinam lugar e hora. Isso ocorre por meio das redes sociais da internet, principalmente. E essas pessoas conhecem a etiqueta da prática. Ou seja: ninguém faz nada que não tenha sido permitido pelo outro, ou seja, respeito;  uso de preservativo, sempre; obediência a uma série de sinais de aproximação e permissão; e regras básicas de segurança.






Segundo, o dogging não tem por objetivo afrontar a sociedade, através de exibicionismos gratuitos. Não é dogging quando um casal resolve, privadamente, fazer sexo na rua ou num carro estacionado. Por isso, hora e locais são previamente combinados com uma comunidade, que pode constar de casais e pessoas solteiras. São, sim, exibicionistas e voyeurs, sempre, no entanto, dentro das regras estritas dessa prática. 




Se quiser detalhes sobre essa prática e, até mesmo dicas sobre locais (em São Paulo, principalmente) acesse o site indicado abaixo ou procure na internet sobre a sua cidade ou sobre comunidades nas redes sociais que lhe possam dar informações.




Há, também, no Youtube, um vídeo com uma reportagem do Roberto Cabrini, do SBT, sobre o dogging. Mas é bastante moralista e preconceituosa, mesmo (e principalmente) quando dá a palavra a "especialistas" das áreas de psicologia e direito. Além disso, mistura o dogging com outras práticas, como o voyeurismo e exibicionismo puros e o swing (troca de casais). Serve apenas como breve introdução ao tema.

Ah, sim: o que significa dogging?




A palavra, inglesa, signifca, em geral, "passeio que se faz com o cão (dog)". Denominou a prática de combinar fazer sexo em lugares públicos por razões que vão desde a ideia de que os cães são livres para isso, até a ideia de que levar o cão a passear pode ser o pretexto ou a desculpa para sua prática.




Enfim, dogging é só mais um aspecto da sexualidade humana. Nada tem de desvio de conduta, nem de afronta às leis (ainda que possa sua prática ser considerada "crime"; isso, se houver denúncia de vizinhos, por exemplo, ou o azar do aparecimento da polícia).






(Fotos da internet, sem indicação de autoria).

segunda-feira, 2 de julho de 2012

AFRODISÍACOS








Sempre me fascinou a lenda envolvendo comidas afrodisíacas. Queria escrever sobre isso. Mas, cadê inspiração? Então, deparei com o texto abaixo, publicado no jornal O Estado de São Paulo, no caderno "Paladar" e resolvi dividi-lo com meus leitores e leitoras. Divirtam-se:


OS 'INFALÍVEIS' AVÓS DO VIAGRA




Dias Lopes

Com tantas drágeas azuladas usadas atualmente contra a disfunção sexual, o prestígio dos chamados afrodisíacos naturais está em queda. Até porque a capacidade estimuladora da libido atribuída pelo povo a certos alimentos, ervas, condimentos, etc., nunca foi comprovada pela ciência.

(Casanova - desenho sem indicação de autoria)

Giacomo Casanova (1725-1798), o maior sedutor de todos os tempos, preferia apostar no clima de encantamento que eles ajudam a criar. "Um jantar a dois, com champanhe do começo ao fim e chocolate quente no final, vale mais do que um galanteio", afirmava. É verdade que Casanova julgava atiçar o apetite sexual comendo 12 ostras no café da manhã e outras 12 no almoço.






Na sua época, os afrodisíacos naturais desfrutavam de prestígio incomensurável. Catarina II, a Grande (1729-1796), imperatriz da Rússia, teria conseguido engravidar do conde Serguei Vasilievich Saltykov, o primeiro da sua coleção de amantes, oferecendo-lhe caviar, esturjão ao champanhe e vinho doce da Crimeia. Ela confirmou o fruto desse romance em suas memórias: o futuro czar Paulo I. Catarina II estava casada, mas alegava que o marido, além de indiferente ao sexo, era estéril.





O nascimento de Henrique IV, da França (1553-1610), primeiro rei de França pertencente à família dos Bourbons, também foi atribuído à comida afrodisíaca: um paté de foie (patê de fígado) que seu pai, Antônio de Bourbon, duque de Vendôme, ofereceu a Joana III de Albret. O próprio Henrique IV, que se revelaria um dos reis mais promíscuos da história da França, atribuía a libido exacerbada ao paté de foie e a outros alimentos que ingeria. Teve seis filhos com sua mulher, a florentina Maria de Medici, e pelo menos dez fora do casamento, um dos quais com uma monja da abadia de Longchamps.





Maria Luísa da Áustria (1791-1847), filha de Francisco I e irmã de Maria Leopoldina, mulher do imperador brasileiro Pedro I, enfrentava outro problema. Ao casar com o imperador francês Napoleão Bonaparte, revelou inapetência sexual. Curou-se ao saborear poularde truffée (franga trufada) à la périgueux e deu à luz o futuro Napoleão II. Igualmente na França, a bela e disponível Madame Du Barry (1743-1793), ministrava aos seus parceiros de alcova, antes e depois de se tornar amante do rei Luís XV, uma beberagem feita com gema de ovo e gengibre. "Era infalível", garantiu um biógrafo.






















O ovo, em cuja gala as civilizações antigas acreditavam se esconder o mistério da vida, sempre teve fama de estimulante sexual. "Eu quero ovo de codorna pra comer / O meu problema ele tem que resolver", cantou Luiz Gonzaga no baião Ovo de Codorna, de 1972. Idêntica reputação desfrutou o gengibre, que supunham aumentar o fluxo de sangue genital. Foram ainda considerados afrodisíacos o açafrão, alecrim, alho, amendoim, anis, canela, cravo, catuaba, chocolate, ginseng, hortelã, mamão, mel (os noivos antigos se preparavam para o casamento tomando mel, daí a lua de mel), manjericão, mostarda, noz-moscada, orégano, pinhão, pimenta, salsaparrilha e tomate, por isso mesmo chamado na Itália de maçã do amor e depois, talvez por pudor, de maçã de ouro (pomodoro).





Poucos afrodisíacos naturais exerceram tanto fascínio popular quando a raiz da mandrágora, uma planta da família da batata e do tomate. Entretanto, para "funcionar", devia ser colhida em noite de lua cheia e puxada da terra por uma corda presa a um cão preto. Nicolau Maquiavel (1469-1527) referendou seu poder na peça A Mandrágora. Por conta de uma aposta, o jovem Calímaco corteja uma mulher casada que não consegue ter filhos com o marido. Fingindo ser médico, receita-lhe um tratamento à base de mandrágora. Maquiavel escreveu a história inspirado na política, ou seja, na arte de convencer, manipular e conquistar um objetivo. Os afrodisíacos naturais funcionam? Claro que não. Mas não custa lembrar o ditado de Miguel de Cervantes, no Dom Quixote: "Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay".




(Fotos da internet: sem indicação de autoria).