segunda-feira, 18 de junho de 2012

VIAGEM AO... PESCOÇO (2)






Anatomicamente, o pescoço tem sido descrito como a parte mais sutil do corpo humano. Além de conter conexões vitais entre boca e estômago, nariz e pulmões, cérebro e coluna, o pescoço abriga os principais vasos sanguíneos que ligam coração e cérebro. Cercando essas conexões existem complexos grupos de músculos que permitem que a cabeça execute toda uma gama de movimentos que transmitem importanates mensagens nas interações sociais.









Tradicionalmente, a figura feminina é dotada de uma gracioso "pescoço de cisne", enquanto a figura masculina exibe um "pescoço de touro". Essas diferenças são bastante reais. O pescoço feminino é mais longo e mais delgado, enquanto o masculino é mais curto e mais grosso. Isso ocorre em parte porque a mulher tem um tórax mais curto - e seu osso esterno é mais baixo em relação à coluna que o do homem - e em parte porque a musculatura do homem é mais forte. Não há dúvida de que essa diferença se estabeleceu durante a longa fase caçadora da evolução humana, quando os machos, que possuíam um pescoço mais forte, levavam vantagem em situações de violência física. 







Outra diferença de gênero em relação ao pescoço é a presença do pomo-de-adão, que é muito mais evidente nos homens que seu correspondente no pescoço das evas. Isso ocorre porque as mulheres têm cordas vocais menores - o que lhes dá uma voz mais aguda e exige uma caixa vocal menor. As cordas vocais femininas têm cerca de 13 mm, enquanto as masculinas chegam a 18 mm. A laringe da mulher é cerca de 30% menor que a do homem, e fica colocada mais alto na garganta, o que a faz menos proeminente. Essa diferença laríngea não surge até a puberdade, quando a voz masculina "engrossa". A voz da mulher adulta é mais infantil, mantendo uma frequência entre 230 e 255 ciclos, enquanto a voz masculina atinge entre 130 e 145 ciclos por segundo.





Por alguma razão, as prostitutas experientes têm uma laringe maior e um registro vocal mais grave que outras mulheres. Por que sua profissão as tornaira mais masculinas vocalmente? Não se sabe ao certo, mas há quem tenha levantado a hipótese de que sua vida sexual mais ativa seria capaz de provocar algum desequilíbrio hormonal.





(Modigliani)



Como o pescoço feminino é mais delgado que o dos homens, os artistas têm exagerado essa diferença criando imagens superfemininas. Desenhistas que retratam mulheres atraentes quase sempre estreitam e alongam o pescoço mais do que a anatomia permitiria. As agências de modelos também selecionam moças que tenham pescoço mais longo e mai fino que a média.







Em uma cultura esse interesse por mulheres de longos pescoços foi levado a extremos. A tribo padaung, da Birmânia, se orgulha de se conhecida na Europa por suas "mulheres-girafas". Na língua nativa, a palavra padaung significa "aquela que usa aros de bronze". O costume da tribo exige que as mulheres comecem a usar anéis de bronze no pescoço desde tenra idade. Para começar, cinco anéis são colocados ao redor do pescoço, um número que vai crescendo ano a ano. A mulher adulta chega a exibir entre vinte e trinta colares, mas o objetivo é atingir 32 - um feito raramente realizado. Os aros de bronze também são usados nos braços e pernas, de modo que uma mulher adulta pode carregar de 20 a 30 quilos de bronze. Apesar dessa carga, as mulheres da tribo caminham por longas distâncias e trabalham no campo.





O aspecto mais surpreendente desse costume é o comprimento que o pescoço feminino pode atingir artificialmente. O recorde documentado é de 40 cm. Os músculos do pescoço são distendidos com tal força que as vértebras cervicais se afastam de uma maneira totalmente anormal. A crença é que, se os pesados aros de bronze forem removidos, o pescoço não seria capaz de suportar o peso da cabeça. Os europeus, fascinados por essa distorção cultural do corpo humano, exibiam essas mulheres-girafas em espetáculos de circo - até que exibições desse tipo deixaram de ser consideradas socialmente aceitáveis.







Para as mulheres da tribo padaung, a principal preocupação não é, como se poderia imaginar, a distorção corporal ou a restrição de movimentos provocada por esse bizarro ornamento, mas a dificuldade de encontrar dinheiro para pagar os caros anéis de bronze. Uma solução encontrada recentemente foi escapar para a Tailândia , onde elas podem cobrar 10 dólares para tirar uma foto ao lado de um turista. Para alguns observadores, isso representa um deplorável retorno aos espetáculos circenses de antigamente, mas também se pode argumentar que, dado o alto custo dos anéis, isso pelo menos mantém vivo um antigo costume tribal.









Se perguntarmos aos historiadores da tribo com esse costume começou, eles nos dirão que, em tempos remotos, as mulheres corriam o risco de serem atacadas por tigres, o que as obrigava a usar grossos anéis no pescoço para se proteger. Atualmente, as mulheres da tribo ignoram essa lenda e afirmam que chegam a esses excesso simplesmente porque esses ornamentos as deixam mais belas. Quem somos nós, ocidentais, com nossos piercings na língua, no umbigo e nos genitais, para criticá-las?






(A mulher nua - um estudo do corpo feminino/ Desmond Morris: 

[tradução Eliana Rocha] - São Paulo, Globo, 2005)








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