segunda-feira, 21 de maio de 2012

UM TEXTO DE FERNANDA YOUNG








Ainda a masturbação feminina. Ainda no terreno da ficção. Dessa vez, com um texto de Fernanda Young, do romance "Vergonha dos pés". A escritora aborda o tema do ponto de vista de uma certa superação da tradicional atitude repressora que cerca a sexualidade feminina e, em particular, a masturbação.

Degustemo-lo (ao texto, claro), juntamente com os pesadelos demoníacos e eróticos de Javier Gil:


ANA E SEUS DEMÔNIOS




Ana tinha uma tia, falecida já há alguns anos, que pedia a todos para rezarem para os inimigos invisíveis. Pois todos possuíam os seus. Para a tal tia, cada pessoa tinha um exército de malfeitores que, escondidos dos seus sentidos, a levavam a cometer atitudes ruins. Eram eles que guiavam aqueles que não recorriam a rezas e, assim, se protegiam do mal. Ana ficava horas tentando imaginar como eram os seus inimigos invisíveis. Seriam seres pequenininhos, como átomos, invisíveis a olho nu? Haveria algum aparelho ampliador que fizesse com que ela enxergasse os serezinhos? Costumava imaginá-los de forma bem humana. Eram minúsculos, mas tinham todos os órgãos iguais aos seus. Mulheres, homens e crianças, um bando deles infernizando os humanos normais.




Quando descobriu sentir-se excitada com as cenas de amor dos filmes a que assistia na televisão, percebeu que era a mesma sensação de quando se tocava na vagina. Notou, através dos beijos falsos dos atores, que existia no seu corpo uma excitação ainda sem nome. Essa ação ingênua, mas já sexual, com o tempo - talvez por repressões familiares ou por sua própria personalidade - passou a parecer coisa do mal. Não se continha em tocar-se, mas, logo que terminava de fazê-lo, se arrependia a ponto até de adoecer. Uma noite, sonhou com o Demônio, exatamente como eles são nos filmes de má qualidade: com chifre, vestido de vermelho-cetim e com um tridente na mão. Tudo pareceu muito claro e verdadeiro.




No sonho, estava sentada no hall do prédio em que morava, quando Ele se aproximava lentamente e dizia coisas. Não de forma aterrorizante - simplesmente falava como se estivesse conversando com alguém íntimo. Ana não escutava o que o Demônio dizia para ela, apenas via a cena, de fora. Quando acordou, estava transtornada, como fica a maioria das pessoas quando tem pesadelos. Mas acabou esquecendo o ocorrido. Até que mais uma vez sonhou com Ele, e também mais uma vez não escutou o que Ele dizia. Assustou-se, acordou apavorada. Tinha certeza de que aquilo estava ligado à excitação que sentia quando se tocava. Era daquela forma que o exército estava lutando para destruí-la e conduzir seus atos ao caminho do mal e da desgraça. Tudo parecia claro para Ana. Só não entendia por que logo o Diabo é que estava avisando a ela que o que fazia era errado. Não deveria ser Deus? Ou, ao menos, o seu anjo da guarda?




Durante algum tempo, Ana tentou conter o seu desejo de se masturbar, mas acabou por desistir de seguir os conselhos do Diabo e por aceitar que estava inevitavelmente dominada pelos inimigos invisíveis.




"VERGONHA DOS PÉS", DE FERNANDA YOUNG; Editora Objetiva Ltda., Rio de Janeiro - RJ; 1996.

Um comentário:

Elton Sipião Anjo das Letras disse...

Muito bom texto, bem escrito pela Fernanda Young. Um texto que nos faz refletir de como o cristianismo tem essa mania de colocar a "culpa" naquele que ousa sentir prazer através da sua sexualidade.Eu já fui católico praticante e como Ana a protagonista deste conto e como sua velha tia,também pensava que as sensações libidinosas que tinha quando era jovem era coisa do "chifrudo". Hoje liberto pela literatura e pelo simples e claro uso da razão, vejo que isso era uma grande bobagem que padres e a própria doutrina da Igreja haviam colocado dentro da minha cabeça. Se o homem sempre sofreu com a repressão da religiosidade judaica-cristã,imagine a mulher em todos os tempos?Ainda hoje mesmo a mulher que deseja vivenciar a sua sexualidade livre da moral barata e religiosa imposta por essa mesma igreja e sociedade patriarcal, sofre.Afinal esta mulher que assim age, é considerada suja e indigna de respeito por tal Igreja e por tal sociedade,oque em minha opinião, tal situação se configura como absurda.A masturbação feminina até hoje é um tabu que provoca polêmicas. E os mais esclarecidos sabem que é importante que a mulher aprenda desde o momento que se desperte para a sua sexualidade, a se tocar intimamente com o intuito de conhecer melhor o seu próprio corpo.Belo blog o teu.Parabéns.Que a Deusa branca,a Senhora Lunar,a Antiga Musa, sempre esteja contigo.