terça-feira, 29 de maio de 2012

VIAGEM AO... PESCOÇO (1)







No Ocidente, os homens costumam olhar o pescoço da mulher simplesmente como algo que segura a cabeça. Eles sabem que a pele do pescoçõ é sensível a carícias e que beijá-lo suavemente pode excitar a parceira durante as preliminares do sexo, mas, além disso, quase não dão atenção. Com certeza o pescoço não é considerado uma zona erógena importante.




A situação é muito diferente no Japão, onde a exposição da parte posterior do pescoço é vista como um forte estímulo sexual - equivalente a expor os seios no Ocidente. É uma ação que se espera de uma gueixa, mas que é rejeitada pelas esposas respeitáveis.




Tradicionalmente, toda gueixa era treinada na arte de expor elegantemente a nuca, e ainda hoje podemos constatar isso entre as poucas gueixas remanescentes de Quioto. Suas roupas têm uma gola alta na frente e baixa atrás, expondo a nuca e as costas. Como afirmou um comentarista, homens de todo o mundo parecem apreciar a linha ondeada da nuca feminina, nas no Japão ela mergulha nas costas.


(Hiroko Sakai - moon)


Quando aplica sua maquiagem branca (que inclui um ingrediente vital: excrementos de rouxino), a gueixa deixa uma margem de pele aprarecendo junto à linha dos cabelos. Isso enfatiza a artificialidade da maquiagem e excita o homem, porque chama a atenção para a pele sob a máscara branca. Segundo um observador, o significado erótico desse costume é aumentado pela forma especial da nuca, "um V perfeito de pele nua que lembra as partes íntimas da mulher".




Existe uma frase em japonês para descrever a beleza da linha da nuca feminina - kamata no kereagatta hito -, mas seu significado mudou. Como a maquiagem é deliberadamente aplicada de modo a imitar a forma dos genitais, a frase hoje significa "uma gueixa com adoráveis genitais".




Uma curiosa teoria tenta explicar o desvio da atenção erótica dos japoneses dos seios para a nuca. Afirma que, tradicionalmente, as crianças japonesas passam mais tempo agarradas às costas da mãe do que acarinhadas em seus seios. Essa, além do fato de que os seios das mulheres japonesas são relativamente pequenos, seira a razão para a fixação masculina na nuca.






(A mulher nua - um estudo do corpo feminino/ Desmond Morris:

 [tradução Eliana Rocha] - São Paulo, Globo, 2005)



segunda-feira, 21 de maio de 2012

UM TEXTO DE FERNANDA YOUNG








Ainda a masturbação feminina. Ainda no terreno da ficção. Dessa vez, com um texto de Fernanda Young, do romance "Vergonha dos pés". A escritora aborda o tema do ponto de vista de uma certa superação da tradicional atitude repressora que cerca a sexualidade feminina e, em particular, a masturbação.

Degustemo-lo (ao texto, claro), juntamente com os pesadelos demoníacos e eróticos de Javier Gil:


ANA E SEUS DEMÔNIOS




Ana tinha uma tia, falecida já há alguns anos, que pedia a todos para rezarem para os inimigos invisíveis. Pois todos possuíam os seus. Para a tal tia, cada pessoa tinha um exército de malfeitores que, escondidos dos seus sentidos, a levavam a cometer atitudes ruins. Eram eles que guiavam aqueles que não recorriam a rezas e, assim, se protegiam do mal. Ana ficava horas tentando imaginar como eram os seus inimigos invisíveis. Seriam seres pequenininhos, como átomos, invisíveis a olho nu? Haveria algum aparelho ampliador que fizesse com que ela enxergasse os serezinhos? Costumava imaginá-los de forma bem humana. Eram minúsculos, mas tinham todos os órgãos iguais aos seus. Mulheres, homens e crianças, um bando deles infernizando os humanos normais.




Quando descobriu sentir-se excitada com as cenas de amor dos filmes a que assistia na televisão, percebeu que era a mesma sensação de quando se tocava na vagina. Notou, através dos beijos falsos dos atores, que existia no seu corpo uma excitação ainda sem nome. Essa ação ingênua, mas já sexual, com o tempo - talvez por repressões familiares ou por sua própria personalidade - passou a parecer coisa do mal. Não se continha em tocar-se, mas, logo que terminava de fazê-lo, se arrependia a ponto até de adoecer. Uma noite, sonhou com o Demônio, exatamente como eles são nos filmes de má qualidade: com chifre, vestido de vermelho-cetim e com um tridente na mão. Tudo pareceu muito claro e verdadeiro.




No sonho, estava sentada no hall do prédio em que morava, quando Ele se aproximava lentamente e dizia coisas. Não de forma aterrorizante - simplesmente falava como se estivesse conversando com alguém íntimo. Ana não escutava o que o Demônio dizia para ela, apenas via a cena, de fora. Quando acordou, estava transtornada, como fica a maioria das pessoas quando tem pesadelos. Mas acabou esquecendo o ocorrido. Até que mais uma vez sonhou com Ele, e também mais uma vez não escutou o que Ele dizia. Assustou-se, acordou apavorada. Tinha certeza de que aquilo estava ligado à excitação que sentia quando se tocava. Era daquela forma que o exército estava lutando para destruí-la e conduzir seus atos ao caminho do mal e da desgraça. Tudo parecia claro para Ana. Só não entendia por que logo o Diabo é que estava avisando a ela que o que fazia era errado. Não deveria ser Deus? Ou, ao menos, o seu anjo da guarda?




Durante algum tempo, Ana tentou conter o seu desejo de se masturbar, mas acabou por desistir de seguir os conselhos do Diabo e por aceitar que estava inevitavelmente dominada pelos inimigos invisíveis.




"VERGONHA DOS PÉS", DE FERNANDA YOUNG; Editora Objetiva Ltda., Rio de Janeiro - RJ; 1996.

domingo, 13 de maio de 2012

DIA DAS MÃES







(www.albrightcreativeimagery.com).

segunda-feira, 7 de maio de 2012

MARIA TEREZA HORTA, DE NOVO





Da poeta portuguesa, de quem já publiquei dois ou três poemas, trago um texto que aborda um tema nem sempre muito confortável para as mulheres: a masturbação.

Há algumas histórias cabulosas sobre a masturbação feminina. Vou abordar o assunto numa publicação próxima, sob o aspecto da história da medicina e seus equívocos a respeito da sexualidade, principalmente da sexualidade feminina.

Por enquanto, degustemos desse fino prazer, através dos versos belos e corajosos de MARIA TEREZA HORTA, com ilustração de Anthony Christian (1945) , um pintor britânico que gosta de retratar temas polêmicos em suas obras:  





Masturbação 






Eis o centro do corpo

o nosso centro
onde os dedos escorregam devagar
e logo tornam onde nesse
centro
os dedos esfregam - correm
e voltam sem cessar

e então são os meus

já os teus dedos

e são meus dedos

já a tua boca

que vai sorvendo os lábios

dessa boca
que manipulo - conduzo
pensando em tua boca

Ardência funda

planta em movimento
que trepa e fende fundidas
já no tempo
calando o grito nos pulmões da tarde

E todo o corpo

é esse movimento
que trepa e fende fundidas
já no tempo
calando o grito nos pulmões da tarde

E todo o corpo

é esse movimento
em torno
em volta
no centro desses lábios

que a febre toma

engrossa
e vai cedendo a pouco e pouco
nos dedos e na palma